Imponderável

O mundo quase virou pó de mico em outubro de 1962 durante a Crise dos Mísseis. Os Estados Unidos descobriram…

O mundo quase virou pó de mico em outubro de 1962 durante a Crise dos Mísseis. Os Estados Unidos descobriram a instalação de bombas nucleares enviadas pelos soviéticos em Cuba. Represália pela instalação de armamento pesado na Itália, Turquia e Grã-Bretanha. Guerra Fria. Foram 13 dias terríveis de informações e contradições, ameaças e conspirações, acompanhados pelo planeta inteiro apavorado.

No auge da tensão, negociações emperradas com o primeiro-ministro Nikita Kruschev, o presidente John Kennedy convoca seu assessor especial, amigo pessoal, confidente e redator de seus principais discursos, Ted Sorensen.

Após decidir fazer um pronunciamento de TV de alerta aos norte-americanos sobre o bloqueio naval aos soviéticos e deixar claro o perigo de um desfecho catastrófico, JFK determinou:

– Ted, quero dois discursos. Um para o caso de invadirmos Cuba para destruir os mísseis.

Prosseguiu:

– E outro, para ser usado se houver entendimento e a paz prevalecer.

Depois de longas propostas e dissimulações diplomáticas trocadas por telegramas, o povo limpando o estoque dos supermercados para comprar alimentos e construindo abrigos subterrâneos em suas casas, o sol nasceu no dia 28 de outubro de 1962, Kruschev concordando em retirar o arsenal em troca da desativação gradual dos torpedos instalados na Europa.

Houve comemoração na Casa Branca. Alívio e o presidente, extenuado, vê Ted Sorensen pálido no toalete da ala superior. Encontra clima para perguntar:

– Escreveu os dois discursos Ted?

– Não, presidente, apenas um.

Kennedy olha espantado para o auxiliar e insiste:

– Apenas um? Qual deles?

Ted Sorensen, ainda lívido, responde:

– Escrevi o discurso da conciliação, do entendimento.

O presidente não se conforma:

– E se fôssemos invadir mesmo Cuba, você não me entregaria o discurso?

A resposta de Ted Sorensen é uma prova do seu brilhantismo discreto até a morte aos 82 anos, de derrame cerebral, em 2010:

– A invasão seria a Terceira Guerra Mundial, seria o imponderável e Deus não me deu o dom de escrever sobre o imponderável.

JFK sai sem se despedir de Ted Sorensen, autor de textos memoráveis como o que o presidente leu ao tomar posse. JFK entra no Salão Oval e se depara com um grupo, festejando o fim da ameaça de apocalipse à base de champanhe e cobiça:

– Mais quatro anos! Mais quatro anos! Começou agora a campanha da reeleição, presidente, ninguém poderá nos deter”, exclamava um secretário político, trazendo para a suma egolatria o êxito da torturante missão e se incluindo no protagonismo.

JFK apenas ri e recomenda descanso a todos. Morre um ano depois, com a cabeça destroçada a tiros. Ted Sorensen não redigiu as poucas linhas murmuradas com expressão compungida pelo vice, Lyndon B. Johnson, até hoje incluído como um dos suspeitos de articular o assassinato do líder, nas inúmeras e intermináveis teorias conspiratórias sobre o crime em Dallas.

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Sisudo, óculos reveladores da personalidade, Ted Sorensen continuou atuando na Casa Branca nos governos de Johnson dedicando-se a atividades burocráticas e escrevendo. Publicou oito livros sobre Kennedy e a política norte-americana.

Aprendi a admirar Ted Sorensen pelo corte perfeito de um bom assessor. Tranquilo, retraído e atuando de preferência quando chamado, sem demonstrar vaidade ou exibicionismo, tão habituais nas adjacências de qualquer poder, onde a mediocridade da bajulação sempre é favorita a vencer a competência e o profissionalismo.

O imponderável de Ted Sorensen na agonia daqueles que foram considerados os piores dias da humanidade após a Segunda Guerra também está nas aparentes e atuais barbaridades de menor Ibope.

Tento e não consigo encontrar um rumo para comentar o absurdo de um flagrante da tragédia urbana brasileira.Nada de morte por violência, tráfico, tiro, mulher arrastada, policial caçado por facções criminosas, novas denúncias de gastos exagerados para a Copa do Mundo, nenhuma carnificina da pauta frequente e diária.

Imponderável – ou inexplicável, na explosão banal do bizarro, é a farra de um grupo de funcionários da Secretaria Municipal de Saúde de Belfort Roxo, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, flagrada pela mídia.

Felizes e fagueiros, eles encheram um carro com salgadinhos, bolo, refrigerante e os apetrechos indispensáveis para uma algazarra de aniversário. Tudo organizado pela chefe do serviço, mulher do homenageado.

Obedecendo as ordens da donzela, subalternos enfiaram guloseimas, enfeites e a indestrutível sensação de impunidade dentro de uma ambulância. É. A festa foi dentro de um veículo do Samu, serviço de emergência para atender baleados, feridos em acidentes de trânsito.

É imponderável. Na teoria, nem tanto quanto uma guerra nuclear. Mas o festim macabro de Belfort Roxo zombou das vítimas que terminaram com sequelas ou mortas precisando de atendimento. E a morte causada pelo cinismo e a irresponsabilidade é tão morte quanto em conflito internacional. Só consigo escrever e entender que a morte representa o fim.

 

Estimulo

O primeiro tempo do América ontem serve de estímulo para o segundo turno. Um time desfalcado e corajoso. O técnico Oliveira Canindé está começando a demonstrar que não é um dos abomináveis da retranca.

 

Primeira partida

A avalanche em Fortaleza desclassificou o América da Copa do Nordeste. Mesmo assim, por pouco, nos 45 minutos iniciais, o time não devolve o placar. Encurralou os cearenses. Ficou a desagradável sensação do se e do quase.

 

Gláucio

Muito bom jogador. É um preciosista, espécie rara e indispensável ao futebol.

 

Zé do Carmo

Será o técnico do ABC hoje contra o Baraúnas. Jogo decisivo. Zé do Carmo não vai se assustar. Nunca teve medo nem de Zico no tempo em que jogava pelo Vasco.

 

Livro

Zico Simplesmente – o livro de Priscila Ulbrich –, ganhei do amigo Túlio Lemos, uma senhora demonstração de apreço. A dedicatória mexeu com os brios. E tem o texto – cheio de efeito – do parceiro Alex Medeiros.

 

Walysson

É cristalina a solidão de Wallyson no Botafogo. Parece que há boicote ao Magro de Macaíba. A bola não chega aos seus pés, embora ele lute e se desloque. Quando alguém a entrega, ela vem bisonha, desarrumada. Os quatro gols parecem impunes aos invejosos.

 

Cusparada

O atacante Ebinho, do Corintians de Caicó, pegou suspensão de seis jogos por cuspir no rosto de um adversário. A cusparada é um dos atos mais indignos da humanidade. É a infâmia vomitando.

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