Inaldo Lima da Silva veio de Cuiabá para Natal na figura de Chapeuzinho

Ele teve uma vida triste que foi superada com arte circense

Inaldo Lima da Silva, ou o palhaço Chapeuzinho, segue o ritual desde 2007, ano em que chegou a Natal. Foto: Wellington Rocha
Inaldo Lima da Silva, ou o palhaço Chapeuzinho, segue o ritual desde 2007, ano em que chegou a Natal. Foto: Wellington Rocha

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

“Stop! Kikú showman!”. Moradores parados no sinal do cruzamento da rua Missionário Gunnar Vingren com a avenida Roberto Freire, no lado oposto ao restaurante Bari Palesi, estão acostumados com a frase incompreensível. O autor é um sujeito pequeno, sorridente, de pele avermelhada, por viver com o sol a pino, travestido com múltiplas cores e uma gravata fálica chamada Tonha, que simula uma ereção ao receber impulsos de um arame escondido. Inaldo Lima da Silva, ou o palhaço Chapeuzinho, segue o ritual desde 2007, ano em que chegou a Natal para abandonar um passado lastimoso, iniciado há 48 anos em Cuiabá, Mato Grosso. Nas próximas linhas, você saberá um pouco mais de sua graça e tragédia.

Inaldo mora em Extremoz, onde cuida de um sítio de um sargento da polícia. A troca é justa. Ele mantém duas pocilgas em ordem, e ganha moradia para a família, que inclui a esposa Anailde, uma índia avistada na plateia ainda no Estado do Centro-Oeste, e seis filhos (cujas idades variam entre dois e seis anos). Uma tatuagem gasta em seu ombro esquerdo denuncia o amor incondicional pela parceira. Com ela, cruzou o país para fugir da pobreza anunciada após a morte do pai, também palhaço, trapezista e dono do circo Real Argentino. O patriarca da trupe morreu ao cair de um mastro, enquanto armava a estrutura do circo, na semana anterior a um espetáculo. Nosso personagem tinha 19 anos.

Foi a senha melancólica para andanças por Alagoas, Paraíba e Pernambuco. Talhado na arte de extrair simpatia dos outros, o palhaço Chapeuzinho vai às lágrimas com a retrospectiva do desespero que o acometeu. “Na rua a gente é muito humilhado, mas tem a vantagem de ter liberdade, de fazer o que quer. Quando eu trabalhava em circo, era explorado pelos donos, que botam o cara para fazer tudo, armar o picadeiro, limpar trailer, tudo”. Especialista em malabares e arremessar facas com fogo, ele estava em Maceió, na hora em que ligaram para informar sobre o enfarto fulminante sofrido pela mãe, residente em João Pessoa – onde travaria o derradeiro contato com os quatro irmãos e venderia um trailer e uma caravan da progenitora, como herança.

“Rapaz, aquilo acabou comigo. Foi igual quando meu pai morreu. Só que eu tive que ir para a Paraíba cuidar do enterro e resolvi ficar quatro meses por lá, nas ruas mesmo”. Até que veio a curiosidade pela capital potiguar, cidade da qual ouvia mil elogios. Sem parentes ou conhecidos potiguares, desembarcou na rodoviária com a esperança de incrementar a renda com o trabalho nos sinais de trânsito. O ponto escolhido observou o fluxo de veículos e a localização em um bairro de classe média e alta. Diariamente, das 06 às 10 horas, brinca com motoristas ao esticar o pé, como no ato de ligar uma motocicleta, para animar ‘Tonha’. Neste instante, sisudez é coisa rara.

A alegria e notoriedade na região atraíram colaboradores em sua batalha pela sobrevivência. Uma senhora, moradora das imediações, doa R$150,00 todos os meses, assim como outra, que circula pela via, pagou pelo material escolar de um dos filhos. “Aí tem gente que me chama de vagabundo, que me manda trabalhar, só porque estou na rua. Eles não veem que estou levando alegria para as pessoas, que aprendi com meu pai a arte do circo e que nunca peço nada a ninguém”. Ao concluir o número cômico, caminha em meio a fila de automóveis e lança um sugestivo “Deus abençoe vocês! Bom trabalho a todos”. E aguarda os generosos – quanto à frase de boas vindas, ele confessa não fazer a menor ideia do que significa.

Eram 06h12 da quinta-feira e Inaldo se maquiava, ao mesmo tempo em que conversava comigo. Olho no interlocutor, olho na bolsa com pertences. Durante três anos, era comum dormir na rua para economizar com a passagem de ônibus. “E eu já amanhecia por aqui, pronto para pegar os primeiros motoristas”. Só que existem os medonhos, os desregrados, os viciados dispostos a tirar até os talhares de quem procura comida. A desconfiança virou regra desde a noite em que o sono pesado embaçou sua percepção e um malandro levou sua mochila com R$112,00, referentes a dois dias de labuta – ele confirma que tira, em média, R$45, 00, R$50,00 por dia com a mania de jogar bolinhas para o alto, sem deixa-las cair.

“Meu único vício é cigarro. Não consigo parar [uma carteira de Derby por dia], mas sei que ele faz muito mal. Fora isso, bebo muito pouco [tinha tomado quatro copos de cerveja na noite anterior à entrevista, motivado pelo aniversário de um cunhado] e não uso drogas. As pessoas me ajudam aqui por que sabem do meu sofrimento e que não sou cabra safado”. Talvez por isso ele entenda que a dificuldade enfrentada pelos mais pobres mereça compaixão. Com o número que costuma apresentar em eventos sob encomenda, foi bater em Pium, em um orfanato de crianças outrora ao léu. “Nesse caso, não cobro nada, faço por que gosto delas”. Sem nunca ter ido a uma escola, porém com noções básicas de português, Inaldo sabe ler e escrever o necessário para sua subsistência.

O único livro em sua casa é a Bíblia Sagrada, ainda que religião seja um tema indiferente. “Acredito em Deus”. O palhaço Chapeuzinho poderia estar embaixo da terra, caso o plano de sua primeira mulher vingasse. “Ela, por ciúmes, tentou me matar, quando eu estava dormindo. Foi ali que tudo terminou”. Desse certo a violência doméstica, seria mais um na estatística da carnificina nacional. Quis o acaso, ou o destino, como preferem os tementes ao Senhor, que os mais de 3,5 mil km que separam Cuiabá de Natal fossem mais um motivo para fortalecer sua dignidade. Ávido para por em prática o lado seresteiro, fã de Fábio Jr, Sandra Sá e Maria Betânia, ele queria um violão para trabalhar nos finais de semana. “O povo daqui é muito humilde e me ajuda muito. Com a música eu conseguiria mais sorrisos e retribuir o carinho”.

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