Infectologista alerta para epidemia de dengue em Natal durante a Copa

Especialistas internacionais também alertam sobre os riscos. Início do período chuvoso pode aumentar casos

Para Luiz Alberto, erradicar a doença agora é quase impossível. Desafio é tentar controlar. Foto: Heracles Dantas
Para Luiz Alberto, erradicar a doença agora é quase impossível. Desafio é tentar controlar. Foto: Heracles Dantas

Roberto Campello

roberto_campello1@yahoo.com.br

Especialistas alertam que o risco de aparecer uma epidemia de dengue no Brasil durante a Copa do Mundo é alto. Um novo tipo da doença foi descoberto recentemente na Malásia, e, a expectativa é que este ano os casos aumentem. As informações foram divulgadas recentemente pela revista Nature e confirmada pelo infectologista Luiz Alberto Marinho. Estima-se que o país receberá cerca de 600 mil turistas durante o período dos jogos, fato que, ao lado do grande trânsito interno de torcedores, deve contribuir para o registro da dengue no Rio Grande do Norte. A principal preocupação é com as cidades onde as temperaturas são altas mesmo no inverno, como Salvador, Fortaleza e Natal, palcos de algumas partidas.

O grande número de casos de dengue registrados em cidades de todos os estados do Brasil já preocupa os países vizinhos, principalmente Uruguai e Argentina. Na América do Sul, esses são os únicos dois países que não têm casos autóctones (em que a doença foi contraída no próprio país). No entanto, o risco de epidemia em várias regiões brasileiras faz com que os governos argentino e uruguaio redobrem a atenção para a virose.

No Uruguai, seleção que deve jogar em Natal, o Ministério de Saúde Pública alerta a população para que seja intensificado o combate aos focos do mosquito que costumam aparecer com mais facilidade no período de chuvas, que dura até abril. No fim de 2013, o governo uruguaio informou que o país estava sem qualquer registro autóctone de dengue e que poderia ser considerado livre da doença. Mesmo assim, representantes dos departamentos se reuniram para iniciar uma campanha de prevenção. A preocupação maior é com a chegada do mosquito pelas fronteiras com o Brasil e, por isso, ações de combate aos criadouros são realizadas com frequência em regiões próximas às cidades brasileiras.

Especialistas da Universidade de Oxford chamaram a atenção para as chances de ocorrência de surtos de dengue durante a Copa do Mundo e colocou três cidades do Nordeste sob alerta: Fortaleza, Salvador e Natal. Em uma coluna na revista científica Nature, o pesquisador britânico Simon Hay defende que o Brasil deveria fazer campanhas de alerta aos turistas sobre os riscos da doença e aumentar as medidas de controle.

Em resposta ao artigo da Nature, o Ministério da Saúde disse que “em junho e julho, meses em que serão realizados os jogos da Copa do Mundo 2014, as taxas de incidência da doença mostram baixa transmissão na região Nordeste, não havendo evidências de que, durante a realização dos jogos, possam ocorrer epidemias de dengue nas cidades-sede”.

No entanto, o infectologista Luiz Alberto Marinho rebateu as declarações do Ministério da Saúde. “Não estamos fazendo projeção. São dados históricos que comprovam que é justamente nesse período em que há o grande número de pessoas infectadas. O risco é permanente e este ano não é diferente”, afirmou o especialista.

Para Luiz Alberto Marinho, erradicar a doença é quase que impossível, conforme cita a própria Organização Mundial da Saúde (OMS). O desafio agora é tentar controlar a doença. “Erradicar é praticamente impossível e um sonho, mas não conseguimos nem fazer o básico, que é o controle de epidemias. Evitar que a doença ocorra sobre a forma de epidemia. Epidemia é quando ela se alastra. A dengue é uma doença para ter o ano todo, todo o ano, mas com casos esporádicos. A possibilidade de este ano ser epidêmico é muito grande”, afirmou o infectologista.

Para ele, caso o número de pessoas infectadas com a doença aumente no período que antecede o Mundial, dificilmente os turistas europeus e norte-americanos virão para o nordeste brasileiro. “Eu venho alertando isso desde 2009 que deveríamos ter nos preparado pelo menos três anos antes do Mundial, com um trabalho perfeito, para termos certa garantia de que no ano da Copa, e daí para frente, não corrêssemos esse risco de epidemia. Esse é um aspecto básico que não foi preocupado. Este ano, não tem muito o que fazer, pois o trabalho para o ano é sempre feito no ano anterior. O trabalho deve ser feito numa tentativa de minimizar esse risco que é grande”, destacou.

O infectologista Luiz Alberto Marinho elencou oito motivos que justificam a perene vulnerabilidade do Rio Grande do Norte, em especial a cidade de Natal, às epidemias (surtos) da doença. Primeiramente, ele cita o clima quente e úmido que torna-se altamente favorável a proliferação do mosquito. Além disso, o Aedes aegypti é um inseto doméstico, portanto muito próximo das pessoas, não exigindo condições especiais para sua multiplicação em diferentes recipientes, produzidos pelo homem e algumas de suas formas evolutivas, ovos, larvas e adultos já demonstram resistência à inseticidas e larvicidas.

“Estamos longe de razoável oferta de água potável diariamente a todos os imóveis da cidade, evitando-se assim a necessidade da população acumular o precioso líquido em recipientes, que são candidatos a criadouros do mosquito. Mesmo com a oferta sofrível de água, em geral sua pressão mínima permitida quase nunca é atingida globalmente”, ressaltou o especialista.

Além disso, cita Luiz Alberto Marinho, a coleta de resíduos sólidos, lixo que possa ser transformado em criadouro do mosquito, permanece insuficiente, haja vista a constante presença de plástico, metal, borracha, nos quintais, jardins, terrenos baldios e vias públicas da cidade, bem como a constância do comércio de ferro velho, exibindo ao relento carcaças de veículos automotores em vários pontos da cidade.

O especialista considera ainda que a os programas municipais de controle das endemias quase nunca atingem os seus objetivos. “Neste mister, sobressaem-se os ciclos de visitas dos agentes de saúde a todos os imóveis da cidade, anualmente. Além de extremamente insuficientes por motivos variados, como greve de pessoal, falta de insumos, grande número de imóveis não visitados por estarem fechados, seus resultados nunca produziram o efeito desejado, demonstrando pelos parcos bons resultados nos índices de infestação predial por menor que seja o período analisado”, considera.

Por fim, a presença concomitante de diferentes sorotipos do vírus dengue na cidade, explica o especialista, aumenta a chance de pessoas susceptíveis e eleva sobremaneira a possibilidade do aparecimento da forma mais grave da doença (FHD). “Tudo isso leva a expectativa de surtos da doença em um futuro próximo, inclusive este ano, principalmente pela presença do sorotipo Den 4, recém-identificado e contra o qual, admite-se, grande parte da população não tem anticorpos, sendo, portanto, susceptível. Por outro lado, um percentual enorme da população já teve contato com um ou mais sorotipos existentes há maior tempo, com isso há também a possibilidade de aumento considerável dos casos de FHD. Some-se ao fato de que os atuais índices de infestação predial são totalmente compatíveis com risco de surtos proximamente”, alerta o infectologista Luiz Alberto Marinho.

Luiz Alberto Marinho acredita que este ano a situação pode ser mais crítica ainda em função do trabalho de combate ao mosquito realizado no ano passado foi deficitário. “Os trabalhos desenvolvidos pelos agentes de endemias nunca foram corretos e o ano passado foi um dos piores anos. Se os criadouros não foram destruídos, então tem muito inseto espalhado por aí nos bairros. Basta começar a época das chuvas, os recipientes começam a ganhar água e os mosquitos começam a aumentar a população e a epidemia começa a acontecer”, considera o especialista.

Doença

A dengue é uma doença infecciosa, aguda, causada por um vírus transmitido ao ser humano pelo inseto Aedes aegypti. Clinicamente caracteriza-se por quadro febril, acompanhado de dores musculares, dor de cabeça, moleza, perda de apetite, manchas vermelhas pelo corpo e alteração do paladar. Também são comuns pequenos sangramentos pelo nariz, gengiva, urina ou pele.

De acordo com o infectologista Luiz Alberto Marinho, a dengue é uma doença predominantemente tropical, onde o clima é quente e úmido em grande parte do ano, sendo mais comum em lugares de baixa altitude e sua ocorrência está relacionada com o período chuvoso. O especialista conta que, historicamente, o período chuvoso em Natal se estende de abril a julho.

A infecção, segundo o especialista, é causada por um único vírus, mas com quatro sorotipos diferentes: Den 1, Den 2, Den 3 e Den 4. A imunidade é sorotipo-específica, portanto pode-se adoecer por mais de um sorotipo, embora seja necessário um intervalo entre as infecções aproximadamente de três a seis meses. Todos os quatro sorotipos podem causar quadros clínicos benignos, de média gravidade e grave, embora individualmente, o sorotipo Den 2 seja considerado o mais virulento.

“O primeiro e segundo existe desde o início da epidemia, por volta de 1996. O tipo três chegou em 2001 e agora, há um ou dois anos, o novo tipo surgiu. Grande parte da população pode adoecer e o surto dele (tipo 4) pode acontecer. Com isso a região está sobre constante risco de surtos epidêmicos. Os quadros mais graves, dengue hemorrágico e choque por dengue, são nitidamente mais comuns em pessoas que têm a infecção a partir da segunda vez, configurando a infecção sequencial”, explicou Luiz Alberto Marinho.

Mosquito

O Aedes aegypti é um inseto doméstico, em que a fêmea, que se alimenta de sangue, tem hábitos alimentares, preferencialmente, nos finais da tarde e início da noite, entre 17h e 19h30, ou próximo ao raiar do sol, entre às 4h e 7h. Caso a fêmea esteja contaminada com o vírus dengue, transmite ao ser humano durante a picada para alimentar-se.

A fêmea do Aedes aegypti deposita seus ovos em recipientes que possam funcionar como criadouros. Caso deposite em recipientes sem água, eles conseguem resistir até 365 dias à espera de água. O inseto reproduz-se com maior eficiência com o aumento das chuvas, quando além do clima quente há elevação da umidade relativa do ar. Eles preferem recipientes à sombra, com água limpa ou pouco poluída.

O especialista destacou as principais características de ambientes propícios à proliferação do inseto, como o clima quente e úmido, próprio dos períodos de chuva nas regiões tropicais. “A coleta de resíduos sólidos deficitária ou inexistente nas residências, via pública, terreno baldios, quintais e jardins, a oferta insuficiente de água encanada e tratada aos imóveis da cidade, a ausência de um programa de educação permanente de educação à população sobre e combate e destruição dos criadouros do mosquito transmissor nos domicílios e a interrupção dos programas governamentais nas esferas federal, estadual e, principalmente, municipal de combate ao mosquito e seus criadouros, através da visitação periódica de agentes de saúde a todos os imóveis da cidade são características que ajudam na proliferação no inseto”, destacou o infectologista Luiz Alberto Marinho.

 

 

 

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