Inframérica teme poucos voos no aeroporto de São Gonçalo

Uma audiência pública é usada para pressionar Governo do Estado

A audiência pública, que em junho já havia debatido a desoneração entre os temas principais, desta vez dedicou quase todo seu espaço para o assunto. Foto: Divulgação
A audiência pública, que em junho já havia debatido a desoneração entre os temas principais, desta vez dedicou quase todo seu espaço para o assunto. Foto: Divulgação

Marcelo Hollanda
hollandajornalista@gmail.com

O Consórcio Inframérica, responsável pela construção e futura administração do novo aeroporto de São Gonçalo do Amarante, a ser entregue ao público em abril de 2014, começou oficialmente a pressionar o Governo do Estado para desonerar o querosene de avião de 17% para 12%.

O temor não só do consórcio como de empresários do turismo, é que o empreendimento plantado em São Gonçalo do Amarante comece a operar com a atual movimentação do aeroporto Augusto Severo, quando sua capacidade para movimentar passageiros é quatro vezes superior.

O maior exemplo dessa pressão, que só tende a crescer com a proximidade da entrega do novo terminal, aconteceu nesta segunda-feira durante a segunda audiência pública realizada neste ano para debater os destinos do turismo, mas que teve como tema principal a perda de três mil voos pelo RN desde 2011.

Para mostrar o perigo que o aeroporto de São Gonçalo do Amarante corre a partir da concorrência de outros terminais nordestinos, que já desoneraram o custo do querosene de aviação, o Consórcio levou para a audiência pública o consultor tarifário Ari Carrion, que vem dedicando parte de seu tempo ao assunto.

Ao centrar sua palestra na recuperação de vôos pelo aeroporto de Brasília, depois que o governo do Distrito Federal baixou de 25% para 12% a alíquota sobre o principal insumo das companhias aéreas depois da folha de pagamento – o custo do QAV – Carrion fez um comentário que revela bem a preocupação da Inframérica neste momento.

No mês em que iniciam as chegadas dos primeiros voos da FAB ao aeroporto, marcando a fase de homologação do terminal, e com 72% das obras concluídas, o consultor repassou sua preocupação com a queda dramática de voos para o Estado com uma frase de tirar o sono: “Sem passageiros, um aeroporto é apenas uma construção”.

Presidida pelo deputado Hermano Moraes e aberta pelo presidente da Assembléia, Ricardo Mota, a audiência pública, que em junho já havia debatido a desoneração entre os temas principais, desta vez dedicou quase todo seu espaço para o assunto.

Outra evidência de sua importância foi o quórum da mesa, que contou com a presença de três secretários estaduais – Rogério Marinho (do Desenvolvimento Econômico); José Airton da Silva (Tributação) e Renato Fernandes (Turismo), que apesar de demissionário ainda representará a gestão Rosalba até que seu sucessor seja nomeado em data incerta e não sabida.

Além deles, estava lá o presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira, o potiguar Enrico Fermi, hoje baseado em Brasília; o superintendente do aeroporto de São Gonçalo, Ibernon Rodrigues, e de representantes do trade turístico.

Mesmo já praticamente fora do governo estadual, Renato Fernandes cumpriu a difícil tarefa de defender a governadora sem concordar com ela. Tomou posição favorável pela desoneração do QAV como forma de atrair voos perdidos. A certa altura, revelou o raciocínio traçado por Rosalaba para manter em 17% a alíquota sobre o querosene de aviação no RN.

“A governadora espera para ver qual será o movimento do aeroporto para decidir o que fará sobre o assunto”, afirmou. Depois, aproveitou a oportunidade para fazer uma despedida oficial do cargo onde permaneceu um ano e meio comemorado ontem (1).

Mas, os números apresentado em favor da desoneração imediata são implacáveis. Foram apresentados, em parte, pelo superintendente do novo aeroporto, Ibernon Gomes, e em parte pelo consultor tributário que presta serviços ao consórcio Inframérica, Ari Carrion. E antes dos dois, pelo próprio presidente da Assembléia, Ricardo Mota, durante a abertura da audiência pública.

Os dados retratam a realidade dos últimos três anos. De 9.128 pousos registrados entre janeiro a outubro de 2012,  desceram no Augusto Severo no mesmo período deste ano 7.676. Já os voos internacionais caíram de 204 para 181. No total, o RN perdeu nada menos do que 1.500 voos por ano.

O grande argumento usado para os que defendem a desoneração do QAV é o retorno de passageiros na esteira da volta dos vôos. Em Brasília deu certo com a volta de 56 voos perdidos.

No Ceará, o governo pretende anunciar em breve não apenas a desoneração do querosene como também de uma série de insumos usados pelas companhias como forma de melhorar o ambiente competitivo das empresas e, por conseguinte, aumentando o fluxo de aeronaves e pessoas para o estado.

O consultor Ari Carrion lembrou que, ao fazer isso, não se deve pensar apenas no turismo convencional de alta temporada e férias escolares. É preciso, segundo ele, focar em eventos e negócios como uma forma de aumentar a atração de pessoas ao destino durante todo o ano.
Ele qualificou como preocupante a reação de estados vizinhos do RN em estabelecer políticas para atrair vôos baseados na desoneração do QAV, que está muito longe de ser uma renúncia fiscal.

Baseado em número recentes, por conta dessas políticas, Aracaju atraiu este ano mais 1.800 voos; Maceió 603; Recife 265; Salvador 596; Teresina 318 e João Pessoa 10. Fortaleza, que perdeu 191 voos este ano, deve reverter isso com o anúncio em breve de um pacote de medidas com estímulo para empresas aéreas.

O próprio consultor enviado pela Inframérica, Ari Carrion, contou seu problema para sair de Natal em direção a São Paulo. “Ofereceram-me um voo às 14 horas, mas como achei muito em cima da hora para estar no aeroporto por causa desta audiência, pedi para sair mais tarde. Ofereceram então um voo para às 23 horas no qual só chegaria às 9 da manhã. Para não dormir num banco do aeroporto resolvi deixar Natal só às 6 da manhã desta terça-feira”.

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