Instituto do Cérebro se destaca entre os melhores centros de pesquisa do mundo

Amostra do estudo de células realizada no Instituto do Cérebro, na UFRN: pesquisas que colocam o RN entre os centros de destaque do mundo

Cerebro-JA

Carolina Souza

Repórter

Uma estrutura de 1,2 mil metros quadrados. Um corpo docente com 18 pesquisadores do Brasil e do exterior da área de Neurociências. Inúmeros laboratórios com equipamentos de última geração. Quarenta e três alunos do Programa de Pós-Graduação de diversas universidades do país em níveis de mestrado e doutorado. Este é o Instituto do Cérebro (ICe), estrutura instalada próximo ao Campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, que trabalha o desenvolvimento de vários eixos da Neurociência.

Apesar do espaço físico e dos recursos humanos ainda pequenos, em apenas três anos de funcionamento na “cidade do sol”, o Programa de Pós-Graduação do Instituto do Cérebro já formou 11 mestres e dois doutores em Neurociência, viabilizando a publicação de 14 artigos científicos em âmbito internacional, número bastante satisfatório e que coloca a instituição no mapa-múndi científico.

Nesse curto período de tempo, o ICe vem cumprindo, com excelência, sua missão fundamentada no tripé ensino, pesquisa e extensão, despertando interesse de jovens estudantes não só brasileiros oriundos de várias regiões, como também de estrangeiros.

A Neurociência tem crescido de maneira exponencial em todo o mundo e hoje agrega conhecimentos de várias áreas além da biologia, como medicina, biomedicina, física, engenharia da computação, educação, economia, psicologia, sociologia, entre outras. É nessa multidisciplinaridade que o Instituto do Cérebro está inserido.

A pós-graduação trabalhada no Instituto reúne linhas de pesquisa com competências em neurociências de sistemas e cognição, neurobiologia molecular e celular, modelos computacionais de circuitos neurais e análise de dados, neuroengenharia e neuroterapia, através de avançadas técnicas moleculares, celulares, eletrofisiológicas, computacionais, bem como imageamento óptico e ressonância magnética funcional.

“Geralmente, o aluno quando termina a graduação e resolve fazer pós-graduação em Neurociência, escolhe uma dessas linhas de iniciação científica e faz um processo seletivo público, que inclui prova e entrevista. As vagas são abertas anualmente para todas as pessoas, independentemente de suas origens”, explica o professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação do ICe, Marcos Romualdo Costa, pós-doutor em Ciências Biológicas pela universidade de Helmholtz Center Munic, na Alemanha.

“Já alcançamos muitos resultados científicos publicados em revistas internacionais. Essa é uma exigência do nosso programa para os alunos de doutorado, mas também uma forma do aluno de mestrado criar seu próprio incentivo nas pesquisas científicas. Dos 13 alunos já formados pelo Instituto do Cérebro, já tivemos 14 artigos internacionais publicados em revistas com grande impacto de mercado”, destacou.

Da pesquisa, os bons frutos

Um trabalho de potencial aplicação proveniente dos estudos e pesquisa no ICe é o desenvolvido por Natália Bezerra Mota, pesquisadora atualmente em nível de doutorado. O trabalho desenvolvido por Natália visa analisar o discurso de pacientes psiquiátricos, investigando os mecanismos moleculares, celulares e psicológicos responsáveis pelo papel cognitivo do sono.

“Ao relatar um sonho ou uma memória, o paciente, por exemplo, gera um texto capaz de se aproveitar características semânticas que mostram informações diferenciando pesssoas com esquizofrenia de bipolares, por exemplo”, explica Marcos Costa. “Essa ferramenta já está automatizada, disponível para qualquer psiquiatra ou pesquisador interessado”.

O estudo da pesquisadora pode ser considerado como um “Raio-X” da psiquiatria. O artigo sobre o tema, criado em parceria com os professores Sidarta Ribeiro (UFRN), diretor geral do ICe, e Mauro Copelli (UFPE), propõe um método automatizado para o diagnóstico dos transtornos. Por meio de estruturas matemáticas chamadas grafos, os pesquisadores mostram a relação entre o discurso e os sintomas manifestados na fala de sujeitos portadores de esquizofrenia ou transtorno bipolar do humor.

Se um paciente apresenta um discurso pequeno, fragmentado, com dificuldades em manter uma narrativa alongada, poderia ser um sintoma de esquizofrenia. Já o portador de transtorno bipolar seguiria o caminho inverso, ao apresentar uma fala cheia de palavras, apressada, que nem sempre consegue acompanhar o fluxo de ideias.

Segundo o coordenador do Programa de Pós-Graduação, a pesquisa desenvolvida por Natália Mota é uma proposta de ferramenta que auxiliaria no diagnóstico objetivo do paciente, independente da experiência do profissional que a aplicasse com seus pacientes. “Essa ferramenta já está sendo testada em números maiores de pacientes, em grupos de pesquisas em São Paulo, Londres e na Inglaterra, por exemplo”.

Os resultados do estudo foram divulgados por meio do artigo “Graph analysis of dream reports is especially informative abour psychosis”, publicado em janeiro deste ano na revista inglesa Scientific Reports, do grupo Nature.

Pesquisador precisa de “contribuição original”

A publicação de um artigo científico exige tempo, dedicação, recursos materiais e financeiros, além da originalidade. Conforme classifica o professor doutor Marcos Costa, para alcançar uma publicação internacional é necessário que o pesquisador produza uma “contribuição original”. É preciso identificar, descobrir e/ou até validar algum fenômeno que não foi prescrito antes.

“No caso do estudo do cérebro, muitas pessoas o consideram a grande fronteira científica do século XXI. É a área de pesquisa que certamente atrai mais atenção, pois estudar o cérebro significa entender o que nos torna humanos, entender processos de decisões, processos econômicos, comportamento social. De certa forma, a neurociência vem agregando um grande número de interesses de pesquisadores de diversas áreas”, afirma Marcos Costa.

“De um modo geral, o que nós tentamos fazer no Programa de Pós-Graduação e no Instituto do Cérebro é congregar os diferentes conhecimentos, de modo a qualificar as pesquisas. É unir pessoas com formações diversas, gerando um ambiente interdisciplinar com interação entre as diferentes áreas. Isso gera um ambiente propício para que os alunos desenvolvam e descubram algo novo para suas teses”, explicou.

A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), agência que coordena os programas de pós-graduação de todo o país, desempenha papel fundamental na expansão e consolidação da pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) em todos os estados da Federação, como no caso do RN com o Instituto do Cérebro.

Fora o Capes, os projetos de pesquisas científicas também podem ser financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fapern (Fundação de Apoio à Pesquisa do RN). O pesquisador Sergio Neuenschwander, vice-diretor do Instituto do Cérebro, destacou a importância dos trabalhos desenvolvidos pelo ICe, “em um país que permite inúmeras barreiras científicas”.

“É possível fazer uma ciência competitiva e importante em um lugar que tem um aporte de recursos muito pequeno como Natal. Essa é a grande lição que o Instituto do Cérebro repassa para o país e para o mundo. Ele existe na comunidade potiguar, mas existe no mundo também”, disse.

Para Sérgio, apesar da falta de estrutura física e financeira – problema comum aos grandes centros de pesquisa do Brasil – o ICe consegue desenvolver trabalhos com grande valor competitivo. “O fato de nossos professores terem forte conexão no exterior contribui para o sucesso. Temos um quadro de profissionais com um peso enorme na ciência, apesar das limitações de infraestrutura”.

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