Inusitada biografia de música revela a importância da arte para o cantor

Não sei o que Theodor Adorno escreveria hoje, ao perpassar os olhos pela MTV, ou, pior, ouvir o Top 10 de uma FM natalense

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Com quatorze, quinze anos, eu desprezava Bob Dylan. Ainda sob efeito do Rock and Rio I e II, ouvir aquela voz de quem parece cantar com um charuto na boca, entremeada por uma gaita irritante que remete à cultura caipira dos texanos de espora, era entediante. Meu limitado apuro musical vetava a fruição de qualquer coisa além de Beatles (influência paterna) e uma série de bandas que abusavam de distorções e vocais nervosos.

Foram anos de zoadeira dentro de casa, com a anuência familiar. “É uma fase”, dizia meu pai. Obriguei todo mundo a ouvir Iron Maiden, Metallica e Anthrax, em alto e bom som, na vitrola da sala. Eu era uma marionete dos mestres em ludibriar pedaços de mentes alheias. Enquanto isso, discos dos Rolling Stones e Creedence Clearwater Revival mofavam na estante, esperando que eu assumisse a herança dos anos rebeldes do comandante Inaldo, meu pai.

Não sei se foi um processo natural de amadurecimento ou decadência das bandas que gostava, mas procurei ampliar meus horizontes musicais ao recuar no tempo em busca dos primórdios do rock, com a segunda metade dos anos 1960 e toda década de 1970 delimitando o período de maior interesse – além de variar os estilos.

Ao observar que as artes, sobretudo a música, a literatura e o cinema tinham maior relevância e, portanto, incidência sobre a vida social naquele período histórico, comecei a entender novas correntes que surgiam, até formar um estreito cabedal crítico. De forma que da quantidade imensa de bandas de rock da atualidade, pouca coisa consegue prender minha atenção por mais de três CDs.

A desconfiança aumenta quando leio um ensaio como “O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição”, do pensador alemão Theodor W. Adorno. Não sei o que ele escreveria hoje, ao perpassar os olhos pela MTV, ou, pior, ouvir o Top 10 de uma FM natalense. Mas já em 1938, dizia que “Ao invés de entreter, parece que tal música [a de entretenimento puro] contribui ainda mais para o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação”.

Ao conhecermos ídolos do passado, vemos a força expressiva que tinham, e que a influência nos grupos atuais é total – se acha que falo bobagem, ouça qualquer álbum de Jimi Hendrix, por exemplo. Tudo produzido no rock dos últimos vintes anos está ali.

Escolhi resenhar o livro “Like a Rolling Stone – Bob Dylan na Encruzilhada”, do crítico musical americano Greil Marcus, não como acerto de contas com meu passado de bitolação metaleira. Mas pelo encanto da história sobre o clássico de Bob Dylan, e o contexto da Contracultura naquela época sombria, raivosa, política e experimental.

É um livro de um fã. Marcus tinha 20 anos ao ouvir a primeira vez o famoso refrão “How does it feel?”… Então ícone folk, Dylan revolucionou a música pop ao assumir afetação pela Beatlemania e abraçar o incipiente rock – fãs vaiaram as primeiras apresentações da guinada estilística.

Você ficará intrigado com a real necessidade de Marcus em escrever um livro para explicar uma canção. A suspeita, todavia, é logo desmontada com a narrativa sobre o perfil de um garoto da classe média alta que caiu na sarjeta em um período que se acreditava na mudança da vida através da criação artística.

Entorpecido pela poesia de Arthur Rimbaud e Allen Ginsberg, pelo cinema de Federico Fellini e Michelangelo Antonioni, Bob Dylan criou uma nova poética musical que adentrou no espaço literário – cheia de alegorias e aberta como uma fábula infantil: “Once upon a time…”. Se Adorno bradou, há 72 anos, contra a falência técnica, ética e moral da música, artistas como Dylan, devidamente contextualizados, relembram que existem territórios inexplorados para os incautos.

 

 

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