Direção “sabia das irregularidades”, mas presidente nega

Ex-gerente detalha irregularidades denunciadas e Jonny Costa o acusa de envolvimento em desvios

Segundo o ex-gerente da Urbana, a situação dos “garis fantasmas” foi uma das denúncias feitas por eles e, até, aceitas pela direção da Urbana. Foto: Divulgação
Segundo o ex-gerente da Urbana, a situação dos “garis fantasmas” foi uma das denúncias feitas por eles e, até, aceitas pela direção da Urbana. Foto: Divulgação

Ciro Marques
Repórter de Política

Centenas de horas não trabalhadas; garis que não existem; caçambas abaixo do peso estabelecido e veículo pago pela Urbana, mas utilizado pelas empresas terceirizadas. Essas são algumas das irregularidades que José Honorato de Oliveira, o Dedé, ex-gerente da Companhia de Serviços Urbanos (Urbana) denunciou. E foi por isso que, segundo ele, no lugar de ganhar um prêmio, foi exonerado no início da semana do cargo de gerência. O detalhamento dos problemas constatados por ele e sua equipe foi feito em entrevista exclusiva aO Jornal de Hoje.

E o que chamou a atenção do JH, além das várias irregularidades, foi o “montante” delas. Afinal, segundo Dedé, um relatório feito pela equipe de fiscais dele constatou que as empresas terceirizadas que prestam serviços à Urbana receberam por mais de 560 horas não trabalhadas. Contudo, o problema não foi só esse. “Nossos fiscais constataram que há um déficit médio entre 15 e 30 garis nas empresas terceirizadas. São trabalhadores que a Urbana está pagando para limpar a cidade e, simplesmente, não existem. São garis fantasmas”, afirmou Dedé.

Segundo o ex-gerente da Urbana, a situação dos “garis fantasmas” foi uma das denúncias feitas por eles e, até, aceitas pela direção da Urbana, provocando uma economia de R$ 140 mil na relação de despesas – com relação ao que a Companhia paga às terceirizadas. E o problema teria sido justamente esse. “Comecei a fiscalizar as terceirizadas e a provocar a insatisfação delas. Meu objetivo sempre foi provar que a Urbana é viável economicamente. Acredito na Companhia. O problema é que parecem querer mostrar que ela não é viável, para continuar dependente das terceirizadas”, afirmou Dedé.

Outra irregularidade detectada pelos fiscais da equipe de Dedé foi a utilização de caminhões, pagos pela Urbana para fazer a limpeza na zona Norte de Natal, a serviço das terceirizadas em outras zonas da cidade. “Vi que, pela placa, o veículo era da zona Norte, mas estava chegando com lixo da zona Oeste, que é área da empresa terceirizada. Apresentei essa irregularidade para a direção. As empresas estavam utilizando um veículo pago pela Urbana para limpar a região da cidade que elas recebem para limpar”, reclamou.

METRALHA VS ENTULHO

Entre a denúncia de outros problemas como, por exemplo, a falta de equipamento de proteção individual (EPI) por parte dos garis terceirizados e da Urbana, Dedé teria “comprado briga” com as terceirizadas, também, quando tentou mudar a forma de recebimento e pagamento das caçambas. Isso porque se estabeleceu que veículos de 6 metros de caçamba receberiam por 6 toneladas de lixo quando chegassem à Usina.

“Foi aí que decidiu calcular isso. Enchi uma caçamba desse tamanho até o topo com entulho e constatei que o peso máximo de lixo ali era de 1,4 mil quilos. Enchi outra com metralha (areia e material de construção) e chegou aos 8,303 mil quilos. Como o lixo da rua é para ser só entulho, mas sempre tem um pouco de metralha, estabeleci a média de 70% de entulho e 30% de metralha e então a Urbana deveria pagar cada caçamba de 6 metros por 2,490 mil quilos de lixo recolhido”, explicou Dedé.

A pouca metralha, inclusive, era consequência do fato de que a Urbana não é responsável pelo recolhimento desse tipo de lixo e, por isso, apesar de vez ou outra fazê-lo, o correto não que isso acontecer. “Metralha, como restos de construção, é responsabilidade do ‘particular’, do dono da obra, não da Urbana. Ele que tem que pagar para que uma empresa vá lá e recolha a metralha”, afirmou Dedé.

Outra briga comprada: segundo o ex-gerente, as empresas terceirizadas eram costumeiramente contratadas para recolher o lixo de particulares, recebiam o pagamento deles e, ainda, recebiam da Urbana, como se aquilo que eles fossem deixar na Usina fosse lixo recolhido na rua, durante o trabalho diário delas. “Caçamba só com metralha tem que ter autorização agora, se não é cortado. Por isso, as terceirizadas ficaram muito insatisfeitas com tudo isso e quiseram a minha cabeça”, afirmou Dedé.

A informação do ex-gerente, por sinal, foi confirmada por Miguel Alves, ex-responsável pela Usina de destino final de lixo de Natal. O funcionário, assim como Dedé, foi exonerado no início da semana pela direção da Urbana. “Assim como ele, não compactuou com as irregularidades que eles querem que continuem lá. Não aceito desonestidade”, afirmou Alves, com um papel nas mãos onde ele “comprovaria” o envolvimento das terceirizadas nas irregularidades. “Isso aqui é um documento da Vital autorizando uma das caçambas ir pegar a metralha de um dos funcionários da empresa para deixar na Usina”, contou.

URBANA PEDIU PARA SUSPENDER FISCALIZAÇÃO

É importante ressaltar que, conforme noticiado na edição desta quinta-feira d’O Jornal de Hoje, Dedé foi exonerado no início da semana, a pedido, segundo ele, das terceirizadas. “Estava deixando muita gente insatisfeita com meu trabalho na Urbana, principalmente porque meus fiscais puderam constatar várias irregularidades praticadas lá”, afirmou ele, ressaltando que a direção da Urbana chegou, até, a pedir a suspensão da fiscalização. “Pediram que meus fiscais deixassem de fiscalizar as terceirizadas. Mas disse que só faria isso se me dessem um parecer do setor jurídico dizendo que isso era ilegal. Foi aí que eles me exoneraram”, acrescentou.

EMPRESAS

Atualmente, a direção da Urbana paga cerca de R$ 5 milhões por mês às terceirizadas pelo lixo coletado em três das quatro zonas de Natal (a zona Norte é feita pela própria Urbana). Os principais contratos são o da Marquise, em torno de R$ 2.1 milhões; Vital Engenharia, que orbita em R$ 800 mil mensais. Trópicos (R$ 590 mil) Braseco (um milhão de reais e os locatários de equipamentos e as cooperativas, que somam cerca de R$ 560 mil.

Ao que perece, a Companhia de Serviços Urbanos de Natal (Urbana) é dividida em dois mundos. Um visto pelo ex-gerente, Dedé, e o outro que está sobre o controle do diretor-presidente da Companhia, Jonny Costa. Isso porque, em entrevista concedida aO Jornal de Hoje pela manhã, Costa trouxe uma realidade totalmente diferente da dita anteriormente por Dedé. Falou que jamais soube de qualquer irregularidade denunciada pelo ex-gerente, cobrou documentos que as comprovassem e, ainda, apontou o próprio funcionário como causador de algumas situações que motivaram a saída dele por problemas de relacionamento e insubordinação.

Presidente Jonny Costa rebate as denúncias e cobra provas materiais. Foto: Divulgação
Presidente Jonny Costa rebate as denúncias e cobra provas materiais. Foto: Divulgação

Primeiro, o mais importante: as denúncias feitas por Dedé. Isso porque, segundo Jonny Costa, não há registro nem na direção, nem na intervenção, de qualquer uma das denuncias feitas por ele sobre garis fantasmas e o pagamento de obras não trabalhadas. “Se eles têm esses documentos, não apresentaram para a gente até hoje. Me surpreende o fato deles não terem apresentado nada nas várias reuniões que fizemos, mesmo sabendo que na minha gestão nada, nada fica sem apuração”, se defendeu o diretor.

O mais grave na visão do gestor foi a denúncia com relação as horas extras pagas pela Urbana sem a prestação do serviço por parte das empresas. “Determinei que todas as faturas, todas as planilhas de pagamento, fossem atestadas por Dedé. Então, se há horas não trabalhadas sendo paga, ele tem que explicar qual a participação dele nisso”, cobrou.

Com relação aos “garis fantasmas”, Jonny Costa afirmou também não ter conhecimento. Disse, porém, que quando assumiu a Urbana, no início de 2013, encontrou tive muita dificuldade na prestação do serviço porque dos 850 garis da Companhia, apenas 172 estavam trabalhando. O restante estava de licença médica ou cedido a outros órgãos municipais. “É importante que se diga que muitos desses laudos ou atestados médicos jamais foram apresentados ao INSS. Dessa forma, conseguimos trazer de volta ao trabalho muitos e hoje temos mais de 650 garis. Só não temos mais nas ruas porque falta equipamento”, contou Costa.

Com relação aos fiscais de Dedé que teriam sido proibidos de trabalhar, Jonny explicou que o funcionário nunca teve “fiscais” e sim “acompanhantes” para ver de perto o trabalho nas empresas terceirizadas.

De qualquer forma, Jonny Costa afirmou que vai abrir um procedimento administrativo para que os funcionários possam se defender e apresentarem os documentos que dizem ter sobre as irregularidades na Urbana. “Eles continuam funcionários da Urbana. Foram exonerado, apenas, da função de confiança que exerciam”, explicou Costa.

INSUBORDINAÇÃO

Dedé e Jonny Costa não começaram a ter problemas e histórias que não batem sobre a Urbana depois da exoneração do gerente. Na realidade, segundo Costa, Dedé começou a ter problemas de relacionamento e insubordinação ainda no segundo semestre do ano passado e se tornaram insustentáveis em 2014. O diretor-presidente afirmou que uma dessas situações, inclusive, diz respeito a desvios na utilização de equipamentos da Urbana, autorizados pelo próprio Dedé.

Segundo Costa, foi feita uma denuncia de uso de um trator pago pela Urbana para terraplanar um campo de futebol particular. O processo administrativo foi aberto, mas não concluído. Os elementos para a conclusão dele só chegaram recentemente, diante de uma nova denúncia. E, nesta, a equipe da Urbana constatou que o condutor do trator estava fazendo o serviço, em terreno particular, a mando da gerência. “O único documento usado para autorizar isso foi um ofício enviado pela comunidade, mas que nunca chegou a presidência para ser autorizado”.

O processo administrativo, documento e apresentado a esta reportagem, não foi o único elemento que causou problemas na relação entre gerência e a direção-presidência. Dedé repetiu, segundo Costa, alguns casos de insubordinação. O primeiro deles ainda no início do ano passado, quando o Tribunal de Contas do Estado (TCE) solicitou a suspensão da contratação de horas extras no funcionalismo público para reduzir gastos públicos.

“Reuni todos e apresentei o documento do TCE, afirmando que a partir dali não se contrataria mais hora extra. Nos casos que houvesse necessidade, se trabalharia no regime de escala. Todos atenderam, menos o setor de transbordo, que é ligado à gerência de Dedé”, afirmou Jonny Costa. Miguel Alves, responsável pela Usina, foi um dos ouvidos pelo JH. Ele também foi exonerado pela direção da Companhia no início da semana.

E, segundo Costa, não foi só. A Direção da Urbana também determinou que toda a frota deveria pernoitar na sede da Companhia, como forma de controlar o consumo de combustível. “Antes, o veículo pernoitava na casa do motorista e determinamos a pernoitar na Urbana para ter mais controle. Não que não confiasse nos motoristas, mas por medida de controle mesmo”, justificou.

Costa informou que na primeira semana de aplicação da medida já foi possível ter uma economia de 500 litros de combustível. “Porém, o carro disponibilizado para o setor de transbordo, mais uma vez, descumpriu a medida. E, além disso, soubemos que o veículo estava cumprindo rota para pegar e deixar os funcionários em casa.

Ora: os funcionários recebem auxílio transporte da Urbana. Como a gente poderia permitir isso num setor e não em todos os outros?”, questionou Costa ao justificar a decisão de suspender o transporte.

No fim, segundo Jonny Costa, essas situações de insubordinação, aliada a irregularidade que teve Dedé como envolvido, anteciparam a mudança na gerência. Mudança essa, inclusive, que já estava prevista para acontecer ao final do processo licitatório em curso. “Desde o início tivemos esse objetivo de mudar a gestão da gerência, mas isso foi antecipado de acordo com esses fatores”, acrescentou.

O diretor-presidente afirmou também que não tem nenhum problema “pessoal” com Dedé ou a equipe dele. Contudo, não concorda quanto a afirmação de que foi ele o responsável por limpar a cidade no início da gestão Carlos Eduardo. “Quem limpou a cidade foram os garis. Foram eles que se reuniram e assumiram a missão. Não apenas Dedé. Ele foi importante, mas não foi sozinho”, analisou.

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