Home > Colunas > Ivan Silva

Ivan Silva

Data: 04 fevereiro 2013 - Hora: 18:01 - Por: Rubens Lemos Filho

Quando falta pouco para completar 15 anos, o menino olha ao espelho se achando homem quando nem adolescente é. É a fase na qual qualquer fato mais grave toma proporções trágicas e fere como brasa em gado pelo resto de nossas vidas.

Aluno da Escola Técnica Federal, cursando Estradas, saía da rigidez da escola religiosa para a liberalidade do ensino médio sem cobranças com frequência. Aprendi na antiga ETFRN, hoje IFRN, que você define seu destino. Se quiser assistir aula, assista. Se não quiser, vá bater perna na área de lazer ou dormir sob a marquise do campo de futebol. Reprovado, sua vida atrasa.

Em matérias de fórmulas e cálculos, sempre fui desastroso. Para conseguir uma nota 6, precisava da solidariedade dos comparsas com a cola solidária. Muitas vezes passei minha prova em branco ao colega que me entregava a dele, preenchida e correta. O truque sempre foi o de sentar perto do amigo confiável.

Em 1985, primeiro semestre, tive uma professora de Química inesquecível, Professora Socorro, olhos de diamante, amável, gordinha, humanizava a chatice dos atalhos que sua disciplina exigia. Acumulei boas notas, nem precisava da clandestinidade da malandragem.

Já não era mais seu aluno quando chegava uma manhã à escola e encontrava o clima de comoção. A professora estava morta, jovem ainda, menos de 40 anos. Sofreu um enfarte na banheira de casa, fulminante, sem chances de reanimação. Chorei escondido por entre os carros do estacionamento. Brotava minha revolta ao saber que os bons partem primeiro.

Socorro era casada com o lateral-direito do América, o famoso Ivã Silva. Negro elegante, carioca, chegou em 1973 para o timaço que conquistaria a Taça Almir, pelo melhor desempenho entre os clubes do Norte e Nordeste no Campeonato Brasileiro.

Sempre sorridente o Ivan Silva que estragava os meus prazeres partindo da defesa e trocando de função com o ponta Ronaldinho para entrar em diagonal na área do ABC e cruzar para Aloísio, Alberi ou Marinho Apolônio naquele campeonato de 1977, perdido em três pancadas de 1×0, sempre com Ivan Silva moderno e incansável pelo destro canto do campo.

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

Um tempo de paz, sem torcidas organizadas bestiais , mas, entre os dirigentes, havia o radicalismo provocativo. Até mesmo a boleirada entrava na bobagem, trocando desaforos em véspera de clássicos. Dois passavam ao largo: Danilo Menezes pelo ABC e Ivan Silva pelo América. O América sempre desejou Danilo e o ABC jamais escondeu o sonho de ver Ivan jogando de preto e branco.

Há jogadores de um manto só complementando a pele. Ivan Silva foi um senhor campeão pelo América em seus duelos contra Edmílson do Alecrim, Noé Macunaíma e Berg do ABC, este, um jovem a quem teve que apelar para as porradas de vez em quando, desconcertante a habilidade do rapaz.

Com Ivan Silva, o América foi bicampeão em 1974 e 1975, 1977, 1979, 1980,1981 e 1982. Sete troféus no Castelão(Machadão) de onde não saiu quando pendurou as chuteira, já atuando, como um Leandro ou Carlos Alberto Torres papa-jerimun, de zagueiro-central.

Decidiu ser árbitro e sua velocidade superava, quase sempre, à dos pontas e laterais que não lhe amarravam chuteiras. Ivan resolveu dar uma guinada no gramado pela dimensão do seu caráter. Numa final de turno entre América e Alecrim, considerou que o adversário foi injustiçado e saiu para ser imparcial na vida.

Ivan Silva, após a morte da Professora Socorro, reconstruiu sua vida, recomeçou, formou nova família, tem dois filhos, um deles, Ivanzinho, craque de futebol de salão quando criança.

Ivan Silva é, sim, uma das lembranças marcantes do meu tempo. Foi o maior lateral-direito do Rio Grande do Norte na fase do Estádio da Lagoa Nova. Um rei banto, de talento e humildade, alegria rasgada, cruzamentos e visão de jogo próximos à perfeição. Ivan Silva, do América e de todos nós, orgulhosos por tê-lo como filho adotivo.

 

Um show
Há pelo menos 20 anos, o ABC não conquistava uma vitória tão soberba fora de casa. Deveriam ter tocado Praieira, de Othoniel Menenes, o Hino de Natal, em ritmo de axé, mesmo que massacrassem o poema, mas em respeito ao show de bola em Salvador. Foi 3×0. Acabasse 9×0, seria normal.

Pé em pé
O ABC jogou feito os malandros das Rocas, bola de pé em pé, em emboscada praiana e canguleira, matando o Bahia. Primor de partida de Júnior Xuxa, Jean Carioca, Renato, Alexandre, Hamilton.

Classificação
O ABC e o seu povo podem transformar o Frasqueirão em palco do seu mais importante jogo, o da vaga, contra o Ceará. Derrotar um time e uma síndrome.

América
Antes da Copa Nordeste, o América era um dos classificados cravados e fáceis em qualquer bolsa de apostas. Em campo, o América de 2012 vem fracassando, com um tédio bovino e algumas expressões petulantes, bem diferentes da equipe aguerrida que virou o jogo no ano passado.

Ainda pode
Sacudido por um assalto para lá de estranho – R$ 300 mil tomados por bandidos armados da sede do clube, quase esquina com o Comando-Geral da Polícia Militar, o América foi uma distante lembrança de time contra o ASA no Nazarenão e agora precisa vencer o favorito Vitória em Salvador.

Pressão
Na entrevista dada à Rádio 96 FM, de Marcos Lopes, declaração intrigante do técnico Roberto Fernandes. Nas estrelinhas, que exclamam sempre mais que letreiros, afirmou que a pressão da torcida o tem feito escalar jogadores fora de forma, como o atacante Renan Marques. Já avisou que o reforço Itamar, ainda entrando no ritmo, “não joga tão cedo”.

No Paraguai
Enquanto isso, Ivan Gonzalez, ala e meia, tempo das vacas magérrimas no América, está convocado para a seleção paraguaia que enfrentará o El Salvador em amistoso. Pense num jogo épico.

Reforços
Thiaguinho e Jheymy, reforços do ABC, são de nível aceitável. Thiaguinho fez boas partidas pelo América e, depois da chegada de Júnior Xuxa, a opção por trazer ex- rivais é capaz de fazer o alvinegro jogar em Goianinha. Jheymy é um atacante lutador do Boa Esporte na série B.

Esforço
A vereadora Eleika Bezerra manda e-mail sobre o texto contra a destruição dos estádios de Natal. Ela é uma das poucas vozes contrárias. A vereadora defende a memória da cidade e, espera-se, tenha muitos e muitos mandatos.

Notícias Relacionadas
  • TAGS: