João Evangelista: “Com entrada de Marina, quadro embaralhou todo”

"O que chama a atenção na pesquisa é que Dilma e Aécio pouco variaram, sendo o que resultou no crescimento de Marina vindo dos eleitores que estavam indecisos"

João Evangelista: “A pesquisa em si tem aparentemente muitas inconsistências”. Foto: Divulgação
João Evangelista: “A pesquisa em si tem aparentemente muitas inconsistências”. Foto: Divulgação

Pesquisa Datafolha veiculada nesta segunda-feira pelo jornal Folha de S. Paulo aponta que se a eleição em segundo turno fosse hoje entre Marina Silva (PSB) e a presidente Dilma Rousseff (PT), a ambientalista e ex-ministra do governo Lula seria eleita presidente da República, com 47% dos votos, contra 43% da atual presidente. Conforme o Datafolha, ao substituir Eduardo Campos (PSB), morto na semana passada, Marina larga com 21% das intenções de voto, um ponto à frente de Aécio e 15 pontos atrás de Dilma. Marina, no cenário de hoje, seria o único nome capaz de vencer Dilma no segundo turno.

Para o cientista político João Emanoel Evangelista, a entrada de Marina na disputa embaralhou a sucessão presidencial, que vinha se mantendo estável desde o início do ano, com poucas e quase imperceptíveis variações junto ao eleitorado. Para o professor universitário, o que chama a atenção na pesquisa é que Dilma e Aécio pouco variaram, sendo o que resultou no crescimento de Marina vindo dos eleitores que estavam indecisos.

“É dado importante que antes da morte Eduardo Campos, Marin tinha em torno de 10%. Portanto, o crescimento dela seria esperado. Mas, acho que a pesquisa pode estar revelando dados que não são representativos de uma situação de maior normalidade. Acho que tem que aguardar outras pesquisas, para que a gente possa avaliar melhor o potencial de votos de Marina”, afirmou Evangelista, que na semana passada havia concedido entrevista afirmando que o período de comoção nacional por causa da tragédia envolvendo o ex-governador de Pernambuco poderia favorecer Marina.

“Acho que a propaganda eleitoral vai ser fundamental. A gente só vai ter condições de ter um quadro mais claro e estável no final do mês”, aposta Evangelista, apontando outros dados importantes da pesquisa Datafolha. “A pesquisa traz um dado positivo para Dilma, já que houve aumento da aprovação do governo de 6% em todas as faixas do eleitorado, com exceção do um por cento dos mais ricos”, apontando que a pesquisa também traz dados contraditórios.

“Se Dilma manteve os votos, geralmente a votação do governo é acompanhada. Mas Dilma também cresceu no voto espontâneo. A pesquisa em si tem aparentemente muitas inconsistências metodológicas, porque os dados são contraditórios. Então, não dá para saber, tem que ter outras pesquisas de outros institutos. Mas é um quadro que mostra que a eleição embaralhou tudo. Eu ainda acho que o mais razoável, é que Marina cresça, mas fique um pouco abaixo de Aécio, diferente do Datafolha, em que supera Aécio”.

Segundo o analista político, a marca da presente eleição era a estabilidade do voto, mas com a entrada de Marina, o cenário mudou. “Este era o grande diferencial dessa campanha. Mas a entrada de Marina, com a morte de Eduardo Campos, mudou o cenário. Continuo achando, fazendo uma análise mais racional. Acho que Dilma terá chance de apresentar o que tem feito pelo país. É natural que na campanha o governante cresça. Tem sido assim desde FHC, nenhuma governante que disputou a reeleição perdeu. O segundo turno confirma o resultado do primeiro, aconteceu com FHC e com Lula. Não se sabe se com Dilma vai acontecer”.

“Consistência de Marina é mais frágil do que Dilma e Aécio”

Para o professor universitário, a candidatura de Marina e mais frágil, em termos de consistência, do que a de Dilma e de Aécio. “É mais frágil a consistência de Marina do que Dilma e Aécio”, afirma. Para fazer a afirmação, ele se baseia na análise do dos fundamentos da candidatura de Marina em relação aos concorrentes.

“Imagine a situação de Marina governando o país; primeiro não tem partido, estava com data marcada para sair do PSB. Se der um pouco mais de racionalidade ao voto, vão ser analisadas as condições de governabilidade de Marina. Aécio vai tentar se diferenciar, mostrando que tem experiência de governo, e Dilma por ser candidata reeleição, vai mostrar o que fez. Marina tem tempo curto e não tem proposta para apresentar concretamente. Isso pode fazer com que haja até pequeno crescimento de Dilma e de Aécio”, avalia o professor.

A avaliação do que representaria um governo de Marina para o país, caso seja feita já no primeiro turno, poderá trazer desdobramentos negativos para a candidatura dela. “Hoje o principal polo de desenvolvimento é a agroindústria, o mais dinâmico, já que a indústria tem regredido na sua importância na economia. Que Marina significa nesse contexto? Em tese ela é contra esse projeto de interesses. E aí os empresários vão se comportar de que maneira?”.

Outro ponto importante é a falta de condições políticas para sustentabilidade de eventual governo Marina Silva. “Não sei se esse debate vai ser feito. Se for, a fragilidade do projeto de Marina vai ficar evidente e ela pode encolher essa intenção de votos. Por isso acho que o horário eleitoral tenderá a confirmar o crescimento de Dilma na primeira colocação e Aécio ser o segundo colocado. E ela ter redução. Agora é esperar para ver se confirma, ou não”.

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