Josimar, o bullying

A seleção brasileira disputou e venceu a Taça Stanley Rous em 1987. O lateral-direito Josimar era o chamariz do time…

A seleção brasileira disputou e venceu a Taça Stanley Rous em 1987. O lateral-direito Josimar era o chamariz do time de transição montado pelo técnico Carlos Alberto Silva. Josimar decidiu caprichar no visual e alugou um sobretudo de lã pura, com capote. Parecia esquimó atrapalhando o tráfego. Mau gosto intercontinental.

Cheio de rebolado carioca, Josimar resolveu fugir do hotel cinco estrelas com uma loura. Reapareceu no dia seguinte descendo de uma limousine, também locada e se dirigiu ao bar. Pediu à sua espalhafatosa cicerone, remunerada por antecipação, que fizesse o pedido. Uísque e do bom.

– Você quer nacional?

Josimar, com pinta de Al Capone suburbano, respondeu abusado:

– Eu venho lá do Brasil pra tomar uísque nacional? Me dá um importado logo que dinheiro não é problema.

Prontamente, a acompanhante transmitiu a ordem ao garçom que cumpriu sem reclamar e sem coragem de pedir um autógrafo ao abusado camisa 2. Josimar segurou seu copo com pose e festejou o título do campeonato, ganho em cima da Escócia, no Estádio Hampden Park, em Glasgow.

Josimar recusou a bebida local, scotch legítimo e tomou a garrafa inteira de algum vinagre australiano, sem reclamar. Josimar curtia o sucesso dos dois golaços marcados na Copa do Mundo de 1986. O primeiro, um petardo contra a Irlanda do Norte, na vitória de 3×0. O outro, rompante garrinchiano diante dos poloneses pelas oitavas de final.

Driblou três adversários em segundos dentro da área e, quase sem ângulo, disparou um foguete que nem o João Paulo Segundo, o Papa polaco nascido Karol Józef Wojtyla, seria capaz de defender operando milagre.

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O destino simpatizou com Josimar que abusou e recebeu vingança especial. Só foi ao México em 1986 depois que Leandro do Flamengo desistiu de viajar na hora do embarque, solidário com o amigo Renato Gaúcho, cortado depois de um porre demolidor na fase de preparativos ainda na Toca da Raposa.

Sem Leandro, o titular seria Edson Boaro do Corinthians e o técnico Telê Santana tratou de usar amigos jornalistas para vazar a informação de que estudava três opções para a vaga do flamenguista: O hoje técnico do ABC, Zé Teodoro, na época em ótima fase no São Paulo, o vascaíno Paulo Roberto e Raul, do Grêmio, que entrou mesmo de gaiato, pois nunca foi cogitado sequer para escrete de futebol de mesa.

Telê, mineiro, desconfiado, admirava o estilo atrevido de Josimar, carregando o Botafogo nas costas junto com o volante Alemão. Telê estava decidido a chamá-lo contrariando suas convicções conservadoras de Itabirito (MG). Sabia da fama de maldito de Josimar e teimoso, resolveu corrigi-lo na marra. Para ser titular. Antes, calvário.

Ao chegar à concentração, Josimar procurou o técnico, que iniciou o terrorismo :

– Não conheço o senhor, o que faz por aqui?

Um cartola tratou de levar o jogador de olhos arregalados de decepção para o quarto. Nos primeiros treinos, o goleiro reserva Paulo Victor, do Fluminense, arriscou sensibilizar o treinador:

– Mestre, Josimar está numa forma fantástica. Ele bate 50 pênaltis por treino e acerta os 50. Dá uma chance a ele…

Paulo Victor quase enterra a cara na grama com a resposta desaforada:

– Você fica prestando atenção nos outros e tomando frango nos treinos Paulo Victor, qualquer hora eu te tiro até dos coletivos.

O rugido proposital de Telê Santana soou nas imediações de onde estava Josimar, correndo e chutando a gol, desmanchando-se de suor, transformando-se em esqueleto de tanto esforço.

Para enfrentar um teimoso, um cara de pau é ideal. Incansável, Josimar cumprimentou Telê no treino seguinte:

– Bom dia, mestre!

O ranzinza que transformava uma partida em cinema espetacular tripudiou. Esnobou Josimar e se dirigiu a Zico e a Sócrates:

– Bom dia meus amigos, este rapaz não joga nada e ainda quer falar comigo?

Josimar desmoronou. Chorou como um órfão. Consolado por Zico e Sócrates, foi chamado ao quarto do técnico, demonstrando irritação de azia:

– Agora, ao meu quarto, já!

Ao chegar, limpando as lágrimas de humilhação, Josimar ouviu de Telê:

– Comigo você vai ser homem nem que seja durante a Copa. Você vai jogar sabendo que não pode errar. Quando estiver velho, você vai lamentar as molecagens que faz.

O beijo de Josimar no gol contra a Irlanda foi dado na face direita de um Telê Santana ainda sisudo. Contra a Polônia, Josimar abraçou o técnico, gargalhando de euforia. Mesmo eliminado nos pênaltis pela França , o Brasil foi elogiado nas atuações de Josimar, do zagueiro Júlio César e do atacante Careca.

A bronca de Telê Santana deu em nada. Era profeta, além de saber tudo de arte em campo. Josimar virou um deslumbrado, espalhou seis filhos no mundo, envolveu-se com drogas e (sobre)vive no Amapá, dando aulas numa escolinha de futebol. Fama e dinheiro em futebol têm vida útil. Telê sempre soube. Josimar, duvidou.

 

Ataque

O América é um dos cinco ataques mais positivos do Brasil. E ainda há quem defenda a legião de cabeças-de-área e de bagre e uma cidadela de zagueiros. No futebol legítimo, vitorioso, a ousadia sempre vencerá o medo.

Punir quem vence

Abrir mais uma vaga na Copa do Nordeste para qualquer Estado, por critérios bondosos de cartolagem, seria um chute na meritocracia. Seria agredir os times que conseguem seu lugar jogando bola. Entrar pela janela é feio.

Jogo duro

Será duro assistir ABC x Santa Cruz nesta quarta-feira. O ABC eliminado do Campeonato Estadual, abatido pela derrota no clássico e ainda montando o time para a Série B. Quem comparecer ao estádio é capaz de enfrentar talibãs armados até os dentes. Heroísmo comprovado.

Mudança

O técnico Zé Teodoro altera o ataque do ABC, consequência lógica das péssimas atuações de Lúcio Curió, que até agora é o maior fracasso nas contratações ditas bombásticas. Entram Gilmar e Lúcio, o Flávio.

Raspadinha

Atenção que vamos pagar as dívidas dos clubes de futebol. Uma proposta na Comissão de Esportes Olímpicos do Congresso Nacional prevê a criação da Lotex, uma raspadinha que destinaria 20% dos recursos para a quitação dos calotes que nem eu nem você, solidário leitor, ajudamos a criar.

Real Madrid

Galáticos quase borraram as calças.

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