Kiss, o beijo da morte
No perfil da Boate Kiss no Twitter (@boatekiss), seguido por mais de nove mil usuários, a ironia involuntária de um slogan, “você nunca está sozinho”. Na sinfonia macabra dos celulares tocando nos bolsos dos mortos, o desespero solitário dos pais.
Um domingo para nunca mais esquecer no Brasil. Uma madrugada que avançou pelo dia, pela tarde, pela noite expondo a aritmética horrorosa da perda. Jovens com a vida ceifada num momento de celebração da vida, uma boate como túmulo coletivo.
Não havia como conter o choro, pelo menos para a maioria dos brasileiros que acompanhava a cena de guerra com um sentimento emprestado das famílias que sofriam a constatação do pior. O país transferiu para os jovens de Santa Maria os seus filhos.
Das 4h30 do sábado, quando acordei e vi a tragédia na TV e nas redes sociais, até o começo da noite, quando a terrível contabilidade se fechava, chorei cinco ou seis vezes, como se em cada corpo estendido, queimado, estivesse um dos meus quatro filhos.
Algumas vezes cruzei o corredor entre o escritório e meu quarto e fitei meu filho caçula que estava dormindo, telefonei para os mais velhos, só para ouvir suas vozes. E chorei mais e mais pela dor dos pais que rogavam por um sinal de vida em Santa Maria.
O mundo moderno, com seus celulares, permitiu amplificar o quadro real de uma angústia que todas as noites assombra pais e mães nas madrugadas de festa. Centenas de chamadas insistentes em cada telefone das vítimas e que nunca mais serão atendidas.
No cenário de uma guerra, sapatos, tênis e sandálias cobrindo o chão da boate como um tapete de ausência, deixando aos observadores em pânico o rastro invisível de mais de duzentos sonhos desfeitos, projetos de vida descontinuados, famílias destroçadas.
Não costumamos nos chocar com aquelas imagens de caixões retornando das guerras com corpos de jovens soldados, talvez porque a perspectiva da morte já estivesse implícita desde antes dos conflitos; morrer faz parte da guerra, é consciência coletiva.
Mas, é humanamente incompreensível que centenas de cadáveres seja o resultado de uma reunião para festejar a vida, confraternizar a juventude. Repilo todas as teorias que condenam o espírito festivo dos jovens, principalmente as religiosas, as mais ridículas.
Porque ser jovem é estar em festa, como uma banda numa propaganda de refrigerantes, dita naquela canção do rock brasileiro dos anos 80. Revoltou-me o sermão evangélico de uma imbecil reclamando sobre quantos entregaram a alma para Jesus no pânico.
Sou ateu, convicto desde os 19 anos, e não pretendo desrespeitar religiões. Mas, quando li o artigo da senhora Dayane Laet, disparei em seu perfil no Twitter: “Qualquer ambiente de jovens é melhor que as baboseiras vomitadas em nome de Jesus”.
No contrafluxo dos fanáticos religiosos, a repórter Lilian Abelin, da Rádio Gaúcha, que passou o dia inteiro cobrindo a tragédia, me enviou o seguinte post: “Corações dilacerados, o meu e de todos os jornalistas. Vi, muitas vezes, o choro sendo contido”.
A dor dilacerante da perda, para os familiares e amigos, seguirá para sempre como uma outra morte em vida. Diferente do que diz o slogan da boate no Twitter, todos se sentirão sozinhos e cada vez que passarem perto das ruínas sentirão o beijo nefasto.
Os jovens mortos na cidade com nome de santa são agora uma ausência coletiva, são todos parte de uma dor que atingiu todos os pais do Brasil. Há um sinalizador avisando ao Brasil que o horror de Santa Maria é agora na hora da nossa morte, também. (AM)
Cobertura
São nas horas terríveis como as de ontem que o rádio comprova que nem mesmo a internet consegue ser tão ágil e eficiente como a velha mídia dos nossos avós. As emissoras prestaram um serviço perfeito de informação sobre a tragédia gaúcha.
Interação
Durante o ritmo de plantão das rádios brasileiras, ficou claro que a internet serviu como ferramenta de complementação, quando repórteres munidos de celulares e iPads publicavam alguns detalhes em seus blogues e nas redes sociais Twitter e Facebook.
Especial
A mais bela jornalista da rede CNN e uma das suas âncoras, Alejandra Oraa, postou no começo da noite que estava voando para Santa Maria, onde iria cobrir a tragédia para a CNN Internacional e também para a CNN em espanhol, no matutino Café CNN.
Choque
Acostumados a enfrentar toda e qualquer situação de perigo, treinados para encarar cenários de tragédias, os bombeiros que trabalharam em Santa Maria não conseguiram conter o desespero e o choro com as imagens dos corpos de tantos jovens sem vida.
Safadeza
No começo da noite de ontem, alguém fabricou uma nota falsa como sendo da Boate Kiss e esta foi lida na rádio CBN, na RecordNews e publicada em alguns sites de noticias. Somente no meio da noite, uma nota verdadeira foi emitida pela casa noturna.
Cancelamento
A FIFA e a CBF cancelaram todos os eventos que marcariam os 500 dias que nos separam da Copa 2014. Mesmo a taça que ficaria exposta na Arena Corinthians não será mais levada para o novo estádio na cidade de São Paulo. Futebol também de luto.
Fiasco
A abertura oficial do novo estádio Castelão, em Fortaleza, com a rodada dupla Fortaleza x Sport, Ceará x Bahia, não atraiu bom público como se imaginava em se tratando do novo espaço para a Copa 14. Poucos espectadores para o pouco futebol no gramado.
Sujeira
A Praia de Pirangi ainda não se livrou da sujeira oriunda de uma tal “festa do coole” ocorrida no fim de semana. Frequentado por jovens de classe média, boa parte veraneando nas redondezas, o evento deixou um rastro de lixo no pedaço.
Segurança
A consternação nacional com a tragédia em Santa Maria provocou reações semelhantes em várias cidades quanto à segurança das casas noturnas e espaços de lazer. No Twitter, alguns estão propondo uma audiência pública na Câmara dos Vereadores de Natal.
Remédio letal
Autoridades da França confirmaram a ocorrência de mortes provocadas pela pílula Diane 35. O medicamento contra a acne do laboratório Bayer é utilizado geralmente como pílula contraceptiva. O assunto está nos jornais do mundo nessa segunda-feira.
Fotojornalismo
O brasileiro Wilton de Sousa Junior foi um dos vencedores do Prêmio de Jornalismo Rei da Espanha, com a fotografia de um protesto de índios no Rio de Janeiro, publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 24 de junho de 2012.


