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Lar da Vovozinha recebe idosas sem diagnóstico psiquiátrico

Data: 11 março 2013 - Hora: 18:10 - Por: Portal JH

Quem transita pela avenida Antonio Basílio, nas imediações da Escola Municipal Mário Lira, em Dix-Sept Rosado, vê um portão cinza, em meio a um muro com dois tons de verde, destacado por uma placa grifada no alto com os dizeres: Associação Espírita Enviados de Jesus – Lar Espírita da Vovozinha.  O lugar serve de moradia para 41 mulheres pobres ou em conflitos familiares que trouxeram prejuízo para sua saúde. Sem parentes ou abandonadas, elas encontram no Lar da Vovozinha o amparo ausente em suas vidas privadas.

No entanto, a direção amarga a escassez de itens básicos para o pleno funcionamento. A reportagem d`O Jornal de Hoje esteve no local e constatou a causa maior da angústia de assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, fisioterapeutas e médicos: a chegada de idosos sem o devido diagnóstico de suas patologias.

“Não temos apoio de um psiquiatra que atenda pelo SUS [Sistema Único de Saúde]. Muitas delas, diria que a maioria, chegam aqui com adiantados processos de demência, mas não sabemos se é Mal de Parkinson, esquizofrenia ou Alzheimer. Sem isso, não sabemos como lidar com elas e o tratamento fica prejudicado”, diz Danielle Rodrigues Moreira, assistente social do Lar da Vovozinha, uma das 38 funcionárias que, todos os dias, mantém contato com seres humanos que enfrentam os últimos anos de vida com a dor da solidão.

“É o que elas mais reclamam. Todas chegam aqui animadas, ativas, mas em uma semana já observamos várias definhando, tristes pelos cantos, com depressão mesmo. É o caso de Luquinha aqui [aponta para uma senhora magra, sentada em uma cadeira de roda, de olhar vago]. Ela chegou muito agitada. Agora não fala, nem sai da cadeira”, diz Danielle sobre a senhora portadora de uma doença desconhecida que entrou na entidade filantrópica há um ano. “Ainda bem que ela recebe visita dos familiares, pois a maioria não tem família”.

A lista de necessidades tem sequência e chama a atenção com a simplicidade dos itens: 25 colchões de solteiro, sacos para lixo (30 e 100 litros), água sanitária, papel higiênico, sabão em pó, desinfetante, fósforo, luvas de látex, gaze, fralda descartável, copo descartável de 180 ml, Arrozina, Mucilon, Farinha Láctea e milho para mungunzá. Como comparação, o Governo do Estado gasta R$ 222 mil por ano com buquês de flores. “Cada idosa custa R$ 2 mil por mês. Vivemos de doações, mas, infelizmente, sem a frequência com que precisamos”, lamenta Danielle.

Posicionada na ala dos Dependentes que, como o nome sugere, é destinada às anciãs que precisam de ajuda para atividades simples, como comer, tomar banho e trocar de roupa, dona Luquinha (Luiza Tavares) divide espaço com outras mulheres de saúde mental comprometida. “Por mais que nosso empenho seja total, a falta de privacidade, de um banheiro exclusivo, de objetos familiares, do amor de filhos, irmãos, do afeto direto da família, faz com que surja, dentro delas, um vazio, uma angústia muito grande. A quebra de liberdade é muito brusca”, diz Danielle.

Lúcida e comunicativa, dona Estelita Bezerra da Silva, 86 anos, contrasta com a depressão que paralisa dona Luquinha [Luiza Tavares]. Cega do olho direito, após sofrer um derrame cerebral, ela foi casada durante 25 anos com um homem que a “deixou por outra mais nova sem me deixar um filho”. Há dois anos, ela divide um quarto com quatro idosas no Pavilhão da Esperança. “Eu não tenho parentes. Gosto de ficar sozinha. Minha cabeça, desde o derrame, faz um zunido que incomoda. Eu não tenho para onde ir, e aqui eu vejo minha missa na televisão, que eu gosto muito. Essa é minha diversão”.

Uma mulher prostrada na cama, que grita a noite inteira e interage com uma boneca perturba o sono de dona Estelita. “Ela é louca”. A tigela com pedaços de melão que dona Estelita sustenta no colo é oferecida à reportagem duas vezes, durante a entrevista. Sem fome, mas na hora da refeição, há dois anos ela deixou uma casa em Nazaré, onde morava com um irmão (falecido no mesmo período). A assistente social diz que terapias de grupo foram montadas para diminuir a ociosidade, mas enfrentou resistência da maioria que “está sem fazer nada há anos e reclama bastante quando tem que se locomover”.

Em sua segunda passagem pelo Lar da Vovozinha, Danielle Rodrigues relembra os primeiros dias de trabalho. “Foi bem angustiante. Passei a ver o sentido da vida com outros olhos. Geralmente, só prestamos atenção em certas coisas quando estamos na pior ou no leito de morte. Não sabemos o dia de amanhã”. A administração informa o contato para doações: Avenida Antonio Basílio, 1264, Dix-Sept Rosado, próximo a Escola Municipal Mario Lira. Telefone: 3223-1907 e 3613-1910.

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