Lêdo Ivo
Andava por aqui, calado, sem falar em Lêdo Ivo desde sua morte, quando os olhos caíram no artigo de Ticiano Duarte publicado na Tribuna do Norte. Tinha medo de dizer, por soberba sem perdão: ‘Tenho quase tudo dele, várias edições originais’. Ou então, num vitupério que é o pecado do elogio de boca própria: ‘Ninguém prestou atenção à sua poesia e à sua vida mais do que eu’. Pra nada, pois nada nos devolveria o poeta, mesmo ranzinza, mostrando os dentes afiados aos ímpios.
Três vezes vi Lêdo Ivo, duas de longe. Aqui, em 1978, no Encontro Nacional de Escritores promovido pela Universidade, como registrou Ticiano Duarte; depois, um dia, entre as prateleiras da livraria Camões, no Rio; e, por fim, no chá da Academia Brasileira de Letras quando lá estive, a uns oito anos, sei lá, a convite do poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin. Nesta, foi possível pelo menos puxar uma pequena conversa que deve ter durado pouco mais de uns dez minutos, se tanto.
Sei, de vivências e desvivências, se é que mereço a licença poética, que é preciso buscar um assunto de interesse do interlocutor para iniciar uma boa conversa. Foi o que fiz. Olhei pra ele, do outro lado daquela mesa aristocrática do Petit Trianon, e disse: ‘Sou leitor de sua poesia e tenho, entre outras coisas, a plaquete com a saudação de Edson Nery da Fonseca, publicada em Penedo, onde está a íntegra do poema a Recife que tanto provocou ciúme a seus conterrâneos das Alagoas’.
Ele fixou os olhos em mim, soltou um leve sorriso com o ciúme dos alagoanos, e disse que o poema também estava na antologia organizada por Edilberto Coutinho – Presença Poética do Recife. E está. Edson Nery, na saudação, maio de 1995, leu o poema na solenidade de Penedo e enumerou três razões: ‘Primeiro (e mais importante) porque é muito bonito; segundo porque não reapareceu nas obras poéticas do autor; e terceiro porque não poderia deixar de trazer à cidade acariciada pelo vento do São Francisco um pouco da brisa oceânica do meu Recife’.
Sobre o ensaísta, arrisquei elogios a duas paixões literárias deste leitor que logo classifiquei de provinciano: o ensaio ‘O Preto no Branco’ e o outro ensaio de abertura da sua tradução de ‘Uma Temporada no Inferno’, de Rimbaud. Gosto tanto do primeiro, a ‘exegese de um poema de Manuel Bandeira’, erótico e genial, que tenho três exemplares da edição original, um deles autografado para o escritor Berilo Neves. Ouviu e disse, amável: ‘Fico feliz. Nas províncias estão os bons leitores’.
Uma vez, aqui em Natal, conversando com Ednalva Tavares, então mulher de José Louzeiro, hóspedes de Márcia Carrilho e de quem recebi de presente a edição francesa de Pixote, descobri que eles eram amigos de Lêdo Ivo e que ele freqüentava a mesma livraria, no Rio, uma vez por semana. Botei a vergonha de lado e pedi que levasse meu exemplar de ‘Curral de Peixe’, então o mais recente, e pedisse um autógrafo. Veio: ‘A Vicente Serejo, esta lembrança amiga de Lêdo Ivo, 1995′.
Ednalva também confirmou que ele aceitava o convite para vir a Natal lançar o livro e uma conversa informal na Capitania das Artes que Rejane, à época, dirigia. Guardo o cartão até hoje: ‘Prezado Serejo, / Segue o livro de Lêdo Ivo. Falei sobre a palestra e ele disse que tudo bem. Só não pode ser até 7.12.05 porque ele está envolvido com a eleição da Academia. Fiquei de enviar-lhe o telefone para Rejane combinar com ele – 551-9801. Um abraço e saudades dessa terra maravilhosa’.
O poeta acabou não vindo, mas estão aqui até hoje quase todos os seus livros. Os velhos, estes persegui nos sebos; os novos, fui comprando desde sempre. Como ficaram pregados na alma muitos dos seus poemas, versos e pedaços de versos com os quais enchi a mala das minhas afeições por sua poesia. Por isso vivo aqui repetindo a sua Valsa Fúnebre a Hermengarda e o seu mar que se ausenta nas tristes marés de abril, como lembrou Ticiano Duarte no seu belo artigo sobre o poeta.
Em 2004 a Topbooks reuniu toda a sua poesia, desde Imaginações, de 1940, livro de estréia, até Plenilúnio. Em 2007, o Instituto Moreira Sales, onde está sua correspondência passiva doada ainda em vida, lançou ‘E agora adeus’, seleção de cartas. Lá está uma de Guimarães Rosa, então em Londres, como diplomata, pedindo que Lêdo Ivo fizesse a sua inscrição num dos apartamentos que seriam financiados pelo Ipase. E citando, como um amigo comum, o macaibense Octacílio Alecrim.
Em 2008, seu filho Gonçalo Ivo que é artista plástico e vive em Paris – nos braços de quem Lêdo faleceu a 23 de dezembro durante viagem a Sevilha – ilustrou seu Réquien numa belíssima edição como se fosse a despedida e começa assim, como há de ser um livro de adeus de um grande poeta: ‘Aqui estou, à espera do silêncio’. Mas não foi a última coisa. Ano passado, a Academia Brasileira de Letras lançou ‘O Vento do Mar’. Um livro azul, muito bonito, reunindo sua vida e sua obra, uma pesquisa de Monique Cordeiro Figueiredo Mendes. E tudo vive aqui como de vida tivesse, com cada livro gritando seus versos no silêncio pobre deste mundo que eu mesmo inventei.
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