Legado seria ver o Arena das Dunas como presídio para detentos

Sugiro que esqueçamos de educação, saúde e segurança pública. Isso é coisa de pobre. Somos top no mundo

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Então ontem teve uma festinha privê na Arena das Dunas só para moradores da redondeza e eu não fui convidado? Meio que para pedir desculpas pelo incômodo com a obra, bancaram quitutes e banda de forró para a rapaziada, e este editor fariseu não ganhou nem um risole e uma taça de sidra? O que houve? Ainda tive que ver na TV Cabugi que eles estavam curtindo a vida adoidado, enquanto no SBT um delegado era massacrado por dar rolé com uma menininha de 17 anos numa viatura novinha em folha (antológico!).

A Arena me custou caro. Como bom otário, (1) gastei gasolina além da conta, todo dia, toda hora, no último ano, por ter que fazer um caminho mais longo para chegar em casa; (2) gastei tempo e material de limpeza extra para tirar a poeirada que a obra soprava diariamente em meus móveis e cortinas; (3) tive o sono atrapalhado pelo barulho de caminhões, retroescavadeiras e guindastes (minha cota de camomila aumentou). Deveriam, pelo menos, mandar um cartão de felicitações, como um político-malícia no período natalino. Eu queria um agrado.

Dizem que nos dias de jogos, os moradores da área terão de passar por uma barreira policial montada num raio de um ou dois quilômetros em torno do estádio. Nesse perímetro, só entrará quem tiver ingresso, coragem ou a chave de casa. Já imagino o que farão na partida dos Estados Unidos. Ou seja, eu moro desde 1988 no mesmo endereço e vou ter que pedir permissão à CIA, ao FBI, à Jerôme Valcke ou para raio que me parta na hora que pegar o carango. Chega a fedentina Carnatalesca deu saudade.

No instante que você ler este quarto parágrafo, saiba que, provavelmente, estarei impossibilitado de entrar e sair de casa como bem entender. Com a inauguração do estádio, presença da presidente Dilma e esquema de segurança para todo lado, tenho que aceitar o que diz meia dúzia de pessoas: que tudo vale a pena, pois é um grande momento para nossa cidade. São as mesmas que atrelam amor e orgulho à Arena das Dunas – linguagem mais ‘progressista’ impossível. Mas ainda bem que elas existem para gritar o que quase ninguém entende.

Só peço que façam isso em meu ouvido esquerdo, porque o direito anda meio debilitado com a piora do trânsito por aqui. Nêgo buzina por brincadeira, imagino que chateado com os engarrafamentos. E hoje a coisa vai piorar, com os manifestantes que prometeram parar a cidade. Pena que deixaram tudo para a última hora. A zoada deveria ter sido feita em 2009, quando o Machadinho ainda estava vivo e os R$400 milhões na conta do BNDES – a claque ainda insiste em dizer que nosso Taj Mahal foi feito com verba privada.

Sugiro que esqueçamos de educação, saúde e segurança pública. Isso é coisa de pobre. Somos top no mundo, com uma classe média do tamanho de uma Alemanha (mesmo com o salário de mil e poucos reais servindo de base para o cálculo do Governo).

Queremos Apples, Land Rovers, férias na neve, tela plana ad infinitum. Esse papo de reduzir desigualdade é coisa de lascado e socialista. Nós queremos é comprar, aparentar. Então, louvemos nosso ‘monumento’ com um sonoro “Atchatchatcha”, como um dia os indianos aceitaram a megalomania de um apaixonado.

HRTHE

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