Leia “Os Verbos Auxiliares do Coração”, de Péter Estérhazy – cotado para o Nobel

Saiba como ele fala com todos nós ao revelar dor, culpa e felicidade ao lado da mãe, morta duas semanas antes de começar a escrever

Conr6

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Em 1986, eu tinha dez anos. Nessa época, como quase todo menino, futebol era minha religião. Mesmo com a fé abalada, pois havia quase duas décadas que a Seleção Brasileira e o Botafogo acumulavam ‘títulos morais’, jogos importantes transformavam a data em feriado – sofri muito para não virar a casaca para o Flamengo de Zico.

No dia do meu aniversário, o novo scratch de Telê Santana estreou na segunda Copa no México, contra a Espanha – inesquecível por trocarem o Hino Nacional Brasileiro pelo à Bandeira, enquanto Sócrates e sua bandana desdenhavam; e pelo gol espanhol anulado erroneamente. A festa que meus pais organizaram foi completa.

Meses antes, uma funesta excursão pela Europa gerou interrogações, nem tanto pela derrota para a então Alemanha Ocidental (2×0), mas, sim, pelos constrangedores três a zero que a Hungria nos aplicou – se o ataque tinha Casagrande e Renato Gaúcho, o camisa dez era Elzo (?!) e na ponta esquerda, o veloz e estéril Sidney. A partida completa está disponível no Youtube.

Seria o último bom time montado pelos herdeiros de Puskás. Aquele amistoso em Budapeste foi o preâmbulo da história integral da Seleção de Telê – Parte 2, concluída na disputa de pênaltis com a França. Meu pai gastou muita saliva explicando, para alguém que nunca tinha visto um título sequer, porque éramos os melhores.

Lembrei do período após ler “Os Verbos Auxiliares do Coração”. O autor, Péter Estérhazy, irmão mais velho do terceiro húngaro a balançar as redes canarinhas naquele amistoso, é um dos escritores frequentemente cotados para receber o Nobel – tem 30 livros publicados.

Meus pais estão vivos, mas não fugi da emoção com “Os Verbos…”, livro memorialístico e autobiográfico sobre a mãe de Estérhazy, escrito duas semanas depois da morte da progenitora. Com o inevitável afastamento da fase adulta, muitas vezes por questões geográficas, surgem os momentos felizes, a nostalgia, a culpa, as dores.

Estérhazy dividiu a narrativa em duas partes. Na primeira, um homem apresenta suas reminiscências da família, onde irmãos se toleram, enquanto é aterrorizado no desgastante ritual de despedida da mãe. “O pior neste momento seria o pesar de quem quer que fosse [...]“. Todo velório é patético e desnecessário.

Na segunda metade, Beatriz Viterbo (nome emprestado da personagem de “O Aleph”, de Jorge Luis Borges), a mãe, assume a narração para contar detalhes de sua infância e juventude. Entrecortando a voz principal, Etérhazy lançou mão de trechos de clássicos, como Camus,Tchekhov, Mallarmé, Rimbaud, Sartre, Musil e Wittgenstein.

São duas estruturas, uma real, outra, sombreada, com a mãe se referindo ao filho como se ele fosse o morto. Os fragmentos, aparentemente desconexos no pé da pagina (citações dos autores), revelam sentido à medida que o fim do livro se aproxima.

Estérhazy, fã confesso de futebol, foi longe na tentativa de encararmos o amor parental e a consequente perda do mesmo. Em um dia mais emotivo, páginas e lágrimas viram juntas, como o sofrimento e a existência.

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