Leila Míccolis, Clara de Góes, Os Chicos e Artur Soares são as atrações do Dia da Poesia

SecultRN/FJA promove ampla programação do Dia Nacional da Poesia com intervenções, shows, instalações, mesa-redonda sobre poesia marginal e recitais poéticos, na Pinacoteca Potiguar e nos shoppings da cidade.

Artur Soares. Foto:Divulgação
Artur Soares. Foto:Divulgação

“A poesia nos ensina a ver como se víssemos pela primeira vez”. A frase do poeta Carlos Felipe Moisés traduz o motivo de se fazer anualmente uma grande festa no dia 14 de março, quando se comemora o Dia Nacional da Poesia. A ideia é de que as pessoas possam ser tocadas em sua essência com versos que revelam as  sutilezas da vida. Para essa sexta-feira especial, dedicada ao poeta Moacy Cirne, falecido recentemente, a Secretaria Extraordinária de Cultura e a Fundação José Augusto oferecem uma ampla programação, com a tradicional Galeria do Povo, lançamentos (livro, suplemento e revista), bate-papo literário sobre poesia marginal, recitais, shows musicais e intervenções urbanas.

A festa terá início simultâneo às 9h com a intervenção urbana Pacote de Poesia, nos pontos de ônibus dos principais shoppings da cidade (Natal Shopping, Via Direta, Midway, Cidade Jardim e Norte Shooping). Os Agentes de Leitura da região Metropolitana distribuirão envelopes contendo poemas de autores potiguares. Nos Jardins da Pinacoteca Potiguar, instituída a Praça da Poesia, o poeta Eduardo Alexandre abre também pela manhã a Galeria do Povo, uma exposição colaborativa, produzida antes e durante o evento. Quem quiser participar, é só levar um poema, recorte, quadro, ou produzir algo na hora, ou seja, o que achar bacana para contribuir artisticamente. A Galeria do Povo surgiu em 1977 num muro da Praia dos Artistas, em plena época da ditadura militar, como uma forma de manifestação artística a favor da liberdade de expressão.

Um dos pontos altos da programação será o bate-papo, às 17h, com as poetisas – ou poetas, como algumas autoras preferem ser chamadas – Leila Míccolis e Clara de Góes, que conversarão sobre “poesia marginal” na mesa com Plínio Sanderson, Aluízio Mathias, João Batista Morais Neto (João da Rua) e Eduardo Alexandre. As duas convidadas são muito respeitadas no meio intelectual, e  Clara é norte-rio-grandense, embora seja radicada no Rio de Janeiro.

Leila Míccolis nasceu no Rio de Janeiro, é editora, professora de roteiro de televisão, promotora cultural e artista performática. Publicou diversos livros, entre os quais, “Em perfeito mau estado”, “Do poder ao poder – alternativas na poesia e no jornalismo nos anos 60” e “O bom filho a casa torra”. Psicanalista e professora de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a potiguar Clara de Góes escreve poesia desde 1986. Seu primeiro livro, “As aranhas”, foi lançado em 1989. No ano seguinte, publicou os poemas reunidos em “Cinema Catástrofe”. Lançou também “Pedra do Morcego”, “Poeira” e “Caravelas”, entre outros.

Guaraci Gabriel, Civone Medeiros, Zila Mamede e Othoniel Menezes – No dia 14 de março, a Praça da Poesia (nos jardins da Pinacoteca), receberá dois presentes, o busto do poeta Othoniel Menezes, eternizado pela canção-poema Praiera, e a escultura-instalação Zila: corpo a corpo, concebida por Guaraci Gabriel e Civone Medeiros, que juntos homenageiam Zila Mamede, um dos mais expressivos nomes de poesia potiguar. Conhecida por suas performances e recitais, Civone brinda o público com o recital “Um amor para chamar de show”, às 19h.

Poesia de uma menina esperta

As boas e más intenções de uma poetisa, natural de Currais Novos, que conquistou o júri do Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães.

“Aprendi a domar meus medos, confiando em meus próprios dedos”. Braile, poema publicado na coletânea 15 Poetas do RN, dos vencedores e menções honrosas do Concurso Luís Carlos Guimarães 2013.

De repente, uma garota apaixonada começa a escrever poemas, a fazer rimas. Coisas naturais da idade. Mas sua paixão transcende a fase adolescente e alcança as letras, a literatura. O tempo cuidou de lapidar a poesia existente na alma de Marcela Maria Freire, uma professora currais-novense de 33 anos, tornando-a ácida e ao mesmo tempo doce, mordaz, pulsante, latente para ser mais precisa. Ela escreve o que pensa e esconde as verdadeiras intenções num certo jogo de palavras. Menina esperta.

Vencedora do Concurso Luís Carlos Guimarães, realizado em 2013 pela Secretaria Extraordinária de Cultura, Marcela – ou Mamafrei, como os amigos a apelidaram – revela-se proprietária de versos certeiros, descobrindo a sonoridade das palavras de uma maneira absolutamente espontânea, na cozinha, com a mãe, observando a marca de uma panela de pressão. “Globo”, leu baixinho sua primeira palavra, enquanto ajudava a mãe na lida.

“Minha vida literária teve início a partir do suave descobrimento das primeiras letras. Nunca fui de ler muito até chegar à universidade. Mas, apesar disso, implicitamente ou explicitamente, meu pai apesar de ser um semi-analfabeto, nos indicou o caminho da literatura, ao comprar vez ou outra livros daqueles vendidos de porta em porta: ciências, dicionários, romances, literatura infantil”, declara.

Após residir dez anos em Sergipe, Marcela retornou a Currais Novos na adolescência e, ao final do Ensino Fundamental, escreveu suas primeiras rimas, “movida pelo impulso do primeiro amor”. No Ensino Médio, aluna da Escola Estadual Tristão de Barros, berço de grandes nomes curraisnovenses, sentiu-se mais à vontade para escrever com o estímulo das aulas de literatura. “Não canso de dizer que foi Luma  [Luciana] Carvalho, a minha grande iniciadora poética. Foi ela, minha primeira professora de Língua Portuguesa e Literatura a recitar poemas, a explodir palavras que soaram tão bem a esses ouvidos, naquela época, ‘virgens de poesia”.

A garota que se encantava por versos e rimas entrou na UFRN em 2006, para o curso de Letras. “A paixão pela palavra foi então confirmada. Fui aluna bolsista de Iniciação Cientifica e aluna bolsista de Extensão, dando minha contribuição à sociedade por meio de recitais poéticos, apresentando aos alunos das escolas municipais e estaduais de Currais Novos alguns poetas potiguares e a beleza de suas respectivas poesias. Devo, portanto, minha paixão pelos potiguares à professora Valdenides Dias e a Eliabe Davi, que me apresentou à Literatura Potiguar”.

A poetisa conta que antes de fazer parte do Projeto de Extensão Poesia Potiguar & Cia, sentia um desgosto profundo por não ter decorado sequer um poema. “Achava lindo o poema recitado e, quando fui convidada, senti-me extremamente realizada neste projeto por ter descoberto uma outra paixão além de escrever poemas: a de emprestar a estes a minha voz, o meu corpo, a minha força expressiva de menina e de mulher nordestina”.

A poetisa então já havia nascido, como ela relata de maneira metafórica – aliás, como o poema se configura segundo Pablo Neruda, uma composição de metáforas – ”as lúdicas e ao mesmo tempo melancólicas meninas começaram a efervescer em meu ser e não houve outro jeito, senão render-me aos seus encantamentos”. Em 2008, a menina se lança na rede com o blog Vênus Renascida (http://venusrenascida.blogspot.com.br/), e faz questão de frisar que “alguma semelhança com a obra de Sandro Botticelli O Nascimento de Vênus (1843) ou com a ave mitológica Fênix não é mera coincidência”.

Como surgiu a ideia de se auto-afirmar com uma Vênus, no seu blog Vênus Renascida?

Certa amiga minha costumava chamar-me de Vênus e para Renascida foi só um passo em meio a tantos desencontros amorosos que me acometeram nesta incipiente vida. Então, a partir desta frase que veio a minha mente como um insight: Jamais recomeço, renasço! Sou o silêncio do vácuo… gélido, hipnótico, profundo…Sou Mar e Cela…devaneando no obscuro… comecei a postar alguns de meus versos renascidos com  temáticas bastante variadas: amor, saudade, um pouco de erotismo e muito de existencialismo.

Como é seu processo criativo?

Meu processo criativo se dá a partir de leituras, na maioria das vezes, de poemas. Mas só a leitura de poemas não é suficiente. Sinto a necessidade de ler as pessoas, de ler o mundo. Atendendo ao chamado das Letras e estimulada pelo dia-a-dia das pessoas e como grande observadora do comportamento humano e de suas vivências, também vivencio essas experiências cotidianas e traduzo-as em meus versos curtos ou em sua maioria extensos, livres, leves e soltos, materializados em recados, bilhetes, cartas, poemas, poemas-réplicas, contos poéticos, crônicas-poéticas, e poemas direcionados a amigos.

O que você gosta de ler? Quais seus autores poetas preferidos?

Gosto de ler poemas. Sejam eruditos ou populares. Sejam de autores nacionais ou internacionais. Tenho certa preferência pelos meus potiguares: Luís Carlos Guimarães, Diógenes da Cunha Lima, Auta de Souza, Zila Mamede, Marize Castro, Diva Cunha, Rizolete Fernandes, Maria Leda Maciel, Ana de Santana, e, em particular, pelos curraisnovenses assim como eu: Suetônia Batista, José Bezerra Gomes, Iara Maria Carvalho, Wescley J. Gama, Maria Maria. Mas é claro que as leituras de poemas de Carlos Drummond, Manoel de Barros, Mário Quintana, Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Odete Semedo, Khalil Gibran, assim como outros são indispensáveis.

Para que serve a poesia na sua vida?

A poesia em minha vida se transformou em um divisor de águas. A partir dela pude enxergar a vida de uma perspectiva diferenciada. Ela, a poesia, abriu-me não apenas portas e janelas, mas, sobretudo, caminhos. O caminho da sensibilização, da humanização, da empatia. A partir da poesia, principalmente a potiguar, pude exercer minha autonomia e minhas habilidades em lidar com o público. Foi o trabalho e os resultados obtidos com a poesia que me estimularam a exercer a prática docente, a valorizar e a enxergar a beleza nas pequenas coisas.

De que se reveste sua poesia?

Minha poesia se reveste do cotidiano. Das mais íntimas experiências humanas, demasiadamente, humanas. Gostaria muito de ver meus versos publicados, não por vaidade, mas para que assim eu possa nunca morrer, pois existo em minha poesia. E também pelo desejo de ver a poesia tomando novos rumos, novas formas, novos sabores, novos odores. Considero, pois, que minha poesia seja uma poesia sinestésica. Acredito piamente numa poesia sentida, palpável que ultrapassa as barreiras geográficas e culturais; que alcança o inalcançável, que diz o indizível.

Conte-nos um pouco seu dia a dia, seu trabalho…

Atualmente estou cursando pós-graduação em Literatura e Ensino. Além disso, estou ministrando aulas de Língua Portuguesa e Literatura a duas turmas da 2ª série do Ensino Médio de uma escola estadual aqui de Currais e, na Mina Brejuí, ministro aulas de Xadrez Tradicional no Programa Mais Educação. Continuo coordenando o grupo Poesia Potiguar & Cia e ministrando oficinas de poesia.

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