Lembranças da noite embriagante no palco com Reginaldo Rossi

A brincadeira ocorreu 17 anos atrás, no Portal das Dunas, na Redinha

O Rei soltou no microfone: “O cara é um craque”. Foto: Divulgação
O Rei soltou no microfone: “O cara é um craque”. Foto: Divulgação

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Era mais um verão abafado e promissor. Como tantos jovens, eu e minha turma nos dividíamos entre as festas dos litorais norte e sul. Todos gostavam de rock (alguns inclusive tinham bandas de heavy metal), mas a Natal dos anos 1990 ainda padecia de opções noturnas para quem evitava o rala bucho e o axé enlatado dos baianos. Ou você se inseria na carnificina sonora, ou amargava a degustação do polegar direito nas noites de sábado. Pelo menos para mim a coisa funcionava desse jeito.

Então, naquele dia olhamos para o cardápio festivo e optamos pelo Portal das Dunas, na Redinha, point que rivalizava com o Circo da Folia de Pirangi pelo título de o mais badalado do veraneio.

Nossa idade variava entre 21 e 24 anos, o que significava disposição para ir até onde a farra estourasse. Talvez duas ou três bandas descartáveis tenham aberto a programação, antes de Reginaldo Rossi chegar como prato principal. Eu detestava aquele som chamado de brega com todas as minhas forças. Achava um absurdo ser tão novo, cheio de energia e testosterona, e ficar enchendo a cara em uma mesa de bar por causa de uma garota qualquer que me traiu ou abandonou.

Mas já tinha visto outros shows dele e sabia que ninguém ficava parado. Como de costume, esquentamos em um morre em pé, antes de cruzarmos a zona Norte rumo ao destino final.

O Portal das Dunas era menos elitizado que o Circo da Folia, o que gerava uma mistura interessante de espécies, sobretudo nas imediações da entrada. Se os mais desenvoltos e bem nascidos tinham gatinhas correlatas à disposição, os mais tímidos e lisos podiam flertar com as desinibidas que entravam na guerra com a faca entre os dentes, prontas para o tiroteio galanteador dos indóceis. Fortalecíamos a coragem e o desembaraço com a cerveja de um vendedor ambulante, quando encontramos outra turma com dois ou três conhecidos – um de meus amigos tinha estudado, ou algo parecido, com um deles. Em questão de minutos, a confraternização virou um teste para nossa integridade de suposta classe média.

Alguém tinha achado (foi a versão oficial) um talão de cheques e estava distribuindo birita para todo lado. Uma coisa odiosa que merecia uma surra e uma temporada na cela ao lado de Demi, Paulo Queixada e Naldinho do Mereto, para aprender a nunca mais repetir a ignomínia. Mas isso quando você tem vinte anos, idade em que a moral é cutucada cada vez que a porta de sua casa é ultrapassada, numa noite em que o álcool já se instalara no cerebelo, é uma situação mais complicada do que parece. Um sujeito alto e gordo surgia, de instante e instante, com as mãos cheias de latinhas e um sorriso canalha de quem está se dando bem às custas dos outros.

Nós aceitamos a oferenda e entramos, momentaneamente, para o submundo do crime. Demoraria anos para termos a noção exata do delito. Todo mundo calibrado, ingresso no bolso e olhares canibalescos para a metade mais bonita da humanidade, entramos no Portal das Dunas com a certeza de que a noite seria nossa. Horas depois, uns acompanhados, outros embriagados, fomos para frente do palco, pois o Rei do Brega já ensaiava os primeiros passos durante o famoso pot-pourri de abertura. A multidão entoava a filosofia musicada de Reginaldo Rossi, feito intelectuebas seguidores de Roland Barthes e seu Fragmento de um Discurso Amoroso. Eu não sabia por que minha ojeriza àquele gênero era amenizada em seus shows.

Em um dos vários momentos de interação do monarca nordestino com a plateia, ele perguntou quem sabia cantar a música Cavalgada, de Roberto e Erasmo Carlos. Meu amigo Paulo Leitão sabia e confessou ‘em off’ – sexta-feira passada, com a notícia da morte de Reginaldo Rossi, conversamos sobre detalhes daquela noite. Ele relembrou que eu e Sérgio ‘Muleta’, colega e filho do ídolo americano Véscio, um dos maiores meio-campistas que os potiguares viram jogar, fomos os responsáveis por sua aquiescência em interpretar o tema ao lado do astro popular, diante da massa de bebuns. Acenos e urros coletivos chamaram a atenção do cantor, que fez o convite a Leitão. Vibramos como se nosso time de coração tivesse feito o gol do título.

Leitão vestia uma calça social cinza, bota Hd e camisa de botão florida a la Salvador (de Luiz Salvador De Gregório, seu pai já falecido, um dos boêmios da Natal de antanho e juiz classista que adorava uma estampa havaiana). Ele sabe cantar e tocar violão como poucos, sempre com um carisma acima da média. “Essa musica é em homenagem a Celeide, sua mulher”, cochichou no ouvido de Reginaldo Rossi antes de entoar a primeira estrofe. As pessoas perceberam que se tratava de alguém tarimbado para o desafio. O Rei soltou no microfone: “O cara é um craque” – daquela noite em diante, Leitão embarcou numa jornada kamikase que incluiu o recebimento de uma herança considerável, o abraço à vida noturna e às drogas pesadas. Hoje ele apresenta um programa católico, todas as terças-feiras, às 12h30, na TV Potiguar. No site do jornal (www.jornaldehoje.com.br) tem seu perfil que escrevi no final do ano passado.

A cena virou antológica em nossa turma – com direito a vídeo em VHS.

Procurei no Youtube e com o próprio Leitão, mas ela se perdeu no tempo. A melodia deprê de Cavalgada, que MC Catra diz ter o sonho de gravar com o próprio Rei, ficou em meu subconsciente a ponto de ser reconhecida de imediato, ao ouvi-la novamente durante a escritura desta narrativa. Rossi morreu numa sexta-feira, dia em que bares e casas de shows costumavam lotar de discípulos do artista que me fez rever conceitos. O cabelo ninho de pombo, a la Bira de Jô Soares, do ex-professor de física e matemática que virou um profeta da paixão incondicional sumiu. Agora só em imagens gravadas. Mas sem deixar tristeza, porque Reginaldo Rossi e seus fãs vivem em eterna lua de mel.

 

 

 

Errata
Daliana Cascudo, neta do folclorista potiguar, manda e-mail para corrigir um grande erro que cometi na edição de sábado passado (21/12/2013), no texto “Mulheres de Cascudo”. Seguem suas palavras. “Na verdade, a restauração [do casarão que virou instituto] foi feita pelo meu pai, Camilo de Freitas Barreto, dono da construtora CFB Engenharia LTDA. que foi o grande responsável por toda a restauração da casa. Tenho por ele uma dívida de gratidão imensa e gostaria que, se possível, esta correção fosse feita. Ele era genro do meu avô, Luís da Câmara Cascudo, e acho que daí surgiu o equívoco”. Fica o registro de meu pedido de desculpas e a gratidão pelos elogios.

Blog
Enquanto o futebol reina como esporte preferido para a grande maioria das pessoas, inclusive para mim, outras modalidades proporcionam momentos históricos na vida dos menos exigentes. Ontem à tarde, foi a vez do handebol feminino causar comoção, com a conquista brasileira do mundial na Sérvia. Lá no blog (conradocarlos.jornaldehoje.com.br) tem minhas impressões sobre o jogo que a mídia nacional virou as costas. Tem também o vídeo com a mensagem da presidente Dilma Rousseff para as festas de fim em 2012. Preste atenção ao que ela diz, compare com a situação atual e planeje seu voto para outubro próximo.
 
Presente de Natal
Nada de kits de cosméticos ou roupas impessoais. Neste Natal uma ótima pedida para presentear pessoas queridas é um CD de Khrystal. Ou melhor, os dois filés que ela lançou: Coisa de Preto e Dois Tempos. “Pra quem já me conhecesse mas não tem um ou outro disco e para os que estão chegando agora em busca de um contato maior com nossa produção”, diz a cantora na mensagem divulgada pelo marido e produtor Zé Dias.  Cada um custa R$ 20 e pode ser adquirido através de contato feito pelo Facebook (www.facebook.com/jose.diasjunior.5?fref=ts) ou no e-mail zede.contatokhrystal@gmail.com.

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