Leônidas do gesto

Quarto zagueiro referencial do Botafogo de Gerson, Jairzinho, Rogério e Paulo Cézar, Sebastião Leônidas esteve cotado para duas Copas do…

Quarto zagueiro referencial do Botafogo de Gerson, Jairzinho, Rogério e Paulo Cézar, Sebastião Leônidas esteve cotado para duas Copas do Mundo. Em 1966, jogando pelo América (RJ), foi um dos 45 incluídos na tragicomédia do fracasso na primeira fase. Melhor para Leônidas não ter ido.

Bicampeão carioca titularíssimo do Botafogo em 1967/68, chegou a ser convocado pelas imediações da Copa de 1970, mas ficou esperando outra vez, preterido pelo santista Joel Camargo e o truculento Fontana, ex-Vasco e Cruzeiro. Fontana, que Deus o tenha, como gritavam por Deus os atacantes triturados por suas chuteiras de navalha.

Não vi Sebastião Leônidas jogar a não ser em vídeos antigos e imagens do Canal 100 em que aparece demonstrando sobriedade e passo de integrante de Velha Guarda de Sapucaí, devagar, devagarinho, sempre chegando na hora certa. O legítimo guardião sem sobressaltos, sobrepondo-se pela leveza e a antecipação, a categoria e a antevisão.

Sebastião Leônidas tem laços emocionais com Natal. É, e afirmo sem precisar conferir, um dos maiores amigos do médico Maeterlinck Rêgo e do preparador físico Arthurzinho, decanos do América e seus companheiros na revolução construída pela paciência de Leônidas nos primórdios do Castelão (Machadão). Passou brevemente pelo ABC em 1985, numa campanha discreta no Brasileiro, mas sua marca é a redenção do América no poema concreto de Lagoa Nova.

Inaugurado em 1972 para ser derrubado 40 anos depois, o estádio era o palco do ABC ungido imbatível no tetracampeonato e na escalação decorada pelos vivos em bares de pé sujo e pelos mortos em reflexões de catacumba: Erivan; Sabará, Édson, Telino e Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes e Alberi; Libânio, Jorge Demolidor e Morais.

O América sofria abatido por trauma devastador: seu último título datava de 1969, no acanhado teatro de arena do Estádio Juvenal Lamartine, na misteriosa série de quatro jogos que acabou na vitória por 2×0, gols de Alemão e Bagadão, após o ABC perder no último minuto um jogo em que o empate bastava e a torcida comemorava soltando lenços brancos.

Alemão fez o gol que gerou a partida extra e o habilidoso meia e ponta Esquerdinha foi praticamente banido do futebol, acusado de suborno ao perder dois gols feitos driblando ao estilo de Rivelino e chutando para fora, trave vazia. Entrevistei Esquerdinha há quatro anos, em São Paulo e ele, óbvio, negou tudo e preferiu falar do glamour de um dos 10 homens mais elegantes de Natal na época.

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Em 1974, o América venceu seus medos, encarou o ABC eliminando-o logo no seletivo para o Campeonato Brasileiro. Sebastião Leônidas chegava e surgia uma geração preciosa formada pelas bases rubras e prestigiada por ele: o zagueiro Djalma, o meia Romualdo e o atacante Reinaldo eram os principais nomes. Djalma e Reinaldo jogaram em grandes clubes. Romualdo parou na promessa de eternidade.

Com Sebastião Leônidas de técnico e a sua segurança majestosa e tranquila, o América conquistou seu bicampeonato em 1974 e 1975, formando times inesquecíveis, retratados nas fotografias de Hélcio Jacaré, Humberto Ramos, Garcia, Jangada, Pedrada, Santa Cruz e Ivanildo Arara, miragens visíveis aos apaixonados que passam e olham fixamente ao vazio onde as multidões cantavam em delírio.

Ditadura não se comemora, se recorda para que nunca se repita. Seja de Direita, de Esquerda ou de Meio. Na esteira dos 50 anos do Golpe que gerou tortura e morte no Brasil, surge o Sebastião Leônidas em caráter pleno. Aos 75 anos, trabalha nas divisões de base do Botafogo do qual era o técnico dos profissionais em 1973, quando o pau cantava nos porões.

Sucesso entre os fanáticos por futebol, em sua paginação cor de rosa e títulos garrafais, exclamativos, passionais, o Jornal dos Sports do Rio de Janeiro destacou de setorista do Botafogo o então repórter Álvaro Caldas, que era opositor ao regime vigente e foi preso em sua casa, acusado de viajar ao exterior para “ações comunistas”.

Levado aos subterrâneos do DOI-CODI, interrogado e espancado, Álvaro Caldas apanhou negando qualquer ato criado de uma provável delação. Disse que estava trabalhando normalmente e cobrindo o Botafogo de “Leônidas, Jairzinho e Marinho Chagas”. De forma alguma embarcara a não ser para o Estádio General Severiano.

Enquanto Álvaro Caldas penava dentro de uma cela, agentes da repressão foram confirmar a versão e encontraram Sebastião Leônidas relaxado, orientando o time antes de começar o coletivo, jogo entre titulares e reservas abolido pelos técnicos de pranchetas ou tablets. Era o Botafogo de Scala, Marinho Chagas, Jairzinho, Dirceu, Nei Conceição, Zequinha, Fischer e Ferreti.

Sem saber de nada, sob pressão, Leônidas confirmou a verdade: “É, ele estava aqui sim, todo dia, trabalhando.” Leônidas salvou a vida do jornalista, mas poderia simplesmente calar, algo tão banal e cômodo na multidão de coniventes e ambíguos da época.

Foi um gesto corajoso, um ato arriscado do homem tão nobre quanto o zagueiro. Está contado no livro Tirando o Capuz, escrito por Álvaro com dedicatória especial a Sebastião Leônidas.

 

Bem na foto

O futebol potiguar incorporou os bravos mártires ao exibir autoestima na rodada pela Copa do Brasil. O ABC massacrou a Desportiva do Espírito Santo. Uma vitória que reanima a Frasqueira, esperança em massa.

América

O América poderia estar sossegado e classificado sem precisar de segundo jogo. A arbitragem pavorosa e perseguidora de Devarly Lira do Rosário impediu. O presidente Gustavo Carvalho ficou possesso e vai levar a fita do jogo para a CBF.

Abuso

Sua Senhoria abusou. Quando o América vencia por 2×0, resultado que assegurava a vaga para a segunda fase, o árbitro resolveu estragar a partida. Um erro a gente até discute. Mas a expulsão do camisa 10 Arthur Maia, o gol anulado de Rodrigo Pimpão e o pênalti cabuloso para o Boavista dispensam delongas.

Lusa

O Potiguar bateu a Portuguesa como a resistência mossoroense botou Lampião para correr. Mossoró ama o futebol e precisava de uma chacoalhada como a de ontem à noite.

Aqueceu

Os resultados de ABC e América aquecem o clássico de domingo na Arena das Dunas pelo Campeonato Estadual. É a última chance do alvinegro e a oportunidade para o rival disparar no segundo turno.

Botafogo

Os eternos Garrincha e Nilton Santos não merecem o atual Botafogo.

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