Ler o melhor crítico de rock que já existiu é diversão garantida

Lester Bangs foi um pop star do jornalismo cultural por ser emotivo, honesto e erudito

Conr1

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Lester Bangs foi um gênio, misto de Hunter Thompson, Jack Kerouac e Charles Baudelaire. Um cara que tirava poesia de um show punk e ainda detonava meio mundo – todos respeitavam sua erudição e poética. Entre o final dos 60s e os 70s, o rock não seria o mesmo sem aquela voz que falava como mais um dos milhões de jovens que pela primeira e única vez estiveram no centro da história. Ninguém escreveu de forma tão íntima com os fãs sobre um assunto de até hoje apaixona e gera milhões em qualquer moeda.

Filho de uma Testemunha de Jeová (perdeu o pai ainda criança), ele morreu no dia 30 de abril de 1982, em Nova York, aos 33 anos, encharcado com uma overdose de zilhões de medicamentos – quando a polícia chegou a sua casa, ainda tocava na vitrola o disco “Dare!”, do The Human League (banda new age e brega que fez certo sucesso por aqui, nos 80s). Da mesma forma que outros ídolos daquela época, a introspecção e os entorpecentes venceram a batalha contra existência.

Em 1969, então com 21 anos, enviou para a Rolling Stone uma crítica ferina do álbum “Kick Out The jams”, do MC5 – um dos precursores do punk. Essa foi sua estreia no jornalismo musical. Daí em diante, uma carreira explosiva foi forjada por uma mente brilhante e amplificada por todo tipo de droga – poucos viveram os extremos do show business com tamanha intensidade. Reli incontáveis vezes o ensaio “Iggy Pop: Maçarico Masoquista”, verdadeira aula de psicologia de um astro maluco que implodiu a cena roqueira na primeira metade dos anos 1970.

Bangs foi o inventor do termo Heavy Metal, cunhado para designar bandas pesadas que surgiram no final dos 60s – Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath. Como vivia às turras com seu editor na Rolling Stone, foi demitido em 1973 e se mudou para Detroit, cidade industrial que era a terra do maluco Iggy Pop, vocalista do The Stooges. Na cidade do automóvel, ele assumiu a chefia da Creem, revista alternativa de grande repercussão à época – ele ainda escreveu para a Village Voice, Penthouse, Playboy e para a inglesa New Musical Express.

Para ele, ser crítico de rock era mais que traçar dezenas de linhas sobre um disco ou um show. A arte era o foco, não o artista (“O culto da celebridade é um fetichismo do intermediário”; ou “O rockstar é apenas uma pessoa”). E gostava do que fazia: “Lógico que não vou ficar fazendo lamentações piegas, porque, como já falei, sei que me dei bem, não preciso acordar cedo e trabalhar numa fábrica das nove as cinco ou qualquer coisa assim”. Era um fã que se tornou escritor – e dos bons; referência para toda uma corrente que acredita na imersão extrema do autor na vida ou instante de um artista.

A sorte de viver no período mais fértil do rock o jogou na mesa com os astros. Em sua resenha “Vamos agora louvar os famosos duendes da morte”, sobre o ídolo Lou Reed, fez história: “É [Reed] um pervertido depravado completo e um duende patético da morte e tudo o mais que você quiser pensar que ele é. Acima de tudo isso, ele é um mentiroso, um talento desperdiçado, um artista em fluxo contínuo e um mascate vendendo quilos de sua própria carne”. A quantidade de doidões geniais do período ajudou na matéria-prima.

Retratado no filme “Quase Famosos”, de Cameron Crowe (com o já saudoso Philip Seymour Hoffman no papel), Bangs também foi músico (bola murcha!). Chegou a gravar um disco com o irmão de Joey Ramone. Porta-voz da Era dos Excessos, ele tem apenas um livro publicado no Brasil – a compilação “Reações Psicóticas” (Conrad); quase uma bíblia de como atirar sem ser ferido, sobretudo em um momento cujo rock virou um pastiche dos mais desagradáveis, repletos de bandas insignificantes e persistentes.

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