Linhas 22, 71 e 59 são as mais temidas em Natal, pelo alto índice de criminalidade

Assaltos a esses ônibus são constantes; usuários e motoristas esperam pelo pior em alguns itinerários

WRParad

Diego Hervani

diegohervani@gmail.com

Assaltos aos transportes coletivos de Natal já virou rotina há muito tempo. Quem nunca passou por tal situação, ou conhece alguém que já passou ou sabe de algum caso. Apesar das ocorrências acontecerem em diversos locais da cidade, existem linhas que são mais visadas pelos bandidos e todas têm várias rotas em comum.

As linhas que têm a maior incidência de assaltos são: 22 (Felipe Camarão/Bom Pastor/Quintas/Alecrim/Ribeira/Rocas), 59 (Guarapes/Felipe Camarão/Bom Pastor/Quintas/Alecrim/Cidade Alta/Ribeira/Brasília Teimosa/Praia do Meio) e 71 (Felipe Camarão/Bom Pastor/Quintas/Alecrim/Cidade Alta/Petrópolis/Ribeira). Na manhã desta terça-feira (1), a reportagem do Jornal de Hoje fez o percurso de ida e volta na linha 59 e pode constatar o medo que a população tem que passar todos os dias.

Por indicação do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do RN (Sintro-RN), pegamos o ônibus em uma parada que fica no cruzamento da Avenida Bernardo Vieira com a rua Manuel Miranda. Na própria parada um aviso nada animador colado no local. “Vocês passageiros que pegam ônibus nessa parada, cuidado, pois está havendo muito assalto”. Em cima do texto, alguma pessoa escreveu com caneta “principalmente na parte da noite”. Porém, a aposentada Salete da Costa, que todos os dias fica no local esperando o transporte, afirmou que não existe mais horário para a ação dos meliantes.

“Meu filho, aqui é muito perigoso. Todos os dias isso acontece. A população está entregue aos bandidos e ninguém faz nada. Eles agem em qualquer horário, não têm mais medo”, destacou Salete, que ainda disse que as pessoas estão tomando algumas medidas para tentar escapar dos criminosos. “Ao invés de esperarmos nessa parada, ficamos esperando em outros locais, como no posto de combustível (que fica próximo à parada). Quando o ônibus está chegando, nós corremos para pegar. Como os motoristas já sabem, eles nos esperam”.

Já no ônibus, o primeiro questionamento foi para o motorista. Perguntado se ele já tinha sido assaltado, a resposta veio com alívio. “Fui sim, mas só fui duas vezes, ainda bem. As duas com revólver. Tem motorista que trabalha na parte da noite que já foi assaltado mais de 10 vezes”, destacou o homem, que não quis ser identificado. Ele lembrou que as duas ocorrências aconteceram em uma parada em Felipe Camarão. “Nesse local é bem perigoso mesmo. É muito cheio de mato. É a chamada parada do Peixe Boi. Eles roubam e correm para o matagal, não tem o que fazer, apenas torcer para que eles apenas roubem e não façam nada conosco e nem com os passageiros”.

Por ser tão comum passar por situações como essa, o motorista já se disse acostumado. “Olha, é como a dengue. Quando ela surgiu todo mundo ficou espantado, hoje em dia já é normal. Ônibus ser assaltado virou coisa rotineira. Se ficarmos com medo, temos que mudar de profissão”.

Os medos dos passageiros são os mesmos. “Nós já vamos pegar o ônibus com medo do que pode acontecer. Deixamos alguns pertences em casa, para que, caso aconteça alguma assalto, o nosso prejuízo seja menor. Uma vez eu estava na linha 71 e aconteceu um assalto. Felizmente, se é que eu posso falar isso, ele pegou apenas o dinheiro do motorista e saiu, não mexeu com os passageiros. É complicado mesmo. Porém, tenho que correr o risco, já que é o meu único meio de transporte”, lamentou Luiz Gonzaga, atleta paraolímpico.

Na rota até o terminal, que fica no bairro do Guarapes, não são poucos os caminhos que só têm a estrada cercada por matagal, o que torna o transporte coletivo um alvo fácil da bandidagem. No retorno, com destino para a Praia do Meio, já com outro motorista no comando e novos passageiros, as histórias se repetiram. “Eu já fui assaltado duas vezes. Um pela manhã e outra no início da tarde. As duas vezes em uma parada que fica próxima à chamada Favela do Japão. Nas duas vezes me assaltaram com faca e levaram todo o dinheiro”, afirmou Jaílson da Costa, motorista da linha.

Ao contrário do colega de profissão, Jaílson disse que fica temeroso ao sair de casa e toma algumas medidas para tentar evitar novos assaltos. “Muitas vezes quando eu vejo alguém meio suspeito, eu acabo passando direto. Claro que isso não é o ideal e pode prejudicar a população, mas temos que fazer algumas coisas para tentar inibir a ação desses caras”.

Durante toda a viagem, a afirmação foi unânime, tanto por passageiros quanto por motoristas. Os adolescentes são os principais responsáveis por esses assaltos. “Uma vez um adolescente me assaltou, lá na parada da Favela do Japão. Uns três dias depois, eu estava passando por lá novamente e lá estava o garoto esperando, pedindo parada. Eu o reconheci e não parei. Liguei para a PM, mas ela demorou para chegar. O rapaz acabou assaltando o ônibus que vinha logo atrás”, recordou Jaílson. “A legislação precisa mudar. Os adolescentes fazem o que querem. Eles roubam e no outro dia estão soltos novamente. Enquanto isso a população fica prejudicada, sem poder fazer nada e pedindo para Deus que nada de ruim nos aconteça”, desabafou a empregada doméstica Cristiana Lima.

Polícia tem feito trabalho ostensivo

O Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do RN (Sintro-RN), afirmou que durante a realização da Copa do Mundo em Natal, o número de assaltos a transportes coletivos diminuiu consideravelmente, mas com o fim dos jogos na capital potiguar – o último jogo foi entre Itália e Uruguai no dia 23 de junho – esse número voltou a crescer.

Questionado sobre o assunto, o coronel Francisco Araújo, comandante geral da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, disse desconhecer esse aumento. “Antes da Copa do Mundo aumentamos as abordagens a ônibus. Fazendo revistas e tudo mais. Durante a Copa também fizemos e estamos mantendo isso. O sindicato não apresentou números, então não tenho como trabalhar somente em cima do que eles falaram”.

Apesar de confirmar o aumento do número de abordagens, coronel Araújo admitiu que é complicado fazer a segurança em transportes coletivos. “Em Natal nós temos 800 ônibus rodando diariamente. São mais de 4 mil viagens por dia. Ou seja, são 4 mil rotas que temos que cuidar. Então é uma situação bem complicada. Não temos como fazer a segurança em todas as rotas. Porém, nos próximos dias estaremos recebendo novos veículos e vamos aumentar essas rondas ostensivas que já estamos fazendo”.

Por fim, Araújo informou que a polícia está ciente de que existem linhas que são mais visadas pelos assaltantes e que a PM também tem trabalhado no sentido de inibir essas ações. “Nós temos feito abordagens nessas regiões. Eu conheço essa região das linhas 50, 22 e 71, pois já morei por lá. Realmente sãos locais perigosos, mas a polícia está fazendo todo o possível para garantir maior segurança para a população”.

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