Do lirismo que fugiu…

Sempre à distância, mas sabendo que neles vivia o lirismo comedido, aquele de que falava o poeta Manuel Bandeira. E,…

Sempre à distância, mas sabendo que neles vivia o lirismo comedido, aquele de que falava o poeta Manuel Bandeira. E, talvez por isso, a cada livro procurasse esse lirismo sufocado. Como um fugitivo que na beleza do seu sonho de liberdade sai por entre os dedos, as frestas da alma. E assim fui indo. Um muxoxo aqui, outro acolá, sempre o expectador que sofrido no seu pobre e ultrapassado lirismo nunca conseguiu ser o ensaísta talentoso para abrir as grades num ensaio ousado e libertador.

Aos dois, em encontros casuais, arriscava dizer versos deles como se lançados assim, em seus calmos tons de azuis, revelasse o lirismo escondido. Um dia, num porre na Redinha, pedi a Daillor seu próprio livro que trazia nas mãos, ‘A Louça Suja da Convivência’. E li um pequeno poema em forma de telegrama, e que precisei procurar para citar sem erros: ‘Ainda pode / ser sexta-feira / na nossa / esperança’. Seria o lirismo, como avisa noutro verso, prisioneiro do silencio numa linguagem oculta?

Tem mais. Daillor cerzia poemas eróticos naqueles anos encabulados. Diva Cunha e Marize Castro ainda não lavavam as carnes sujando de desejos da pobre pureza da nossa poesia feminina. Há um poema de Daillor bem assim, sobre aquela flor aberta em gomos: ‘Teu sexo / abre-se como / flor noturna / do desejo. / Planta carnívora / de cheiro ácido / que se derrama / em silêncios’. Mas sempre lírico. Sempre. Reparem: ‘Se eu morrer / nesta tarde cinza / quem cuidará da / minha bicicleta azul?’.

Com a poesia de Moacy Cirne o lirismo também foi uma busca. A última vez que nos vimos foi no Centro de Convivência da UFRN, numa feira de livros. Mais uma vez confessei minha terrível frustração de não ter começado os meus tão pobres livros de crônicas, até para salvá-los, com aquele aviso em ‘Cinema Pax’ de que ali estava um cronista ‘bêbado de auroras’. Ou o poema de quando tenta lembrar, liricamente, o esquecido nome daquela rapariga que lhe ‘anoitecia de carnes e espantos’.

Poeta lírico, de um grande lirismo que não foi possível esconder, explodindo como a babugem nos invernos do sertão, Moacy e Daillor foram vanguarda e tradição. Não tiveram medo de abraçar crepúsculos, das ‘aventuras acauãs’, de fazer um ‘inventário dos amanheceres’, de todas as suas ‘lembranças tananãs’. Erguendo, verso a verso, sua ‘catedral dos entardeceres’, ‘depois da chuva, ‘depois das borboletas’, depois dos cajus’, ‘depois dos cajás’, guardando seus ‘poentes escandalosos’.

Sem Daillor Varela e, agora, sem Moacy Cirne, o que será de nós? Sem a cama de vento onde rangiam seus poemas sensuais? Viveremos no chão pobre dos versinhos de circunstâncias, esses que adornam nossas tertúlias. Se para Daillor a solidão é ‘a irmã mais íntima do homem’, ‘sangue e carne do mesmo medo’, para Moacy o poeta será sempre, na carne e na alma, um belo ‘fingidor de sonhos’. Entre a eclipse e a solidão. Caminhando na Praça da Liberdade, lá onde ‘Seu Clóvis vendia ilusões’.

 

DÚVIDA
Então, a julgar pelas do deputado Agnelo Alves, a ex-governadora Wilma de Faria agora tem certeza do que desconfiava: se for candidata ao governo não terá o apoio do PDT do prefeito Carlos Eduardo?

INCRÍVEL – I
A nota oficial sobre a feia devolução ao governo federal de recursos na área de segurança não é apenas o reconhecimento. Faz uma conta medíocre de juros bancários como se escondesse sua incompetência.

CONTA – II
De tão pífia a nota esqueceu que governo não é banco, muito menos na segurança, onde hoje bate seus recordes de violência. E o secretário Aldair da Rocha ainda é candidato a deputado, pode? Bom, basta.

ALIÁS – III
Mais patético, de tão ululante, é ouvir um secretário dizer que Natal é a cidade que mais luta por novos voos para a Copa. Ora, é óbvio, afinal, por descaso, foi o destino que mais perdeu nesses últimos anos.

MISSA
A família, amigos e admiradores de João Faustino estarão reunidos hoje na Catedral nova a partir das 19h na celebração da missa de sétimo dia. João era um católico de fé inabalável na sua formação cristã.

BRILHO
Marize Castro é citada pela poetisa Mariana Ianelli no ensaio escrito para o caderno Fim de semana do jornal Valor sobre o belo conjunto de tapetes ‘A Dama e o Unicórnio’ das Termas de Cluny, em Paris.

POLUIÇÃO
Do leitor Eduardo Onofre a coluna recebeu carta informando sua luta em defesa de uma providência da Prefeitura contra a poluição sonora e dos abusos mantidos pela impunidade. Eis a íntegra de sua carta:

 

Caro Sr. Vicente Serejo,

Sou leitor de sua coluna diária no JH, e já lhe enviei anteriormente e-mails, mas diferente das outras vezes, quando o objetivo do que escrevi na ocasião foi elogiar ou comentar algum dos seus inteligentes escritos diários, agora faço para, encarecidamente, lhe pedir um favor: aborde o descaso que nós cidadãos comuns residentes em Natal somos tratados em algumas situações pelo poder público municipal. Mais especificamente: poluição sonora.

Nessa época do ano em que as praias do RN são ocupadas por muitos veranistas, muito se fala sobre os famosos “paredões de som” e o barulho e desconforto por eles causados. Promete-se fiscalização e punições severas. Claro que isso é muito justo.

Mas, durante todo o ano, esse tipo de abuso é cometido na nossa cidade, e o poder público municipal através de sua secretaria competente (ou talvez melhor seja o termo incompetente) não é capaz de fazer valer a legislação municipal vigente que determina isolamento acústico em bares e restaurantes para que possam ter música nos seus ambientes.

Assim não se causa poluição sonora.

Já fiz denúncia pessoalmente na SEMURB (devidamente protocolada e com provas anexadas), enviei inúmeras reclamações através do e-mail da ouvidoria municipal, mas o descaso é total.

Imagine a tortura que é para um cidadão comum como eu, mas ainda assim merecedor da proteção das autoridades competentes, não poder dispor na sua residência da tranquilidade necessária à noite porque um bar em frente à sua residência se julga com o direito de dispor de música da pior qualidade possível, e mesmo se ruim não fosse, teria que respeitar o direito inalienável e sagrado do indivíduo ao sossego.

Imagine alguém que é leitor compulsivo como eu, querendo estudar ou ler na sala de minha casa, perturbado por barulho de bar que de forma evidente infringe a lei.

A leitura diária de sua coluna que tanto aprecio é feita acompanhada pela audição compulsória de um pagode inimaginável e indescritível como trilha sonora.

E isso com a conivência do poder público municipal quando nada faz para intervir.

Dias atrás o senhor falou sobre “reclamação ao bispo”. É o que me resta fazer, pois também tenho o costume diário de orar, ler textos bíblicos, enfrentando o mesmo incômodo.

Se a prefeitura municipal nada faz em relação à reclamação de um cidadão, talvez na Diocese eu seja ouvido, já que essa poluição sonora também atrapalha minha concentração durante minhas orações.

Agradeço sua atenção, ao mesmo tempo em que me desculpo por tomar seu tempo com esse tipo de assunto.

 

Eduardo Onofre (ejonofre@uol.com.br)

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