Livro de Junot Diaz, é perfeito para quem sofreu até descolar na adolescência

História do jovem desengonçado e sem talentos foi um dos melhores livros que li nos últimos anos

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Creio que tinha onze anos quando cometi meu primeiro sacrilégio sentimental. Estudava no Maristella, colégio administrado pelas irmãs Ivaneide e Iraneide. Como toda criança nessa faixa etária, ansiava pela adolescência. Enxerido ou não, eu estava nessa. Morria de amores por uma coleguinha de sala. D. era das meninas mais bonitas e conhecidas de Natal, neta de uma famosa cafetina dos anos 1980.

Certo dia, sem saber o que fazer, entrei na capela da escola com meu amigo Gustavo e resolvi suplicar por ajuda divina. Acreditava que O Onipresente empurraria aquela gatinha popular para os braços do boy convencional. Cai na besteira de contar o motivo da reza para meu amigo.

No outro dia, todos sabiam da história. Inclusive ela, que não tardou em me procurar durante o recreio. “Nem rezando, meu filho!”, virou até bordão humorístico na turma. Minha recuperação foi longa, sofrida e incompleta. O primeiro fora ninguém esquece.

Relembrei o episódio ao ler “A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao”, de Junot Diaz – prêmio Pulitzer de Ficção em 2008. Para quem conhece, estou aberto a comentários. Mas para quem o ignora, segue a dica: foi um dos melhores livros que li nos últimos anos. O drama de Oscar, jovem apaixonado por mulheres, ficção científica e literatura, e sua família, é sufocante.

Ele é um jovem desengonçado, não domina atividades esportivas, não tem talento para música, negócios, dança, nem malícia, papo, grana. Chame passa longe – usa óculos fundo de garrafa, um repulsivo bigodinho ralo e tem olhos pequenos e centralizados.

Ambientado entre Santo Domingo, na República Dominicana, terra natal do autor, e Nova Iorque e arredores, “A Fantástica Vida…” tem o seguinte enredo: Oscar está doido para transar pela primeira vez. A cada semana, seu coração é dominado por um novo amor. E timidez não é com ele. Dá em cima das gatas com tamanha intensidade que o reverso o deixa deprimido.

Isso em pleno Caribe, lugar sensual, onde “não se pode contar nem com energia elétrica, nem com a lei, mas com sexo, sim”. A mudança para os Estados Unidos renova esperanças. Porém, o filme se repete. Pior: assumindo o perfil nerd, passa os dias entre livros, sonhando em ser “o Tolkien dominicano”.

Enquanto Oscar vive desilusões amorosas, sua família é uma tragédia só. A mãe é uma órfã que descobriu a sensualidade nos tempos de colégio. Transou com metade de Santo Domingo até conhecer um gangster de meia-idade, marido da irmã do ditador Trujillo, e ter sua reputação destruída na cidade mais antiga do Novo Mundo. Lola, sua irmã, vira punk no Caribe, briga com a mãe e foge para a América.

Em latin, Senhor é domini, e cão, canis. Dominicanis. Junot Díaz emoldura a desgraça da vida de Oscar e família na pequena e atrasada República Dominicana, assolada pelo regime de Rafael Trujillo. Ao aceitar o apelido de Oscar Wilde, o “gordo gay” – na boca dos dominicanos semianalfabetos, Oscar Wao – após fantasiar-se para um baile, o protagonista define seu futuro.

Se Jorge Luis Borges escreveu que “Wilde foi o chefe dos estetas e dos decadentes”, Nietzschediz que “O homem é mais sensível ao desprezo que vem dos outros do que ao que vem de si mesmo”. O sonho de Oscar Wao em ser amante e escritor deparou-se com a barreira da decadência e do desprezo em que viveu.

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