Livro de resenhas de Borges é deleite para fãs de cinema e literatura

Considerava a sétima arte um enriquecimento incalculável para a vida

Conr6

Conrado Carlos

Editor de Cultura

No conto “O Outro”, Jorges Luis Borges é um senhor de setenta anos prostrado em um banco numa praça. Enquanto divaga sossegado, alguém senta na outra extremidade. Isso o incomoda, ele quer privacidade, mas reluta em se levantar de imediato. Seria indelicado, pensa. Resolve ficar. O espanto que os cinco minutos seguintes causarão em sua vida é o mote da história: ao seu lado está o próprio Borges com vinte anos de idade.

Da conversa entre o mesmo ser em idades díspares, surge o relato sob o velho tema borgeano do duplo, da reprodução da realidade. “Hay algo de terrible en la duplicación visual de la realidad”, sentenciava. Cego durante a segunda metade de sua vida, Borges, cujos textos não discriminavam ficção e não-ficção, acreditava que a narrativa está na cabeça do autor antes mesmo da escrita, e ao tomar forma, anula uma prefiguração existente.

Autor de contos e ensaios – abominava romances, considerava um disparate “espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos” – Borges encontrou no cinema ‘o outro’, o duplo de sua literatura. Considerava a sétima arte um enriquecimento incalculável para a vida, pois pretendia suprimir a apresentação direta de destinos e vontades – durante treze anos (1931-1945) foi colaborador da revista Sur com resenhas de filmes.

Parte dessa produção está reunida no livro “Borges em/e/sobre Cinema” (Iluminuras), organizado pelo também escritor argentino Eduardo Cozarinsky – lançado originalmente em 1974, recebeu ampliação em 2000. Preocupado com o crescente caráter utilitário da palavra, em detrimento da expressão poética, Borges enxergou nas imagens cinematográficas a renovação da escrita através de novo formato narrativo.

Dentre as resenhas destacadas, abundam curiosidades. Sobre “Luzes da Cidade”, do laureado Chaplin, diz: “…esse filme tão visitado do esplêndido inventor e protagonista de ‘Em Busca do Ouro’, não passa de uma lânguida antologia de pequenos percalços, impostos a uma história sentimental”. O cinema nacional também mereceu comentário ácido: “Los Muchachos de Antes no Usaban Gomina é, sem dúvida, um dos melhores filmes argentinos que já vi, o que equivale dizer, um dos piores do mundo”.

Fã declarado do austríaco Josef Von Sternberg, metralhou contra o ídolo após assitir sua adaptação de “Crime e Castigo”, de Dostoiévksi: “De um romance tão intenso, extraiu um filme nulo”. E para o flerte de Hitchcock com Josehp Conrad – o filme “O Marido era Culpado” foi inspirado no romance “O Agente Secreto”, sobrou: “Conrad nos dá a perfeita compreensão de um homem que causa a morte de uma criança. Hitchcock dedica sua arte a enternece-nos com essa morte. O emprenho do primeiro foi intelectual; a do segundo, apenas sentimental”.

Borges ganhou força como ícone literário através de editores franceses. Revistas como a Cahiers du Cinema e Positif frequentavam assiduamente sua obra para explicar metáforas de filmes franceses. Em “Borges em/e/sobre Cinema”, Cozarinsky expõe as ligações do autor com o cinema de Resnais, Robbe-Grillet, Rivette e Godard. Criticado por fazer arte desengajada, Borges era polemista de primeira, antes de viver na escuridão eterna.

“A Paris importa menos a arte do que a política da arte;veja a tradição de panelinhas de sua literatura e de sua pintura, sempre dirigidas por comitês e com seus dialetos políticos [...] para ser mais exato: interessam-lhes a economica da arte, não seus resultados”. Mário de andrade dizia que “a descrição literária não descreve coisa nenhuma, cada leitor cria pela imaginativa uma paisagem sua apenas servindo-se dos dados capitais que o escritor não esqueceu”.

Jorge Luis Borges viu na técnica do cinema o máximo na representação das palavras. Era, acima de tudo, um grande leitor do caótico arquivo dos atos humanos.

 

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