Livro sobre a Escola Agropecuária mescla biografia da instituição e relato de ex-aluno

Lançamento será na próxima quinta-feira, em Macaíba, dentro de uma programação alusiva ao Dia do Trabalhador

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Aos nove anos de idade, José Humberto da Silva queria ser vaqueiro. Um dos quatro filhos de um roceiro com uma bordadeira, ele observava a pequena propriedade e usava o lirismo infantil na reflexão sobre o futuro. Em meio a plantações de milho, feijão e algodão, alguns animais complementavam a renda de uma típica família de Taipu, aglomerado humano que, ainda em 2014, tem desenvolvimento ligeiramente melhor que o do Sudão, na África – é um dos vinte municípios mais pobres do Rio Grande do Norte. À medida que crescia, ouvia que um Eldorado educacional poderia transformar sua realidade financeira: a Escola Prática de Agricultura de Jundiaí, que desde 1949, ainda no governo José Varela, atraia jovens dos quatro cantos do Estado. Localizada a três quilômetros do centro de Macaíba, a instituição entregou seu primeiro diploma de técnico na área ao conterrâneo Paulo Miranda – aluno brilhante, futuro professor e autor de diversos livros que contribuíram para a agronomia nacional. Honrar com essa tradição era o mínimo que se esperava de Humberto.

Portanto, na próxima quinta-feira (01), Dia do Trabalhador e do ex-aluno da Escola Agrotécnica de Jundiaí (nome final, após uma sequência de reintitulações impostas pela incorporação à UFRN, em 1967; hoje é um órgão complementar da estrutura acadêmica da Universidade, em seu curso de Ciências Agrárias), o lançamento do livro Trajetória de Um Ex-Aluno da Escola Agrotécnica de Jundiaí será a conclusão de um périplo pessoal iniciado no instante em que o menino cruzou a porta de casa, onde termina o Sertão e começa a Zona da Mata, para virar homem. “Naquele tempo, a Escola despontava como uma das melhores do país. Os pais gostavam por que ela tinha um regime de disciplina muito bom, funcionando como um internato”. A rígida cartilha previa medidas disciplinares contra os que furavam fila na entrada do refeitório; pregava o silêncio na hora das refeições; vetava ir para a cama do vizinho, após o toque de recolher no dormitório. Homossexuais era excluídos da Escola. “A punição dependia da reincidência”, diz José Humberto.

O trabalho de feitura de Trajetória de Um Ex-Aluno…durou cerca de um ano. Fruto de conversas com ex-colegas de curso e da memória de um missionário do campo que, aos 69 anos, promove o segundo lançamento da obra na sede da própria Escola, às 08h30, dentro de uma programação comemorativa da data do ex-aluno – uma semana atrás, o livro foi apresentado ao público na Livraria Nobel. Entre os capítulos, destaque para o histórico, o corpo docente, funcionários, a chegada do autor em Jundiaí, o Centro Social Otávio Lamartine, a religiosidade e os líderes da escola. São 65 anos de educação voltada para a produção agrícola contados com base em poucos documentos oficiais, mas muita conversa e troca de informações. “Éramos meninos vindos do Interior, beradeiros, matutos. E ali criamos laços de amizade em que conhecíamos os colegas em todos os sentidos. Como só saíamos uma vez por semana, às vezes, a cada quinze dias, sabíamos nome completo de cada um, a profissão e também o nome dos pais. Hoje em dia isso é mais difícil”.

Produtividade potiguar

Com alto índice de empregabilidade, graduados na Escola Agrotécnica de Jundiaí estudavam sete anos para alimentar uma certeza escassa feito chuva no Nordeste. “Quem saia tinha emprego certo. Fazíamos três exames, um para a iniciação agrícola, outro, para mestria agrícola e o último para ser técnico. Isso nos dava um emprego razoável, com mais ou menos cinco salários mínimos, o que naquela época e ainda mais para vinha do interior, era muito”. José Humberto trabalhou na secretaria de Agricultura do governo Cortez Pereira (1971-1975) e virou professor de diversas disciplinas, como forragicultura, zootecnia, avicultura, cunicultura, da UFRN (por onde é aposentado). Mestre pela Universidade Federal de Viçosa (MG), ele critica a atual situação do agronegócio no Estado. “Atravessamos uma situação muito precária no setor primário. Tanto a agricultura, como a pecuária poderiam ser maiores, ter uma maior produtividade. O milho, por exemplo, se aqui produz 600 kg por hectare, no centro-Sul, isso chega a 10 mil quilos”.

Falta de vontade política, incompetência na gestão, dificuldade do sertanejo em utilizar a tecnologia seriam os entraves. “O político que vi ser bem intencionado com a agricultura foi Cortez Pereira. Ele teve ideias fabulosas. Algumas estão aí, como as vilas rurais e a produção de camarão, mas, no geral, não houve prosseguimento”. Em 1909, o então governador Alberto Maranhão comprou os 1259 hectares do Engenho Jundiaí para instalar um Campo de Demonstração Agrícola. Segundo José Humberto, foi o início do estudo das ciências agrárias no Rio Grande do Norte. No livro, a narrativa do surgimento da instituição começa desse ponto, para explorar a evolução curricular, até às turmas das cidades interioranas criadas pelos cerca de 170 alunos (por temporada). “Tínhamos como desenvolver muito mais. Esses projetos sociais [do Governo Federal] são um engodo. Os objetivos não foram atingidos e estão viciando o povo. Em Taipu tem um assentamento que é uma verdadeira calamidade. Lá só 2% dos assentados está produzindo, vivendo de créditos que não dão retorno algum”.

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