Lógica descartável

Sábado nasceu para a gente tomar cerveja gelada, perícia glacial dos bons garçons. Meus prediletos são Múcio, barítono desperdiçado e…

Sábado nasceu para a gente tomar cerveja gelada, perícia glacial dos bons garçons. Meus prediletos são Múcio, barítono desperdiçado e Marcão, caboclo de Vera Cruz, agreste e não México, conhecedor de europas, franças e oceanos enquanto serve picanhas conversando sobre futebol, música internacional e programa policial sanguinolento.

Hoje é dia de ficar em casa, costume adotado há alguns anos por opção pessoal e temperamental. Considero-me inapto a certos ambientes, pelo acúmulo de besteiras ouvidas e testemunhadas ao longo de 43 anos de vida.

Então dane-se a lógica no sábado. Invenção grega baseada na precisão e na supremacia como argumentos de triunfo.

No futebol, vale tanto quanto 122 reais em nota só. Os gregos tratam a bola com malvadeza, embora ainda sejam parâmetros de beleza, o que, no meu caso, é impensável.

Foram campeões europeus em 2004, surpreendendo o mundo ao derrotar os anfitriões portugueses. Treinados por Felipão, que se estrepou com sua exatidão – prima legítima da lógica -, tática e tomou uma aula em Lisboa.

Os gregos beberam o vinho fugaz da glória e despencaram ao lugar habitual do jeito que aliados estouraram os Canhões de Navarone, clássico de guerra com Gregory Peck e Anthony Quinn.

ABC e América voltam a campo pela Série B e – pela petulância lógica – não deveriam ter problemas para vencer seus adversários.

O ABC estará em Santa Cruz do Trairí, sob as bênçãos de Santa Rita de Cássia, recebendo o Boa Esporte, que lhe traz recordações agradáveis. Ultimamente, ter boa memória é quesito fundamental de abecedista.

O Boa Esporte é substituto nominal do Ituiutaba de Minas Gerais, do qual o ABC ganhou a decisão do Campeonato Brasileiro da Série C de 2010, com um time bem superior ao atual, mesmo com um técnico poliglota em retranca. Esta noite, com peças que mal formam uma caixinha de música, o ABC tentará se afinar.

O América, em paz consigo e com a torcida, eufórica pela boa campanha na Copa do Brasil e a perspectiva do título estadual na quarta-feira, enfrenta o Oeste de Itápolis (SP), fora de casa. O Oeste, vice-lanterna do Campeonato Paulista ganho pelo Ituano. Em tese, o América é troiano neste sábado. Nada de gregos.

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Futebol sem público

Gustavo Porpino

Jornalista

 

A Arena das Dunas ficou bonita, bem iluminada, tem gramado excelente e é muito confortável, mas precisa atrair o povo. Sem povo, não há futebol. Não existe futebol sem as massas que ocupavam as antigas arquibancadas e gerais. A bola pode até rolar, mas tratem de chamar de outra coisa. Futebol brasileiro mesmo precisa de calor humano, de charanga, bandeiras e papel picado.

Esse Brasil de estádios de primeiro mundo parece tentar elitizar o mais democrático dos esportes via aumento abusivo dos ingressos. Prática sem sentido que não resolve o problema da violência, nem cria um novo público para o futebol. Para a violência, mais educação de base. Para o futebol, mais marketing.

Sem o que temos de mais peculiar, o autêntico torcedor, os estádios perdem muito do seu charme. Das coisas mais emblemáticas que já vivenciei, foi assistir um jogo na antiga geral do Machadão, espaço que podia ser frequentado por quem ganhava salário mínimo. Ao povo hoje, resta ouvir pelo rádio. Retrocedemos.

O principal problema do baixo público, em alguns jogos da Arena das Dunas, não é a falta de interesse da população pelos clubes potiguares. Natal, diferentemente de Brasília, tem dois clubes na Série B e um clássico local que motiva os apaixonados por futebol. América e ABC são marcas centenárias e fortes localmente.

O que falta mesmo na Arena é um pouco mais de sensatez de quem define os preços dos ingressos. Se não, vejamos: América x Avaí, além do horário inconveniente das 21h no último sábado, definido pela CBF, tinha ingresso mais barato por R$ 50. Cobrar este valor, em qualquer capital brasileira, é demais. Em Natal, cidade com renda per capita em torno de R$ 1.200,00, tal valor ganha contornos surreais.

Para se ter uma ideia de como os gestores da Arena não gostam de povo, o clássico São Paulo x Botafogo, pela Série A do Brasileirão, teve ingressos a partir de R$ 10. Por que não destinar, ao menos, uns dois mil ingressos por trás dos gols a preços populares? A Arena só está fadada a ser elefante branco, coisa que os míopes têm mania de citar, se não houver criatividade e marketing bem feito por parte dos administradores. O velho Machadão, maior do que a Arena, não podia ser chamado de elefante branco.

Em termos de conforto e gramado, a Arena me pareceu superior ao Mané Garrincha. Dizem que o suprassumo mesmo é o estádio do Corinthians, erguido com mármore e granito em abundância. Mas aí é outra história, rica em tráfico de influência. As áreas de convivência da Arena têm acabamento muito bom, coisa que não vi em Brasília.

Para a própria presidenta Dilma, o estádio brasiliense é “uma construção simples”, o que é verdade, só faltou o GDF explicar o porquê de ter custado o equivalente a três Arenas das Dunas. Em Natal, preocupa-me a cobertura com estrutura metálica. Aquilo ali aguentará, ao longo dos anos, a ação da maresia? Segundo a diretoria da OAS, é um material resistente. Tomara.

Em Brasília, não encontraram solução ainda para a falta de povo, mas há um alento. O próximo jogo do Brasília, valendo uma vaga na Copa Sul Americana, terá ingressos a partir de R$ 1,00. O Flamengo joga vez por outra por lá, e entre uma pelada rubronegra e outra, o estádio permanece fechado. Como muitos brasilienses, por mais que neguem, tendem a ser cariocas frustrados, motivá-los a torcer pelos times de lá não é tarefa das mais simples. Passa por mudança cultural e, obviamente, fortalecimento do incipiente futebol candango.

Para Natal, a solução mais simples é devolver aquele pedaço de chão onde se ergueu a Arena a quem gosta de futebol. Sem a gente simples de outrora, por mais impactante que seja a vitória, o jogo fica sem graça. Os fogos e o papel picado já não têm mais lugar. Sem o calor e as vozes da massa, então, melhor ficar em casa vendo pela TV.

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