Loja em Petrópolis lança mais de 100 rótulos variados de cerveja

Estabelecimento acumula, em sua 1ª semana de funcionamento, elogios de clientes de outros Estados, por ser focada em raridades

Cervejas-HD

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Inaugurada na última sexta-feira (07), a Eufrates – Cervejas Especiais é o Jardim do Éden para os amantes da bebida inventada por mesopotâmios, seis séculos antes de Cristo. Localizada na avenida Campos Sales 500, próxima ao restaurante Âncora Caipira, a loja abriu com mais de 100 rótulos diferentes, de algumas das principais marcas do mundo. Clássicos como a belga Deus e a escocesa Brewdog Punk IPA estampam gôndolas, cujos preços registram uma faixa entre R$10,00 e R$200,00. Na tarde de ontem, estive com o proprietário Diego Salem, cervejeiro que exala sua paixão nos primeiros segundos de conversa, para saber um pouco mais do estabelecimento pioneiro em Natal, voltado para consumidores que entendem o conceito de ‘beba melhor’.

Da simpatia do ambiente à variedade de produtos, a Eufrates impressiona. Nascida da paixão de seu dono, que é categórico ao afirmar que a loja “É de um amante da cerveja”, ela acumula, em sua primeira semana de funcionamento, elogios de clientes de outros Estados, muito por ser focada em raridades. “Sou comerciante, gosto de negociar, ligar para um e para outro, trabalhar. Aqui em Natal existe muito amante de cerveja, que agora tem um espaço para ele, feito por um apaixonado. Não tem um dia que eu não leia nada sobre cerveja”, confessa o publicitário, também dono de uma revendedora de celulares. Curioso é que até 2004, Diego era quase um abstêmio – apesar de dificilmente ultrapassar cinco garrafinhas.

“Eu tinha 22, 23 anos, quando comecei a beber. Mas não entendia como as pessoas tomavam sempre a mesma cerveja, se existe uma infinidade delas”. Até que o paulista de 36 anos, natural de Ribeirão Preto, porém ‘naturalizado’ natalense desde o primeiro ano de vida, virou um beer hunter (caçador de cerveja). “Não tenho minha cerveja predileta. Quero sempre provar uma nova, e descobrir uma novidade não tem coisa melhor”. Para tanto, cursos, leituras e viagens ao exterior o credenciaram como um dos especialistas no assunto, por estas bandas. Até que surgiu a oportunidade de montar um quiosque no supermercado Nordestão. Durante um ano e dois meses, foi ali que ensaiou o fomento de uma cultura cervejeira na capital potiguar.

“Ali eu vi que existem dois tipos de clientes: os que eram carentes por um lugar como o Eufrates e os que não sabem que existe essa quantidade toda de opções”. Diego sabe que as cervejas super-Premium, gourmet, ou como você queira chamar, tem um vasto território para percorrer. O Brasil é o quarto maior mercado de cervejas do mundo em volume, e as especiais representam entre 2% e 5%. Na última década, as pessoas provaram o melhor do que é feito em países com grande tradição na bebida, casos de Alemanha, Holanda, Bélgica e Estados Unidos. A comparação com as ‘populares’ foi inevitável – viram que, para ultrapassar alguns decibéis do aceitável, bastava tomar quatro ou cinco garrafinhas de uma mais encorpada, em vez das dez, doze corriqueiras.

“A Eufrates não é um bar, não tem garçom, mas quem quiser tomar uma cerveja, pode vir. Temos um mesão típico das tavernas e duas mesas lá fora”. Aberta todos os dias a partir das 10 horas (segundas, terças e quartas-feiras fecha às 21 horas; quintas, sextas e sábados, às 22 horas; e aos domingos, às 13 horas), a casa receberá mais 50 rótulos nos próximos quinze dias. “Trabalhamos com algumas metas. Uma é ter 300 rótulos até agosto. Outra, é fechar 2014 com 400″, garante Diego, que pretende vender as boas nacionais, ainda ausentes em seu estoque. “São caras” – como em vários segmentos da economia, dificuldades tributárias, produtivas e de distribuição encarecem o produto brasileiro, mesmo que, hoje, seja reconhecido no exterior como um polo produtor de cerveja qualificada.

Cultura cervejeira

Faz três anos que, no Rio Grande do Norte, existe uma seção da Associação de Cervejeiros Artesanais (Acerva) com quase 40 filiados. Gente que aprendeu a misturar água, lúpulo, malte, cevada, levedura, centeio, trigo e aveia na medida certa, a ponto de criar uma bebida saborosa. Isso mostra que existe uma turma interessada nessa cultura que, em países europeus e norte-americanos, permeia um fragmento significativo da população – como interpretar a cultura belga ou tcheca sem entender a relação que eles possuem com a cerveja?

E no Brasil, onde a ideia de beber uma ‘loira gelada’ é sinônimo de quantidade, de encharcar a corrente sanguínea por um dia inteiro, com consequências nem sempre agradáveis para o estômago e para a moral, o mercado dominado por marcas tradicionais, que patrocinam carnavais e dominam bares e restaurantes, tem como ceder espaço para pessoas que trocam vinte reais em uma garrafa de vinho por uma de cerveja feita com o mesmo cuidado e teor alcoólico semelhante.

Como a La Trappe Jubilaris (750 ml), que custa R$79,90 na Eufrates e vem de uma tradição ligada a um mosteiro trapista holandês – trapistas são monges que vivem em silêncio quase absoluto, em vilarejos afastados dos grandes centros, com forte ligação com a agricultura. “Não existe a melhor cerveja do mundo, mas, sim o gosto individual, se você prefere uma mais amarga, ou mais suave, com aromas de café, torrada. E depende do momento. Algumas eu não bebo de dia, mas à noite me dou muito bem”, alerta Diego.

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