Lojas do entorno do Arena das Dunas esperam por dias melhores

Comerciantes amargam prejuízos desde início das obras

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Marcelo Hollanda

hollandajornalista@gmail.com

O viaduto estaiado que está sendo construído no entorno do Arena das Dunas pode até contribuir no futuro para desafogar o trânsito na região, mas devastou o comércio nos arredores.

Da clínica ortopédica às lojinhas do pequeno centro comercial, o movimento e o faturamento sofreram reduções drásticas. Na proporção de 10 caiu entre cinco a sete pontos. E o maior problema agora é saber se compensará manter pontos comerciais ao lado de uma obra de acessibilidade que privilegiará mais os carros do que as pessoas.

Depois de publicar em sua edição de ontem o drama vivido por uma grande empresa – a Nacional Veículos, concessionária Volkswagen – que viu suas vendas desabarem 70% – O JORNAL DE HOJE percorreu na manhã desta quinta-feira os demais estabelecimentos do entorno, conversou com os funcionários e o que encontrou foram expressões abatidas e conformadas.

Desde que as obras começaram em outubro do ano passado com a promessa de não durarem mais de quatro ou cinco meses, aos poucos foi se vendo o desenrolar de um projeto bem mais complexo, repleto de problemas de engenharia que, desde o princípio, são mal comunicados ao público.

“Aqui ninguém sabe de nada, as coisas vão acontecendo sem que se prepare para o que vem”, diz a funcionária da farmácia que pede para não ter seu nome e do estabelecimento publicados. “Desde que tudo começou os clientes desapareceram, mas a empresa preferiu por remanejar a demitir pessoal”, explica.

É o que acontece também na clínica ortopédica. Por lá, se reduziu um de seus três turnos, que recebiam no passado uma média de 50 pessoas por período e hoje esse número não passa das 20, quando muito. “É muita dificuldade para entrar cadeirantes e para estacionar um carro com um paciente com problemas de locomoção”, diz a atendente.

Um dos pontos que também sofreu foi a oficina de funilaria e lava-rápido que imediatamente perdeu quase todos os clientes da segunda atividade. A razão disso está a poucos metros de distância, na pequena nesga de asfalto onde os carros estão permitidos trafegar, mas onde a lama da construção prosperou. “Não dá nem pra sair com o carro limpo daqui para lama respingar em tudo”, diz o funcionário.

No posto de gasolina, de quatro caminhões tanque por semana para realizar o abastecimento de combustíveis, apenas um permanece, quando há necessidade. Dos nove frentistas que davam expediente por período (quatro de manhã, três de tarde e dois noite) hoje há apenas cinco: dois de manhã, dois de tarde e um a noite.

Mesmo negócios consagrados, como o Pittisburg, que mantém uma franquia com 11 lojas em Natal, viu a franquia da matriz, que fica na Prudente de Moraes, bem na saída do túnel que está sendo construído, viu o lucro de sua loja matriz ir pelo ralo nos últimos meses.

“O cliente de impulso, aquele que passa pela loja e resolve entrar, esse desapareceu”, admite o dono da franquia, Kléber Carvalho.

Ele agora diz esperar o término das obras para decidir de irá ou não se manter no mesmo ponto, onde também funciona a administração e suprimentos num prédio contíguo. Uma das salvações da marca local foi ter uma delivery forte de onde vem 50% de seu faturamento. A outra foi a própria marca ter virado uma franquia, que vai muito bem. “Do contrário, as consequências seriam muito piores”, diz Kleber.

Mesmo assim, o empresário está literalmente pagando para ver. “Tenho 170 funcionários cujas famílias dependem de mim. E pelo menos na loja matriz nosso lucro que é de 15%, pagando todas as despesas fixas e variáveis, virou poeira com essas obras”, acrescenta.

No fim do mês passado, o secretário municipal de Obras Públicas e Infraestrutura de Natal, Tomaz Neto, assegurou que boa parte das obras de mobilidade no entorno da Arena das Dunas estará pronta até o início da Copa do Mundo, dia 12 de junho. Só ficarão para depois o viaduto da BR 101, as calçadas das principais avenidas que levam até o estádio do mundial e o projeto paisagístico do entorno.

O prazo para a liberação do trânsito nos demais equipamentos urbanísticos da região (viaduto estaiado da Avenida Prudente de Morais, duas passarelas pré-moldadas e seis túneis) é 30 de maio. E mesmo depois da entrega, a Prefeitura ainda terá esse período para fazer pintura, limpeza dos espaços e retoques necessários, porque Natal sediará o primeiro jogo da Copa no dia 13, com o jogo México x Camarões.

Durante os jogos, porém, as coisas ficarão piores, pois ninguém poderá acessar o estádio de carro, uma vez que em eventos da Fifa o trânsito de veículos é paralisado num raio de 2 quilômetros da Arena.

Questionado sobre o atraso do viaduto da BR-101, Tomaz Neto não poupou ninguém. “Foi culpa do Dnit, do DER e da Prefeitura”, classificou. Segundo ele, o atraso ocorreu em função da discussão do projeto entre os órgãos das três esferas de governo.

Hoje, os funcionários dos estabelecimentos comerciais localizados no entorno do estádio – os poucos que têm automóveis – queriam saber onde poderão deixar seus veículos para trabalhar, já que para eles será em parte um dia normal de expediente. Quem não tem carro já se acostumou a andar pelo menos de três a quatro quarteirões para entrar no serviço do ponto em que desceram do ônibus mais próximo.

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