Lua de champanhe
Não sei se fica mais bem posto citar Ortega Y Gasset para dizer que o homem é um ser cultural e por isso não tem natureza, tem história. Ficaria mais charmoso. Se bem que o velho gênio de Espanha ande démodé nesses tempos modernos das redes sociais. Talvez ficasse melhor algo de novo. Naquele sentido das novas teorias da autobiografia quando ensinam ser do homem o desejo de narrar-se. Ou, talvez, não. Dizem que quem conta sua própria história apenas quer exibir o triunfo pessoal.
Confesso Senhor Redator: não é o caso das minhas saudades. Aqui é como se a vida renascesse daqueles versos de Roque Ferreira, um baiano que gosta de compor requintadas canções de amor para Maria Bethânia. Naquele tempo as noites mornas de verão, também eram feitas de um bar, uma lua de champanhe no mar e uma canção de Caymmi a tocar. E como num poema, essa saudade de ter sido assim, como se o mundo nos invejasse diante de uma alegria de viver que parecia não acabar nunca.
Mas o tempo foi passando. Alguns tinham pressa e partiram mais cedo, ainda cheios de vida e juventude, antes que as tristezas fizessem ninhos da alma. Outros demoraram, vincados de amargura e medo, e há os que ainda andam por aqui, convencidos, como na canção triste, que um dia Casablanca ainda vai passar. Persigo os versos, avivando o sangue de cada palavra, como se biografassem a vida. O que é uma biografia senão a história que cada um carrega nos ombros como uma roupa no cabide?
Junto os versos do poema, fecho nas mãos e cubro a pele do rosto. Agora são meus. É como se pertencessem a mim. Para sempre. Contam minha história que pode não ter graça, não nego, mas são a minha história. Vivida num pedaço de mar, com uma lua de champanhe no mar e uma canção de Caymmi a tocar. Cada um sabe morrer e renascer nas suas próprias saudades. Esconder na carne as suas tristezas e depois buscá-las nas gavetas da alma como se dormissem numa cômoda de família.
Como em Proust, é a memória que salva. A vida seria insuportável se fosse feita apenas dos dias novos. Da contemporaneidade sempre igual, tediosa e entediante, sem pertencimento ao ontem, de dias e noites intensos como a vida. A história das nossas saudades, se narradas mansamente, é a nossa melhor história, a mais verdadeira. Não exclui as amargas, como queria Álvaro Moreyra, mas refaz o caminho do monsieur, na sua bela epígrafe, quando vai buscar na fonte a água cheia de imagens.
Há tardes assim, Senhor Redator. Chegam fazendo em nós uma terrível contabilidade de todas as coisas perdidas. Principalmente das coisas mais simples que sequer guardávamos em nós mesmos. Coisas que não tinham valor, de tão íntimas. Mas há tardes que chegam assim, para avisar que é tempo de voltar. Não para refazer os caminhos. Nem para revivê-los. Os caminhos desaparecem quando a gente passa. Como um bar, uma lua de champanhe sobre o mar, uma canção de Caymmi a tocar…
QUANDO? – I
Afinal, quando é que o governo fala a verdade: ao anunciar aos tribunais superiores que vai contestar a legalidade dos planos de cargos e salários ou ao dizer que deseja conciliar com funcionários estaduais?
QUAL? – II
Ainda: qual é o governo que deseja sentar à mesa com o Ministério Público e o Poder Judiciário: o que mandou ao plenário nove vetos aos orçamentos ou o que sofreu pedido de prisão de dois secretários?
VOZ – III
O governo precisa mostrar à opinião pública sua voz e dizer se é a única. Antes que sua retórica acabe virando um ruído confuso e contraditório. Como deve ter sido o alarido de quando enfrentou Lampião.
ANOTEM
As categorias que conquistaram seus planos de cargos e salários não aceitam abrir mão das conquistas. O que ainda falta pode ser escalonado, mas o conquistado é intocável. Os advogados estão avisados.
TAMBÉM
Os magistrados, procuradores, conselheiros e parlamentares não abrem mão da Parcela Autônoma, mesmo que tenha sido garantidas sem decisão judicial. Alguns até aceitariam negociar o valor total.
BRILHO
O advogado João Hélder Cavalcanti, que defendeu os funcionários contra o governo por não pagar os planos de salários, vai à Costa Rica só assistir a posse de um amigo na Corte Internacional de Justiça.
VERÃO
Do caderno de anotações do poeta Diógenes da Cunha um verso do poeta paraibano Iaponan Sobral que explica o que é o verão a quem ainda não sabe: ‘Verão não é mais do que o aumentativo de ver’.
GOVERNO
Um petista, desses empedernidos, escreve a esta coluna para dizer que a deputada Fátima Bezerra pode ser candidata ao governo ou ao Senado. E ainda observou, humilde: ‘Quem duvidar vai ter um susto’.
BELLE – I
Clóris Lopes Cardoso e o irmão Erasmo Xavier, mãe e tio da jornalista Rejane Cardoso, são destaques na matéria de Gladis Vivani, na revista Glan, sobre a belle époque em Natal. A moda nos anos vinte.
DETALHE – II
A matéria mostra as ilustrações de Erasmo Xavier na revista Cigarra com a reprodução de sua capa em vermelho mostrando a história da cidade das caravelas aos aviões nas grandes travessias do Atlântico.
CLÁSSICO
O Brasil ganhou em 2012 edições definitivas, pela Zahar, de três grandes clássicos: Alice no País das Maravilhas, 20 Mil Léguas Submarinas e Peter Pan. Edições encadernadas com ilustrações originais.
PINÓQUIO
Em 2011 a CosaNaify lançou a edição definitiva e sem cortes de As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi. Com a tradução de Ivo Barroso, as ilustrações de Alex Cerveny e o posfácio de ítalo Calvino.
DESEJO
Ainda não apagou o desejo do PMDB de ter Elias Fernandes para a Secretaria de Recursos Hídricos. O resmungo do senador e ministro Garibaldi Filho só será ouvido depois de 2013, um ano sem eleições.
POESIA
De Octavio Paz versos do livro infantil ‘O Ramo, o Vento’, tradução de Horácio Costa e ilustrações de Tetsuo Kitora, edição Autêntica, S. Paulo: ‘Nuvens e nuvens flutuam, / adormecidas algas do mar’.


