Lulus querem detalhes

O telefone da senhora de 69 anos tocou umas dez vezes na tarde desta terça-feira. Era sua antiga nora furiosa…

Campaign for Real Beauty

O telefone da senhora de 69 anos tocou umas dez vezes na tarde desta terça-feira. Era sua antiga nora furiosa com um comentário feito por alguma anônima no perfil do ex-marido no aplicativo Lulu, mais uma dessas invenções bestas para a mulherada perder tempo com futilidade virtual. Disseram que ele tem “uma ex louca”. A confusão se estendeu até um bate boca entre os envolvidos e virou mais uma pendenga familiar. Vendo a dor de cabeça que a idiotice gerou, aumenta minha certeza de que acerto ao evitar o Facebook ou qualquer rede social. Perco poder de comunicação, mas ganho uma tranquilidade zen-budista.

O aplicativo Lulu foi feito para aquelas mulheres vazias, que passam horas conversando sobre ‘ficantes’, ‘rolos’, ‘PA’s’ (se não sabe o significado, pergunte às mais jovens) e querem trocar figurinhas, saber como é o cara na cama, se ele é cabeça quente, se tem algo desabonador no passado. Se isso fosse em reuniões íntimas ou numa mesa de bar, tudo bem (de vez em quando, nós também gostamos). Só que a avaliação dos mancebos é feita dentro de um vasto universo virtual, sem que as autoras dos comentários sejam identificadas.  Criado por uma americana de 32 anos, ele ganhou uma versão em português no último dia 20.

Desde então, mais de cinco milhões (isso mesmo!) de downloads foram registrados no Brasil, pois, segundo a diretora de marketing, as brasileiras são early adopters (aderem cedo a novidades), gostam de redes sociais e vida noturna. “Ambiente propício para qualquer porcaria prosperar”, foi o que entendi na fala da gringa. Ela disse que tem gente que acessa nove vezes por dia, números que nos deixam em vantagem em relação aos Estados Unidos. A ideia surgiu em um encontro entre amigas, depois do dia dos namorados (comemorado em 14 de fevereiro nos EUA). A inventora percebeu que falar em macho alterava o tom da conversa.

O Lulu funciona sem o conhecimento do sujeito, com dados puxados do Facebook. Botam o cara dentro de um esquema malicioso, feito para destruir reputações, a começar pela avaliação escondida e a impossibilidade de defesa – o máximo que o coitado pode fazer é mudar a foto e escolher meia dúzia de frases enlatadas para definir seu perfil. Fora isso, estará sujeito a perguntas trocadas entre moçoilas ociosas sobre humor, bons modos, ambição, comprometimento, aparência e todo tipo de características. Parte dos comentários, feitos em forma de hashtags, fazem referência ao desempenho sexual. Algumas chegam a ser ofensivas, como #Arrotaepeida e #MaisBaratoquePãocomOvo.

Os perfis variam de Os mais gatos, Os mais engraçados, Bombando no Lulu, Aqui por perto. Mulheres avaliam amigos, paqueras, vizinhos, galanteadores baratos, ex-namorados, ex-maridos, ex-tudo. Só usa quem tem smartphones da Apple ou o sistema operacional Android. É preciso ter conta no Facebook. No final da enquete produtiva, o aplicativo dá uma nota para o condenado. A dona da ferramenta diz ter pensado em dar poder às mulheres para tomarem decisões inteligentes em relação aos homens. Onde isso vai parar, ninguém sabe. Parece gritaria de misógino, mas muita mulher tem subaproveitado a tal conquista da liberdade.

Saber tantos detalhes de um futuro parceiro, ou ter medo de cruzar com alguém errado, antes mesmo de trocar meia hora de prosa tête à tête, de experimentar por conta própria, é como ouvir o final de um livro ou filme através daquele amigo vacilão. Homem virou item de catálogo, como cortesã de luxo. A mulher abre numa página qualquer e identifica o alvo. “Amigas, alguém já provou esse daqui?”, “Sim, mulher, não vale o peido de um gato”. “Ah, é que nos conhecemos ontem numa balada e batemos um papo ótimo. Ele me chamou para um cineminha hoje”. “Ih, menina, vi aqui que Dominadora34 detestou o cheiro da colônia antiquada dele”. Parece homem quando vai comprar um carro. “Consome muito? Faz quanto com um litro?”, “Quanto é o seguro?”, “E o pós-venda?”. Nos dias atuais, só cosméticos, calçados e vestuário merecem o olhar feminino indiscriminado.

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    • Noel Bustorff

      Caro Conrado, estreando no seu blog. Parabéns pela matéria que bem sintetiza as futilidades do mundo virtual.