Macaquitos

O grau de rivalidade beirava o ridículo da indignação resumida na manchete da Revista Placar sobre o jogo: “Respeito é…

O grau de rivalidade beirava o ridículo da indignação resumida na manchete da Revista Placar sobre o jogo: “Respeito é bom e o Brasil gosta!”. É, com a exclamação imprudente e opinativa. A seleção brasileira, bem desfalcada, havia empatado contra a Argentina,  campeã mundial de 1978 e previamente autoproclamada vencedora do Mundialito em comemoração  aos 50 anos da primeira Copa do Mundo.

O Mundialito foi organizado pelo governo uruguaio sob forte rejeição popular. Era uma Ditadura, a exemplo de toda a América do Sul e buscava no futebol o alucinógeno para as mazelas dos porões de torturas e assassinatos. A Fifa, presidida por João Havelange, que gosta tanto de poder quanto os gaúchos de churrasco, deu seu aval e foi parceira ativa do torneio que reuniria seis campeões mundiais.

A Inglaterra rejeitou o convite. Sua seleção estava sendo remontada após ter ficado fora das duas Copas anteriores e também porque alguns jogadores, liderados pelo talentoso Kevin Keegan, se recusaram a participar do que chamaram de farsa.

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No lugar da Inglaterra veio a Holanda, nem de longe o esquadrão de 1974 de Cruijff ou o esforçado time vice-campeão de 1978. A Holanda era  lembrança dentro do uniforme. Ficou no grupo mais fácil, próprio para os donos da casa. Uruguai e uma Itália entediada completavam a chave A. Só o primeiro colocado passava para disputar a decisão.

Os precipitados de todos os continentes apostavam: quem estivesse na finalíssima do Mundialito certamente seria um dos integrantes do confronto decisivo da Copa do Mundo do ano seguinte, na Espanha.

Se o grupo A ficou uma barbada, com o Uruguai se classificando sem problemas no Estádio Centenário, palco da Copa de 1930, o outro triangular reuniu três potências: Brasil, Argentina e Alemanha Ocidental, sempre candidatos a qualquer caneco em qualquer disputa.

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O Brasil viajou desfalcado. De três peças fundamentais para o técnico Telê Santana, naquela época.  O meio-campo ficou sem Zico, machucado e Falcão, jogando o Campeonato Italiano pela Roma que não era feita por ingênuos e nem cogitou a possibilidade de dispensá-lo. O centroavante Reinaldo, do Atlético(MG), era o titular e também estava contundido. Sócrates foi deslocado para o ataque.

A Alemanha Ocidental e sua transpiração gelada impunham medo. Eram campeões europeus e contavam, no auge da forma, com o goleiro Shumacher, os meias Hansi Muller e Magath e com os atacantes Rummenigge e Allofs.

Completa veio a Argentina, com o time inteiro e a barba por fazer, sinal de desleixo e desdém. Os campeões de 1978 e Diego Maradona, àquela altura considerado um espetáculo de jogador, camisa 10 do Boca Júniors e prestes a ser vendido ao Barcelona da Espanha.

Pelos nossos isentos jornais, sabíamos o que os Hermanos pensavam sobre o Mundialito. “Queremos los Macaquitos!”. Macaquitos são os brasileiros, eternos bajuladores dos norte-americanos, segundo os portenhos,  Eles têm certa razão, mas a força da provocação recrudesceu nas vitórias humilhantes comandadas por um negro: Pelé. Chamar negro de macaco é comum por lá.

Os argentinos estrearam contra os alemães e venceram, de virada. Por 2×1. Estufaram(mais ainda) a caixa torácica e decidiram que sairiam para a final por antecipação. O jogo seguinte seria contra o Brasil e, em caso de vitória, a Argentina transformaria o confronto entre brasileiros e alemães em amistoso de luxo. Maior humilhação, somente na derrota de 1950 ou na eliminação de 1966, logo na primeira fase.

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Maradona foi um ídolo assombroso de tão hábil e magistral com a bola. Fazia o que queria, seu domínio paralisava, seus dribles deixavam marcadores e espectadores tontos, seus toques vinham do longe do imprevisível. Gênio, sem dúvida. Arrogante, tanto ou mais.

Faltava a Dieguito, idolatrado em seu país que é habitado por passionais, carisma, simplicidade, afeto com os fãs. Diego não fascinava as crianças, a não ser compatriotas. “Farei uma exibição para a história, sou o melhor e provarei contra o Brasil. Vou estraçalhar com os macaquitos.”

Cada declaração do camisa 10 portenho, repetida em todos os telejornais da Rede Globo, revoltava a meninada. Tinha 10 anos e vi colegas dispostos a enfrentar Maradona com baladeiras abastecidas de cacos de vidro. Iriam em algum navio, mas a raiva os faria chegar nadando a Montevidéu.

A patota foi reunida na casa de minha avó. Refrigerante, pipoca e bolo da moça ou da descabaçada, não foi feito o exame para se ter certeza. Maradona espantou Dona Maria do Carmo. Pelo repertório variado de palavrões a ele destinado por todos. Maradona começou fulminante e disposto a desmoralizar o time de Telê Santana.

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A Argentina não derrotava o  Brasil desde  1970, quando ajudou  João Saldanha a perder o cargo de técnico vencendo de 2×0 no Beira-Rio.

Maradona parecia ungido a quebrar a escrita  partindo célere pela direita, driblando  Batista e enganando o zagueiro Oscar.Seu chute rasteiro entrou no canto do goleiro Carlos, que saiu contundido.

Maradona comemorou o 1×0 saltando, ofendendo os câmeras e batendo no escudo da Associação de Futebol Argentino(AFA), como se dissesse o que ainda hoje repete: “Quero ser Pelé.” O Brasil se refez aos poucos.

Júnior e Sócrates comandaram as ações. Júnior bateu uma falta pela esquerda, subiram atacantes e zagueiros e a bola sobrou para um então desconhecido lateral-direito do Fluminense.

Edevaldo, apelidado de Cavalo, bateu  forte, cruzado e à meia-altura. Fillol não viu ou fez que não viu a bola estufar a rede. Festa. Tomei três guaranás enquanto xingava Maradona, o quarto melhor do mundo afinal, muito depois de Pelé e bem atrás de Garrincha . Messi é o terceiro. O Brasil ainda teve um gol de Sócrates anulado. Terminou 1×1 com Maradona dizendo que os alemães e brasileiros “muito fracos”, ficariam no empate e a Argentina passaria à decisão.

Maradona voltou para Buenos Aires debaixo de vaias.  Brasil deu show e venceu a Alemanha por 4×1.  Perdeu a final para os uruguaios. Seria  demais o título com o atleticano João Leite debaixo da trave  tomando gol na pequena área. Mesmo placar de 1950: 2×1.

Uruguai não foi à Copa de 1982,  Argentina tomou baile do Brasil que foi eliminado pela Itália, campeã derrotando a Alemanha. Fica a imagem de 4 de janeiro de 1981, Maradona embananado por macaquitos.

 

 

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