Madiba

Nelson Mandela ocupava de pé, sorridente e invisível, a tribuna do Soccer City. Madiba estava em cada clarão do estádio…

Nelson Mandela ocupava de pé, sorridente e invisível, a tribuna do Soccer City. Madiba estava em cada clarão do estádio quase sempre vazio desde a Copa de 2010 e de um ar melancólico de funeral. Lá, foi velado o corpo do homem que passou 27 anos dentro da cela 466 da prisão Robben Island.

No adeus a Madiba, o Soccer City lotou chorando. Nos seus dias banais, é casa de shows, abre para casamentos, partidas de futebol raras e sem o poder de seduzir o povo. O penúltimo evento levou 27 mil pessoas, pouca gente para um artista do nível do guitarrista Carlos Santana.

Na África do Sul, onde o Brasil de Rafinha e Fernandinho jogou, é insuperável o apartheid com o rúgbi, esporte predileto. No amistoso entre a seleção que sediou a última e a que vai receber a próxima Copa do Mundo, fizeram de tudo para superlotar o Elefante Branco, assim batizado o palco da final de 2010.

O preço do ingresso mais caro ficou em 44 reais, quase a metade do cobrado em Natal para se assistir a um épico entre ABC (ou América) versus Palmeira (no singular). Como no estalar de dedo transcendental do líder, as pessoas foram entrando, portões libertos como se fossem trancas de cárceres escancaradas para os adoradores de quem viveu pela resistência e a igualdade. Público admirável de 50 mil pessoas.

Quanto ao volante Fernandinho, idolatrado por suas atuações no Manchester City da Inglaterra, faltou adversário para testá-lo. Fernandinho é um marcador. Persegue dribladores, meias ofensivos, toma a bola deles para iniciar contra-ataques.

Fernandinho normal, sem lampejos, seria um ótimo astro de comercial de tênis da Nike, fornecedora oficial da CBF. Calçado para fundista, para corredor de marchas de fôlego. Ele correndo atrás de um leão pelo deserto da áfrica e recuperando um caçador prestes a ser devorado. Fernandinho, no filme, consegue domar o leão.

Detalhe: o leão indaga onde por andam o drible e a habilidade no meio-campo brasileiro e Fernandinho manda perguntar no Posto Ipiranga. Fernandinho irá a Copa.

O chutaço, no ângulo, de fora da área e sem chances para o frangueiro africano garantiu-lhe a vaga. Golaço distante de suas características defensivas. É o novo Kléberson de Felipão. Kléberson conseguiu a proeza de agradar a Felipão em 2002 e a Dunga em 2010.

>>>>>>>>

O outro convocado para observação, o lateral-direito Rafinha, joga no Bayern de Munique, potência mundial. Time treinado por Pep Guardiola. O Bayern, no ano passado, destruiu o Barcelona em dois jogos pela Champions League.

Rafinha, especialmente no primeiro tempo, sem ter a quem marcar, esteve tímido, não arriscou o ataque, até na hora do hino faltou-lhe a vibração tão apreciada pelos ufanistas que comparam jogadores com pracinhas da Segunda Guerra Mundial. Rafinha jogou o suficiente para mostrar que, por justiça, o lugar é do veterano Maicon, mais personalidade, agressividade.

Os 23 da Copa estão definidos. A entrada de Daniel Alves na lateral-esquerda mostrou que o técnico abrirá mão de um reserva para Marcelo em nome de mais alguém para o ataque. Maxwell não rendeu o esperado pelo otimista documentado.

É Fred entrando no ritmo, mas ainda sem a confiança exigida. O principal goleador ainda sente os efeitos da grave contusão. Resta saber quem será o felizardo. Se o escolhido for Robinho, pela terceiro mundial consecutivo, pedaladas e rebolados capazes de convencer até Felipão, o teimoso dos turrões.

As tentativas de tabelinhas de Jô, o teórico substituto de Fred, foram aterrorizantes. Vestindo azul, suas batidas na bola atraíram mais os frágeis vestidos de branco. Jô deu calafrios em quem o imaginou em um jogo decisivo, o que já aconteceu pelo Atlético Mineiro.

O Brasil pode ficar feliz pelos obrigatórios 5×0 num time nivelado ao Penapolense de São Paulo. Importante de verdade, a chance de compartilhar a festa pelos 20 anos do fim da segregação racial na África do Sul, crueldade assistida pela apatia do mundo e vencida pela luta tenaz de Mandela, Madiba, Invictus.

 

Frasqueirão

O fundamental nesta quinta-feira para o torcedor do ABC nem é o time. É o reencontro com o Frasqueirão, seu aconchego e sua casa própria. Agradável e esquisito é o paradoxo. Legal porque na Rota do Sol, o alvinegro conhece cada pedaço de chão e a torcida joga com ele. Estranho é que o time não é o mais importante, não é atração.

Sem errar

O internato durante o carnaval, com treinos, avaliações e reavaliações, se resume a uma verdade inflexível: o ABC excedeu nos gastos do seu estoque de erros, alguns primários, como trazer 27 jogadores para dispensar 14. Muito mais do que o Estadual, o que está em jogo é o futuro, é a Copa do Nordeste do próximo ano que, convém lembrar, é o do centenário do clube.

Globo

Desde o ancestral Estádio Juvenal Lamartine, hoje esquecido, fechado, silencioso e sombrio como um cemitério gótico, o Globo ressurge de protagonista. Nem no JL estava entre os grandes. Dava suas bicadas ocasionais. Joga a partida mais importante de sua vida que recomeçou como uma fábula canavieira de Ceará-Mirim. Vencendo o ABC, o Globo fica com a mão no primeiro turno e bem perto da festa desejada da Copa do Nordeste.

Dida

O goleiro do América parece fadado a uma carreira sofrida. Escorraçado na final do estadual de 2013 ao falhar na decisão, fechou o gol contra o CRB pela Copa do Nordeste, fazendo pelo menos três defesas históricas.

Racismo

Dida volta ao noticiário afirmando ter sido vítima do nefasto racismo no jogo contra o Alecrim. Temos, em gramados potiguares, a reedição de Barbosa do Vasco, o ótimo e perseguido homem do Maracanazzo de 1950.

Público

O Santa Cruz espera ao menos 50 mil pessoas no Arruda na semifinal contra o Sport pela Copa do Nordeste. O Arruda não precisou virar Arena, o povão dá as ordens e nele, o tricolor construiu sua redenção da Série D para a B. Por enquanto.

Pan

O Brasil vencia o Peru por 1×0 pelo Pan-Americano em 06 de março de 1956 no México, gol de Larry. O Brasil seria campeão representado por uma seleção gaúcha ao empatar na final com a Argentina (2×2).

Compartilhar:
    Publicidade