Maigret e a gatuna
O inspetor Jules Maigret, de Georges Simenon, adoraria estar circulando, pimpão, por um shopping de Natal. Há uma gatuna, ladra de canivete, atacando mulheres para roubá-las, especialmente em lojas de roupas. Uma das vítimas foi surpreendida no provador. Outra, abordada e surrupiada no estacionamento.
A mulher surpreende por ser invisível na multidão circulante no ambiente lotado de ambição e vaidade. Uma punguista comum, de antigas páginas policiais, teria sido descoberta há tempos, pelo mal vestir, o linguajar característico da bandidagem, o lixo humano metido no luxo disfarçado pela cidade fantasiada de metrópole.
A personagem verdadeira é diferente. Passa despercebida, entra na loja como uma cliente qualquer, é envolvente, vai chegando perto das outras até concluir quem será a azarada. De boba não tem nada. Um homem com um mínimo de coragem lhe daria uma tapa, tomaria seu canivete e lhe entregaria aos seguranças. Ela sabe bem dos seus limites.
O inspetor Maigret, um gordo, glutão, inteligente, detalhista, observava nos romances da Paris dos anos 1920 e 1930, o tique nervoso dos pretensos psicopatas, assassinos e assaltantes dos quais ninguém desconfiaria, pela semelhança com todos nós, na aparência.
Maigret, em vilas distantes, saboreia nos livros deliciosos, vinhos e conhaques, queijos e carnes que abrem o apetite do leitor voraz desde a primeira página. Seria de causar espécie e o espanto de Maigret e a sua dificuldade em ser cauteloso e imperceptível num Shopping Center.
O velho inspetor, um dos maiores policiais da literatura mundial, nunca conteria o desconforto de perguntas indiscretas de vendedoras sobre seus trajes contrastantes com a moda atual, que atrai e seduz os tenebrosos de rosto inofensivo e crueldade especialmente graduada.
>>>>>>>>
O Modus Operandi, a maneira de agir da tal gatuna de Shopping Center. Uma mulher soturna, calculista e planejada. Ela estuda suas vítimas, pressente sua incapacidade de reação e dá o bote na hora certa, sem possibilidade de erro.
Leva, a mulher misteriosa, a vantagem de todo criminoso inteligente. Circular sabendo o que quer diante de presas aterrorizadas. Não avança sobre os homens, nem porta arma de fogo. Age aos sussurros e parece segura nas ameaças.
Maigret circularia por lojas de mulheres constrangido. Patusco, tomaria cerveja em garrafões enquanto varreria o território com seus olhos guiados por uma mente fértil, ágil e premonitória. Dissimularia o incômodo incontrolável de da falta de charutos companheiros.
Maigret prende, na literatura, homens e mulheres que agem nas sombras e surdinas, mergulha no passado sombrio e desequilibrado dos bandidos até decifrá-los, quase sempre sem a necessidade de um disparo do seu velho revólver.
Por mais fora de moda que esteja, um homem da estirpe de Maigret, formulado pela genialidade de Simenon, é indispensável para que se capture a tal ladra que aflige a classe consumista. A mulher que desafia e afronta o sossego e tunga o dinheiro de quem pode gastar e sofre, também, a violência que lê sem interesse na banalidade dos crimes suburbanos.
Jules Maigret, em seus passos ligeiros e modos excêntricos, caçaria sem açodamento a gatuna que importuna mulheres no pleno direito de gastar para aprimorar a vaidade, combustível para a sobrevivência e gostoso pecado sedutor de homens abismados.
>>>>>>>>>
Na vida real, a gatuna do Shopping Center aponta a ousadia do crime penetrando em lugares onde circulam crianças e adultos. Seu padrão não parece ser o de uma delinquente banal. Há uma metodologia, uma sistemática. Ela está à espreita e seu alvo é claro: Mulheres mais bonitas e bem sucedidas.
A gatuna descarrega, em seu ato, maldade e frustração, terrível desmonte da alma. Quer tirar de quem tem para compensar o que nunca teve. Aponta sua arma para o espelho que foi o sofrimento de sua vida. Calvário que suas vítimas não causaram.
Distante de Marnie, a bela golpista de um dos clássicos de Hitchcock, frágil na aparência, evolvente conquistadora de milionários fraudados e apaixonados sem resistências.
De tanto ler Jules Maigret e outros perspicazes, me arrisco a decifrar esta mulher atormentada e maléfica a tirar o sossego de quem procura relaxar fazendo compras. O medo é inerente a qualquer ser humano, mas a mulher é mais frágil.
Um canivete encostado no corpo é a perspectiva macabra do sangue jorrando. Assombra. Já está na hora de prender a gatuna, por enquanto apenas uma ladra, com todos os requisitos básicos daquelas psicopatas que a gente costuma ver e abominar no cinema. Ou nos livros com epílogos triunfais do inspetor Jules Maigret.
>>>>>>>
Isac
De todas as soluções encontradas pelo América, a melhor de todas, por mais dura no bolso, é um calote chinês. A presença de Isac no ataque deixaria o América tranquilo para disputar o Estadual sem expectativas. Com qualidade atestada em campo.
Favorito
Embora sem novidades no ataque, o ABC pode ser apontado como favorito, com ligeira margem sobre o América, que perdeu muita força com a saída de jogadores importantes. O ABC precisa de força ofensiva e de Júnior Xuxa inspirado. E Jean Carioca aceso.
TV
A estreia do ABC no Estadual, contra o Potiguar de Mossoró, será transmitida pela TV União no domingo, às 17 horas, direto do Estádio Nogueirão. É o esforço de um monstro, Manoel Ramalho, que não desiste. Cresce a cada sacanagem que lhe fazem.
Estrategia
Conversei com o jornalista César Santos, que conhece Mossoró melhor do que qualquer carteiro. César conhece a alma política, humana e é doido por futebol. Torce pelo Baraúnas. Segundo ele, o tricolor está mais preocupado com a Série C do que com o Estadual.
Reforços
César Santos, que foi volante profissional e seria titular de qualquer time do Rio Grande do Norte, hoje, me disse que o Baraúnas guarda suas reservas financeiras para contratar seis reforços e lutar, de fato, pelo acesso à Série B.
Realista
Ex-volante e promessa de craque no Vasco, Alberoni fez uma autocrítica e viu que a bola não lhe era amigável. Foi ser vendedor de joias raras. Está se dando bem. Alberoni chegou a treinar com Messi nas divisões do Barcelona. Calcula-se, por baixo, que ele tenha levado 6.717 dribles. Num dia.
Já pensou
Se 90% dos jogadores do futebol potiguar seguissem o exemplo de Alberoni, o campeonato pararia por falta de quórum.


