Mais alguns perfis – José Narcelio Marques Sousa, engenheiro civil (narcelio@supercabo.com.br)
São muitas as figuras pitorescas que povoaram nossa cidade em décadas passadas. Citando-as tento guardar na lembrança do natalense suas presenças marcantes e atitudes peculiares numa época em que elas eram vistas e integravam o cotidiano e o panorama de Natal.
Manoel – Se hoje é difícil encontrar um anão pela cidade, imagine isso no século passado. O nosso anão fazia ponto na porta de entrada do Cine Rio Grande, na Cidade Alta, vendendo os bombons do patrão João – dono da Confeitaria Mirim – num tabuleiro portátil. Olhar perspicaz e sempre sorridente cativava os clientes pela delicadeza e simpatia.
Baracho – Famoso ladrão e homicida nascido João, que apareceu no noticiário da cidade em meados dos anos 50 até o começo dos 60. Acusado da morte de taxistas foi preso e fugiu da cadeia diversas vezes. Na última fuga, em Natal, foi abatido por 22 disparos. Sua sepultura no Cemitério do Bom Pastor é a mais visitada no Dia de Finados. Guarda a fama de milagreiro.
Severino Galvão – Comerciante, publicitário, militar, político e, acima de tudo, folião. Falar dos velhos carnavais de Natal é recordar o eterno Rei Momo alternativo Severino Galvão. À revelia da prefeitura se autonomeava soberano carnavalesco e constituía o gabinete momesco formado por personalidades da cidade.
Bernardão – Lutador de Vale Tudo nos anos 60 e 70. Fuzileiro naval, moreno, 110 kg de músculos impunha respeito pelo porte avantajado. Trabalhava como leão de chácara em clubes e boates da cidade sem nunca haver dado sequer um safanão em alguém. Sua mais famosa luta foi o enfrentamento a Aderbal Bezerra, quando o ringue montado sobre tambores desmoronou e mesmo assim continuaram no embate.
Marimbondo – Corneteiro da Polícia Militar, dono de um toque claro e afinado por conta do qual era conhecido por “Bico de Aço”. Foi presença de destaque tocando seu instrumento nas folias momescas de Natal durante anos, quando era disputado por blocos e orquestras de bailes carnavalescos.
Cícero Enfermeiro –- Vestimenta branca, cigarro na ponta da piteira, aplicava injeções numa clientela variada e cativa, no tempo em que enfermeiro era uma raridade em Natal. Todo adolescente portador de doença venérea sabia o endereço certo para encontrar a cura: o consultório de Ciço na Princesa Isabel.
Zil – Filho de tradicional família potiguar era uma pessoa pacata, cortês comunicativa e querida. Instruído, gostava de mostrar seu conhecimento de inglês. Fumante inveterado, não se aproximava de um conhecido sem que lhe pedisse um cigarro. Sempre bem vestido e conversador sabia entrar e sair de qualquer ambiente que frequentasse. À primeira vista não deixava transparecer sua deficiência mental.
Restinho – Nunca soube o seu nome. Sei apenas que se tratava de um técnico em eletrônica frequentador assíduo das festas do Aeroclube. Não parava sentado, pois convidava para dançar todas as moças desacompanhadas, em qualquer mesa do salão de danças. De mansinho se aproximava da vítima e tascava um “Vamos dançar este restinho?” O “restinho” aludido era o restante da música em andamento naquele momento. Não o incomodava o fato de ser o recordista absoluto de “levar foras”, pois sempre aparecia uma alma piedosa para lhe servir de par.


