Malucos por natureza

Se eu tivesse que condensar Mavericks – A Onda Sinistra (Zahar Editores), do americano Mark Kriedler, em uma frase prolongada…

Se eu tivesse que condensar Mavericks – A Onda Sinistra (Zahar Editores), do americano Mark Kriedler, em uma frase prolongada diria que “é um livrão sobre um lugar no norte da Califórnia, onde Deus, ou quem quer que tenha criado a natureza, despejou toda sua ira para formar ondas gigantescas e criar um dos picos mais sinistros do surf mundial”. Diria mais: “É uma das melhores reportagens esportivas que já li”. Além da competição em si, no caso a de 2010, considerada a que teve o mar mais furioso, explicações oceanográficas do fenômeno e os bastidores de uma disputa que envolveu o descobridor do point e seu sócio na empresa que tentou capitalizar a simbologia do local criam uma espécie de roteiro cinematográfico dos mais vibrantes.

Mavericks fica na Half Moon Bay, distante 800 metros mar adentro do porto de Pillar Point, no condado de San Mateo, na Califórnia. São Francisco é a metrópole mais próxima. Suas ondas são originadas na costa do Japão, onde a baixa pressão atmosférica vinda da Sibéria encontra correntes de ar quente e forma tempestades com ventos poderosos a ponto de empurrar a massa de água por milhares de quilômetros, cruzando todo o Oceano Pacífico até estourar no litoral oeste da América do Norte. Um recife estreito afunila esse ‘maremoto’, com um efeito parecido ao que uma lupa faz com os raios solares, ao mesmo tempo em que aumenta sua energia, para explodir em muralhas líquidas com vinte, trinta metros de altura e uma agressividade que assusta até os big riders (surfistas de ondas gigantes) mais experientes.

Para piorar o cenário bíblico, a água é absurdamente gelada (a temporada para surfar vai de novembro a março, inverno no Hemisfério Norte), corais submersos e pontiagudos estão prontos para destroçar qualquer carcaça e tubarões-brancos costumam flanar pela redondeza. É nesse inferno marítimo que 24 homens disputam o torneio mais insano do surf mundial. Tudo começou em 1975 quando um sujeito chamado Jeff Clark descobriu Mavericks. Foram quinze anos de surfadas solitárias, antes de convencer dois amigos profissionais de que estavam diante de um El Dourado. Nativo da região e fabricante de pranchas, ele lapidou uma técnica em perfeita compreensão daquela natureza selvagem e virou o grande guru dos atletas que começaram a chegar nos invernos subsequentes ao trecho remoto da costa californiana.

Um deles foi o jovem e ambicioso Keir Beadling, executivo que ralou para criar uma marca rentável, porém em constante discordância com a postura romântica de Clark diante daquela possibilidade milionária. A luta por patrocinadores e um bom dia para armar o campeonato (cancelado em 2007 e 2009 por Clark, por falta de ondas) confrontou os dois e dividiu a comunidade dos surfistas. Os protagonistas do livro de Kreidler, escritor e colaborador do site e da revista da ESPN, ganham a companhia de malucos, como Grant Washburn, o fiel escudeiro de Clark, e Chris Bertish, sul-africano que alimentou por dez anos o sonho de pegar onda em Mavericks para, finalmente, brilhar em 2010. Mas, talvez, o principal mérito da narrativa seja forjar os paredões de água salgada como um ser tenebroso, mítico, digno de um filme de terror.

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