Mama África – Rubens Lemos

Calma e mãos aos céus e terços, versículos e salmos. Há 40 anos, decidimos contra o Zaíre, africano e ganhamos…

Calma e mãos aos céus e terços, versículos e salmos. Há 40 anos, decidimos contra o Zaíre, africano e ganhamos graças ao Valdomiro, invertebrado Garrincha e salvador da classificação nos 3×0 a nos levar ao quarto lugar de Zagallo e metade de Ademir da Guia.

Civismo, fé e labor. Hoje, temos um time com, no mínimo, 21 Valdomiros. Confiantes, seguidores dos conselhos maternos e irritantes da coletividade assombrada. Em 1974, não tivemos apenas um 0×0. Foram dois. E mesmo atacando quem criticava o defensivismo, o providencial Zaíre nos salvou.

Vamos, unidos, chorando aos hinos – não esqueça o Conhaque Dreher – enfrentar Camarões na segunda-feira em Brasília, campo exemplar em atuações lisonjeiras, exemplares nos dribles e astúcias vestiárias de cambalachos. Paz e fé.

Tínhamos dois Neymares em 1974. Um em talento, Rivelino. E outro em rebolado e presunção – Paulo César Caju. Neymar vezes dois é craque, figura simpática, candidato a jurado de Faustão e frisson de patricinhas arenautas.

Esqueçam o jogo contra os mexicanos. Eles até tentaram ajudar. Vieram trajados de Íbis, o pior time do mundo, lá de Pernambuco, camisa nem vermelha nem vinho, uma cor Capelinha, sangria de ressaca a esmagar crânios na fúria de uma bala de fuzil 7.62.

Trouxeram até o sósia do colombiano Higuita, que pegou até pensamento. Ajudando ao México, dois dos melhores zagueiros da Copa até Honduras ressurgir: Fred e o inigualável Jô, trambolho de grande área.

Mandem os mexicanos ao jogo contra os branquelos croatas e procurem Brasil x Zaíre no youtube. Em 1974, para animar, só havia Zagallo. Hoje, Parreira e Felipão.

Sacrilégio ilustre

Ruy Castro, biógrafo de Garrincha, declarou ao Portal UOL que Neymar, no futuro, “pode ser mais completo que Mané”. O que pensaria Ruy Castro se alguém declarasse Paulo Coelho melhor do que ele por 10 segundos? Gol contra de patriotada. Acima de Garrincha – e Ruy Castro sabe mais do que qualquer um – apenas Pelé.

 

Coalhada belga

A Bélgica abusou ao deixar para o segundo turno o meia Fellaini, camisa 8 e sósia do personagem Coalhada, de Chico Anysio, pela cabeleira de esponja estilo Discoteca. Fellaini Coalhada impôs toque de bola e os afamados belgas viraram um jogo complicado da humorística Argélia.

 

Potência

Teóricos ensovacados, please na balela mofada de imperialismo. Cada “cumpanheiro” festivo tem Ipad e arrota McDonalds. Vamos reconhecer que norte-americano é teimoso e competente.

 

Paciência

O futebol ou soccer chegou por lá em 1975, quando Pelé desembarcou para jogar na constelação milionária do Cosmos, o time mais caro do mundo. Eles começaram devagar, apanharam um bocado e estão melhorando.

 

Em 1994

Não fosse a cotovelada do angelical Leonardo em Tab Ramos e o passe medido de Romário para Bebeto, o 4 de julho de 1994 seria mais complicado. Os ianques usaram o tempo para aprender e aperfeiçoar porque são metódicos como na preparação para o combate e nos ataques de guerra

 

Em Natal

No primeiro tempo, deram um passeio em Gana. O gol de Dempsey foi belo, foi brasileiro, foi peladeiro de tabelinha, de um, dois, de “toca e passa”, “chega e bate”, legítimos dos morros nacionais.

 

Morte se mexe

O Grupo da Morte parece ser o da Alemanha. Ela está longe do perigo. Estados Unidos, Gana e Portugal, de Valentino Ronaldo vão disputar duas rodadas equilibradas. Gana não é páreo para os chucrutes e Portugal vai ter que rebolar no fado para não se estrepar contra os EUA.

 

Mediocridade invicta

O futebol medíocre do Brasil avançou na Copa do Mundo de 1978 graças a um gol de Roberto Dinamite contra a Áustria. Depois de duas atuações pífias contra a Suécia na estreia, quando empatou por 1×1, e a Espanha (0×0), o almirante Heleno Nunes, presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CDB), resolveu intervir e mexeu no time.

 

Por acaso

Roberto Dinamite só foi para a Copa do Mundo por acaso. O técnico Cláudio Coutinho, do Flamengo, convocou Reinaldo e Nunes, do Santa Cruz de Recife (PE). Nunes se machucou e Reinaldo estava meia-boca, joelhos esfolados pelas pancadas sofridas em suas batalhas pelo Atlético (MG) no Mineirão.

 

Geringonça

Até mesmo uma geringonça chamada Nautillus, foi importada para que o pequeno gênio recuperasse a musculatura, mas nada adiantou. Reinaldo sofreu nos gramados esburacados de Mar Del Plata e fracassou na dupla com Zico.

 

Interventor

Vascaíno empedernido, Heleno Nunes decidiu barrar Zico e Reinaldo e escalar Jorge Mendonça, meia-atacante do Palmeiras e Roberto Dinamite. O interventor também mandou e Coutinho obedeceu. Deu fim à esdrúxula experiência de manter o quarto-zagueiro Edinho na lateral-esquerda, substituindo-o por Rodrigues Neto.

 

Marinho Chagas fora

No Brasil, ficaram os melhores da posição, com sobras: Marinho Chagas, do Fluminense, e Marco Antônio, do Vasco, considerados “rebeldes” pela conservadora comissão técnica, que também deixou de levar os craques Falcão e Paulo Cézar Caju.

 

Gol salvador

Aos barrancos e trombadas, Roberto Dinamite acertou um belo chute e classificou o Brasil marcando o gol do 1×0 sobre os austríacos. A seleção terminava em segundo lugar e caía no grupo da anfitriã Argentina, da Polônia e do Peru. O vencedor estaria na final.

 

Batalha de Rosário

O Brasil venceu o Peru por 3×0 e no dia 18 de junho travou a Batalha de Rosário contra a Argentina, jogo truncado e sem técnica, marcado por cotoveladas, esbarrões e nervosismo. Roberto Dinamite, em tabela com Zico, esteve a pique de fazer 1×0, mas o goleiro Fillol defendeu. Os velhos rivais não honraram a mística do duelo e o destaque, pela pancadaria, terminou sendo o tosco volante Chicão, do São Paulo.

 

Vergonha peruana

A Argentina seria a campeã do grupo graças ao vergonhoso 6×0 no Peru. Entrou em campo sabendo que precisaria de três gols de diferença para assegurar a vaga, pois a CBD, cândida, aceitou jogar antes contra a Polônia, vitória da seleção por 3×1.

 

Times

Eis as escalações da Batalha de Rosário, um dos cruciais instantes da equipe “campeã moral”, terceira colocada invicta de Cláudio Coutinho. Brasil: Leão; Nelinho, Oscar, Amaral e Rodrigues Neto (Edinho); Batista, Chicão e Jorge Mendonça (Zico); Gil, Roberto e Dirceu. Argentina de César Menotti: Fillol, Olguin, Galván, Passarela e Tarantini; Gallego, Ardiles (Villa) e Kempes; Bertoni, Luque e Ortíz (Beto Alonso).

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