Manaus e os ingleses: imagem ruim, diplomacia pior ainda

No sorteio, não deu outra, é claro: a Inglaterra caiu em Manaus logo na estreia, contra a Itália

A Arena da Amazônia, em Manaus, na véspera da inauguração - Edmar Barros/Futura Press/Folhapress
A Arena da Amazônia, em Manaus, na véspera da inauguração – Edmar Barros/Futura Press/Folhapress

Para as cidades brasileiras menos conhecidas no exterior, receber jogos da Copa do Mundo pode ser uma chance de ouro. Manaus, por exemplo, talvez seja a capital brasileira com maior potencial de crescimento no turismo. Até agora, porém, a cidade só apareceu na imprensa internacional pelos motivos errados – às vezes, por causa de estereótipos equivocados dos estrangeiros, mas em outras ocasiões, por culpa de suas próprias autoridades. Primeiro veio o tolo desabafo do prefeito Arthur Virgílio ao saber que o técnico da Inglaterra, Roy Hodgson, queria evitar Manaus no sorteio dos grupos porque temia o calor. Preocupações mais do que legítimas, diga-se: a seleção inglesa é formada por atletas que moram num país onde faz calor por apenas algumas semanas no ano. “Nós do Amazonas também preferimos que a Inglaterra não venha. Esperamos que uma seleção melhor venha, com mais futebol e um técnico mais sensível, culto e educado. Ai está uma das poucas pessoas do mundo que não tem curiosidade sobre o Amazonas e não sonha em conhecer Manaus”, provocou Virgílio.

No sorteio, não deu outra, é claro: a Inglaterra caiu em Manaus logo na estreia, contra a Itália. Hodgson, bem mais elegante e, sim, mais educado que o prefeito, mandou uma carta ao brasileiro dizendo que estava contente com a oportunidade de conhecer a cidade. Virgílio não se dobrou: “Vamos mostrar que somos qualificados e recebê-lo muito bem. Mas somos Itália desde criancinha.” Mais que as alfinetadas de Virgílio, a imprensa inglesa destacou os aspectos mais negativos de Manaus – em suas reportagens nos dias seguintes ao sorteio, jornais como o Daily Mail e o Daily Mirror publicaram textos em tom alarmado, avisando aos torcedores do English Team sobre os altos índices de criminalidade e sobre os riscos à saúde, como doenças tropicais e picadas de animais peçonhentos, sem contar os preços abusivos e hotéis com serviços e acomodações ruins. Descontando-se o sensacionalismo desses dois tabloides, havia uma preocupação legítima: o Guardian, por exemplo, destacava principalmente os atrasos nas obras da Arena da Amazônia. Depois de vários adiamentos, o estádio enfim foi inaugurado no fim de semana.

Como a conclusão dos trabalhos foi claramente acelerada para evitar novos constrangimentos, a partida de abertura foi marcada por críticas dos torcedores. Mesmo com público reduzido, a arena não ofereceu conforto aos visitantes, que reclamaram de diversas falhas. No início da semana, o Guardian voltou a destacar os problemas do estádio. Menos mal que não tenha chegado aos jornais ingleses o ataque grosseiro do governador Omar Aziz à imprensa. Ao ser entrevistado pela reportagem da ESPN Brasil, que questionou Aziz sobre o futuro uso do estádio, Aziz bradou: “Isso é problema nosso, não é de vocês. Isso é problema do povo amazonense, não é problema da imprensa do Sul. Deixa com a gente. Se nós tivemos competência para construir uma arena desse porte, teremos competência para dar um legado.” A Arena da Amazônia foi erguida com verba pública, por 604 milhões de reais, 89 milhões a mais que o previsto. Tem capacidade para 44.000 pessoas, apesar de ter sido erguida num Estado cujo campeonato teve público médio de 807 pagantes por jogo no ano passado. O próprio governo do Amazonas calcula que a manutenção do estádio custará meio milhão de reais por mês. Sorte dos políticos manauaras que a imprensa estrangeira não está preocupada com a possível transformação da arena num elefante branco – afinal, a conta ficará com os contribuintes do próprio Amazonas.

 

Fonte: Veja

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