As mancas análises – Alex Medeiros

A Copa nem bem começou e os analistas de ocasião saem na frente como que para consagrar o ditado lusitano…

A Copa nem bem começou e os analistas de ocasião saem na frente como que para consagrar o ditado lusitano de que “quem é coxo parte cedo”. A velha mania do brasileiro metido a técnico de futebol que avalia um torneio inteiro em 90 minutos.

Em nota mais adiante, informo das tradicionais batalhas ludopédicas entre Espanha e Holanda, iniciadas nos tempos da “Fúria” e prosseguida na era da “Laranja Mecânica”, no espaço-tempo das décadas de 1950 e 1970. Clássicos sempre geram goleadas.

O atropelamento holandês ontem, que deixou grogue cada um dos jogadores espanhois, pode até servir para apontar o fim do ciclo do futebol “tic tac” que deu uma Copa e duas Eurocopas à Espanha, mas não decreta automaticamente a sua desclassificação.

Tanto a Holanda do segundo tempo pode avançar o mais longe possível na competição, quanto a Espanha do primeiro, apesar da Espanha do segundo tempo ter saído de campo com uma aura de quem já fez as malas para voltar para casa. Coisas do futebol.

Com apenas dois grupos tendo iniciados seus jogos, é incrível como é grande a quantidade de analistas vaticinando o desfecho da Copa do Mundo. Talvez seja essa intempestividade que permite o sucesso de tantas casas de apostas espalhadas por aí.

A aposta é um palpite em modo de ansiedade, uma opinião sem embasamento que tenta se sustentar na ousadia de uma arriscada perda material. Os apressados também confundem prognóstico com uma guerra de egos, quem erra parece perder a honra.

Não creio que a Holanda já seja uma séria candidata ao título, como não acho que a Espanha morreu na disputa com uma derrota inicial, por mais trágica e perniciosa tenha sido a estrepitosa goleada. Gostei do Chile, mesmo ciente da fragilidade australiana.

Obviamente que a goleada da Holanda foi um espetáculo para os olhos de quem ama futebol, ainda advindo de uma escola que apaixonou a minha geração com Cruijff e o “carrossel” de 1974. A foto do Van Persie voador é uma homenagem a tudo isso.

Já no jogo de estréia do Brasil, os tais analistas danaram a classificar por antecipação a seleção de Neymar e a da Croácia, sem sequer esperar pela apresentação de México e Camarões, em Natal. Pois achei ambas melhores que os croatas, e mais agressivas.

É tão cedo para eleger campeões e elencar fracassados quando ainda faltam 60 jogos (escrevo antes dos quatro jogos do sábado) de uma Copa que só agora começou. Como é cedo para dizer que o Brasil sai em primeiro do grupo por causa da vitória inicial.

Lendo hoje cedo a coluna do mestre Tostão, na Folha, sou obrigado a fazer o que não deveria: discordar da sua lucidez de todos os dias. Mas, ele diz ao fim do artigo que “o Brasil começa a ganhar os jogos no Hino”, numa reedição da Copa das Confederações.

Entre a impressão do craque da bola e das letras e um comentário do saudoso capitão do Uruguai em 1950, Obdulio Varela, vou ficar com o segundo. Ao adentrar o Maracanã e ver as 200 mil almas aos gritos, disse aos colegas: “Os que estão ao redor não jogam”.

A História das copas é um acumulado de heróis solitários superando exércitos de homens, mulheres e crianças. Quantas equipes já conquistaram títulos no campo inimigo, inclusive o Brasil? E tantas são as que se recuperaram da desgraça anunciada.

Em 1954, a seleção da Alemanha foi goleada por 8 x 2 no início e depois ganhou a taça. Em 1986, a Dinamarca deu show de bola e caiu humilhada. O futebol é um poço de imponderabilidade, onde o coletivo e o individual se misturam e também se separam.

Ao fazer a analogia entre Tostão e Obdulio, vi que uma frase do papa Francisco está sendo reproduzida na Web, onde ele diz “Ninguém vence sozinho, nem no campo, nem na vida”. Acho que o santo padre se esqueceu de Garrincha, Maradona e Romário. (AM)

Hipócritas

Petralhas de todas as tendências indignados com as vaias e os xingamentos contra Dilma Rousseff no Itaquerão. Sinceramente, vamos deixar de lorota. O que é um “vá tomar no cu” diante das piadinhas que vocês fizeram na morte de Ruth Cardoso?

De Olavo de Carvalho

“O governo petista habituou a população a desrespeitar tudo – a ordem, a família, a moral, as Forças Armadas, a polícia, as leis, o próprio Deus. Se esperava sair ileso e ser aceito como a única coisa respeitável no meio do esculacho universal, então é até mais louco do que parece”.

Vaidade FC

Miguel Nicolelis está furioso no Twitter com Reinaldo Azevedo, que registrou o fiasco midiático do chute do robô na abertura da Copa, boicotado pela FIFA e restrito a 3 segundos de atenção. Quem também irritou o palmeirense foi Diogo Mainardi.

Reprise do lance

Na sua página do Twitter, o escritor que mora em Veneza postou “Exatamente como Santos Dumont, Nicolelis inventou o que já havia sido inventado”, acrescentando um vídeo com as experiências anteriores feitas com exoesqueletos noutros países.

Sufoco

Não foi por falta de aviso. Publiquei aqui que a frota de táxi em Natal era insuficiente para atender a demanda de turistas na Copa. No primeiro dia, centenas de mexicanos perderam o jogo porque não havia táxi disponível, muitos saíram a pé e se perderam.

Aeroporto

O consultor Jean-Paul Prates postou ontem na minha timeline do Twitter, após saber do sufoco dos torcedores mexicanos em Ponta Negra: “Todos os receptivos do ASGA e taxis especiais fora de serviço ou ocupados. Pessoal que chegou hoje e ontem sofreu”.

Baboseiras

O bairrismo geográfico e a paixão ideológica cegaram muitos zé manés durante o jogo México x Camarões. Na ânsia de defender o torrão natal, pouparam a OAS do erro de engenharia na Arena das Dunas, onde todos se molham em dias de chuva como ontem.

Baboseiras II

Houve quem vomitasse nas redes sociais que é normal torcedores se molharem nos estádios do mundo. Mentirosos. Decerto jamais entraram no Camp Nou, Santiago Bernabéu, Emirates Stadium, Estádio da Luz, Old Traford, Allianz Arena…

Intempéries

A sexta-feira 13 foi agitada no país da Copa. Os dois fatos mais graves do dia aconteceram em Natal e em Salvador. Aqui, um deslizamento soterrou carros e assustou moradores; e em Salvador, um desabamento detonou o futebol campeão da Espanha.

Clássico é clássico

Espanha e Holanda estão acostumadas a combates nos gramados, talvez herança lúdica das guerras que travaram no século das navegações. Aqui e acolá uma goleia a outra. Ontem, a Holanda empatou no número de vitórias em torneios oficiais, cinco a cinco.

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