Mansão da Glória

Segurava firme na mão de minha avó na missa matinal de domingo, tomado de medo, quando o padre, em voz…

Segurava firme na mão de minha avó na missa matinal de domingo, tomado de medo, quando o padre, em voz de dublador de filme-catástrofe falava na descida de Jesus Cristo antes de ressuscitar a uma tal “Mansão dos Mortos”. Imaginava um casarão abandonado cheio de fantasmas a me atormentar sobrevoando o quarto na hora do sono.

Então me explicaram, ainda pequeno, o significado da portentosa residência dos finados, dos justos, segundo a orientação católica. Antes de receber alguma carta ou e-mail de protesto ou explicação filosófico-religiosa, informo que a minha fé é silenciosa, racional e no bem, sem necessidade de templos. A vida me deixou assim, sem desilusões reclamadas pela bendita falta de ilusão no singular ou plural.

A Mansão dos Mortos, meu pavor nas idas à igreja do bairro, trajando calção de tecido, camisa de botão, sapato e meia, a miniatura do ridículo, me incomodava tanto quanto a caipora, bicho feminino fumante de cachimbo e malvada acima do nível de horrores das histórias de Sthepen King, lidas e jogadas no lixo na adolescência. A caipora morava na floresta do Bairro do Tirol em Natal e dava seus passeios assombrosos, garantiam os mais velhos fazendo a molecada amansar.

Se não me confesso a homens iguais a mim, digo a você que cumpria obrigação fiel em respeito inenarrável à minha avó, adoração mantida durante cada um dos dias de sua ausência, três anos fehados na semana que está terminando. Também para pedir por meus times de futebol. Me submetia ao pânico da Mansão dos Mortos em permuta discricionária por vitórias do ABC e do Vasco da Gama.

Voltei a lembrar sem medo algum da Mansão dos Mortos ao me encher de alegria por Wallyson, o magricela revelado pelo ABC, goleador no Atlético (PR) e ungido aos céus da idolatria no Cruzeiro de Belo Horizonte, notem a simetria de palavras de oratório: Céu, Cruzeiro, Belo e Horizonte.

Wallyson parecia dormir sossegado na Mansão dos Mortos do Futebol. Estava no ponto para vestir a camisa da seleção brasileira em 2011, artilheiro da Taça Libertadores, quando uma fratura de tornozelo surgiu como um vodu a espezinhar sua escalada de sonhos.

Do seu quarto, na imagem escurecida da mansão silenciosa, Wallyson saiu para uma letargia de alma penada. Emprestado ao São Paulo, saiu dispensado, pela porta dos fundos, por perseguição do técnico Ney Franco e por sua culpa também, entregue à inércia dos extintos.

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Na Terra dos Orixás, Wallyson foi um sonâmbulo no Bahia, com atuações apáticas e gols raríssimos, dando a impressão levemente odara de que estava era mesmo preocupado com as delícias profanas de Ondina e do Axé Music. Seu ritmo parecia o de marcha de despedida, de “segura na mão de Deus e vai”.

Eis que Wallyson sai do gigantismo triste da acomodação para se encontrar com a segunda chance oferecida pelo destino, geralmente avarento em novas oportunidades. O destino é imperdoável no fracasso dos convencionais, mas gosta de futebol e dá suas recaídas. Apresentou Wallyson, um escolhido, a um clube predestinado.

O Botafogo é feito de fé, sofrimento e amor. Palavra de vascaíno. Vivi os anos de tristeza dos trintões dos anos 1970 e 1980, não havia crianças ou jovens dispostos a sofrer em sala de aula ou nas travessuras de rua ouvindo piadas sobre um time que chegou a ter no ataque, Cremílson, Puruca e Tiquinho, três gênios se hoje estivessem enganando em campo.

A torcida do Botafogo mantinha-se firme, movia-se pelos dribles de Garrincha, a lembrança magistral de Nilton Santos, carisma repartido para todas as camisas, os lançamentos de Didi e Gerson, as arrancadas fulminantes de Jairzinho, os gols e delírios do louco e irresistível Heleno de Freitas, centroavante com jeito de ator na era pré-Maracanã de antigamente.

Até mesmo a cosmética forma do novo estádio, insosso e sem a emoção passional dos tempos pretéritos, ganhou vida, humanidade pelos pés de Wallyson em seu renascimento.

Uma noite em que ouvir seu nome gritado em coro por uma multidão, trouxe luminosa a figura de Marinho Chagas, desfilando pela lateral-esquerda em carro alegórico. Wallyson, sem nem pensar, homenageava Marinho.

Foram três gols de um homem reconstruído em fúria e redescoberto em talento. Wallyson será ídolo, completará a história interrompida e cumprirá a profecia dos filhos da superstição: ele nasceu com sangue alvinegro e assim explodirá em sucesso. Wallyson caminha, só depende dele, para assumir a escritura e a propriedade da Mansão da Glória.

 

Seleto grupo

Todos os potiguares, sejam alvinegros ou americanos devem se orgulhar de Wallyson. Ele já faz parte de um grupo seleto, do qual poderá liderar. Com os três gols no Deportivo Quito, soma 10 e já é o quarto maior artilheiro brasileiro na Libertadores, atrás de Pelé (17 gols), Zico (16) e Neymar (15).

Depende do Xuxa

Voltando à vida local, o ABC vai dar outra chance a Júnior Xuxa no meio-campo. Do atual time, é o que tem mais qualidade no atual time. É preciso saber, apenas, se Xuxa quer jogar ou apenas espreguiçar no gramado, o que tem feito quando se digna a participar de uma partida.

Concentração em casa

O ABC, segundo o executivo, ex-deputado federal Rogério Marinho, construiu concentração para a comissão técnica e o time com equipamentos de primeira linha. Só em novembro no ano passado, segundo informações internas, o clube gastou R$ 63 mil em hospedagem em Natal.

Tudo certo

O América terminou a primeira fase em êxtase: o único invicto, o melhor aproveitamento (66%), o maior número de pontos (12) e a defesa menos vazada, que tomou apenas dois gols. Uma campanha animadora.

CRB

O América certamente esquecerá todo o seu currículo para não vacilar diante do CRB, que demonstrou ao final da primeira fase uma senhora capacidade de reação. Mas o América é mais time, a se confirmar nos dois jogos.

Val

Com a contratação de Val, anunciada pelo Blog Vermelho de Paixão, do Sérgio Fraiman, o América arma seu contra-ataque depois do anúncio de Lúcio Curió, pelo ABC. Val é experiente e, firme à frente dos zagueiros, poderá liberar Fabinho para criar e chegar mais à frente. Fabinho é um senhor jogador.

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