Manual que defende surra para controlar filho gera polêmica nos EUA

A morte de três crianças filhas de pais supostamente influenciados pelo livro provocou críticas aos autores

Um livro com conselhos para pais que defende surras em crianças com cintos e galhos faz sucesso há anos entre evangélicos conservadores radicais nos Estados Unidos, com centenas de milhares de cópias já vendidas.

Mas agora a morte de três crianças filhas de pais supostamente influenciados pelo livro provocou críticas aos autores e deu início a uma campanha para bani-lo de livrarias.

O livro “To Train Up a Child” (“Treinando uma Criança”, em tradução livre) – do pastor Michael Pearl e sua esposa Debbie – descreve em minúcias as punições consideradas ideais em cada caso. Para crianças malcomportadas com menos de um ano, o livro sugere uma régua de 30cm ou um galho pequeno de chorão. Para crianças maiores, galhos maiores ou cintos.

O objetivo da surra é submeter às crianças às vontades dos seus pais.

“Treinar é condicionar a mente da criança antes que surja uma crise; é uma preparação para obediência futura, instantânea e sem questionamentos”, afirma o primeiro capítulo do livro.

O “treinamento” começa cedo na vida da criança. Caso ela seja muito malcomportada, os autores sugerem que os pais “usem toda a força necessária para vencê-los”.

“Se você precisar sentar em cima dela para bater nela, não hesite. E segure ele nessa posição até que ele se renda. Derrote-o completamente”, afirma o livro.

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800 mil cópias

“To Train Up a Child” é considerado nos Estados Unidos um dos livros mais radicais sobre educação conservadora.

Publicado em 1994 por uma organização não governamental chefiada por Michael Pearl no Estado do Tennessee, o livro trata o ambiente escolar como nocivo às crianças, por não ser suficientemente religioso.

A entidade disse ter arrecadado US$ 1,5 milhão no ano fiscal de 2012 a 2013. O livro foi responsável por 60% desta receita. A organização trabalha ativamente na promoção do livro, enviando cópias para soldados americanos no Iraque e no Afeganistão.

Segundo o pastor, mais de 800 mil cópias foram vendidas. Nos últimos anos, a vendagem se manteve estável, mesmo após críticas feitas na imprensa.

“Nós temos vários milhões de pessoas muito felizes e pais contentes e crianças que perceberam os ótimos e maravilhosos frutos do livro e de outras coisas que escrevemos”, diz Pearl.

Mortes e campanha

Em 2010, a menina Lydia Schatz morreu no Estado da Califórnia após ser espancada pelos pais. No ano seguinte, a jovem Hana Williams morreu de hipotermia e inanição, depois de ter sido aprisionada em um jardim de uma casa no Estado de Washington.

Os pais de Schatz estão cumprindo pena de prisão, depois de terem se declarado culpados de crimes como assassinato e tortura. Já os pais de Williams foram condenados em outubro a décadas de prisão por homicídio.

Os investigadores dos dois casos disseram que cópias do livro “To Train Up a Child” foram encontradas nas casas das duas famílias.

O promotor Michael Ramsey, encarregado pelo caso Schatz, disse que os pais não estão isentos de responsabilidade no assassinato da filha, mas acusou o livro de influenciar negativamente as pessoas a se comportarem desta forma.

Um terceiro episódio em que o livro foi acusado de influenciar pais ocorreu na Carolina do Norte, onde uma criança morreu sufocada pela mãe, que usou um cobertor.

Nos três casos, as crianças receberam surras com artefatos de plástico exatamente como os descritos por Michael Pearl em seu livro.

Mas o autor nega que o livro  possa provocar abusos deste tipo, dizendo que o livro é contra brutalidade ou contra a violência como forma de liberar raiva.

 

Fonte: Uol

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