Do mar antigo

Ando aqui, Senhor Redator, por uns poucos dias, descansando os olhos no desenho mágico do meu mar antigo. Não trago…

Ando aqui, Senhor Redator, por uns poucos dias, descansando os olhos no desenho mágico do meu mar antigo. Não trago saudades. Nem deixo. Talvez a melancólica sensação das coisas idas e perdidas ou que ficaram esquecidas nas sombras mortas dos oitões. De repente – ou foi mansamente? – nem sei, tudo foi ficando distante, envolvido numa bruma.

Como se a realidade tivesse feito do muito próximo o que já não pertence ao mais íntimo de um mar tardio e triste, já sem os sonhos navegantes.

O que faço do meu mar antigo? Não sei. Levaria na alma não pesasse tanto. Ou na mala do carro, no porta-luvas, numa valise. O que faria de um mar e de todas as suas coisas? De um mar morto, no chão da sala ou no quarto de despejo?  Ninguém esconde um mar assim, de antigas descobertas em noites de nunca mais. Não seria justo levá-lo sem seus segredos, como um mar sem vida, sossegado. Mar quebrado nas pedras tristes lavadas por marés de sizígia, mar tão comum que já não promete luas.

E, no entanto, Senhor Redator, saltam de suas águas como peixes vivos todas as coisas que um dia tiveram vida. Teríamos sido amorosos netunos saídos do mar, naqueles verões de veladas velas, na volúpia de aventuras e descobertas? Ou fomos, ainda que tardiamente, aqueles vampiros com as nossas almas quase adolescentes, mordendo de desejo a carne frágil? Ou hoje somos apenas esses vampiros comportados e cheios de desgostos de que fala Contardo Calligaris no pequeno ensaio das sensações?

Esse olhar que arremesso e se alonga, e ultrapassa até depois dos longes do azul, esse olhar é a última aventura que resta diante desse mar de encantados segredos. Mar de sonhos adormecidos como os seus barcos e desfeito de todas as tramas que a vida foi tecendo como se nunca fosse acabar. Mar de um calmo amor prestante, como disse o poeta. Quando o amor era simples e renegava compromissos cartoriais. Mar de ontem, soprado pelo desassossego das paixões que iam e vinham como suas águas.

O que nos resta, a nós, vampiros hoje comportados, para voltar a Calligaris, se todos os desejos cochilam sobre os anos passados, e se espreguiçam quando acedem as manhãs, entre os calmos lençóis que nos escondem do medo? Somos o que restou de nós mesmos. De quando aqueles dias e aquelas noites eram aqueles dias e aquelas noites. Pra que dizer mais? Quando os becos escondiam os desejos e neles vivia uma estranha sensação de liberdade e não pesava essa hoje tão terrível obrigação do futuro.

Mas que tolice, Senhor Redator, seria retornar ao passado levando na bagagem as poucas certezas e as muitas dúvidas de hoje. Ora, o tempo também tem seu tempo. Foi bom vivê-lo nas suas intensidades e imperfeições. Aquele mundo completo e, no entanto, tão incompleto. Foi como se aqueles verões nos preparassem para a grande incompletude. As ausências que vão vincando na alma da gente todas as coisas que hoje nos faltam. Como se viver tivesse sido sempre assim. A vida inteira.

 

AVISO
O deputado Henrique Alves está convencido: o ex-senador Fernando Bezerra é candidato ao governo. Os fartos alpendres de Jacumã – dizem os que conhecem – apascentam a alma e enobrecem o coração.

NEGÓCIO – I
A Congregação das Irmãs Dorotéias venderam toda a área do Colégio da Conceição, negócio que foi diretamente decidido pela direção mundial, em Roma, e sem uma interferência da Arquidiocese local.

CAPELA – II
Os milhões foram tão fortes como proposta, garantem algumas cabeças bem coroadas, que até a capela entrou no negócio e será demolida. O Núncio Apostólico, em Brasília, não aceitou embargar. Estranho.

ESTRANHO – III
Também é a presença do Padre Antônio Murilo no Anuário da Arquidiocese de Natal como Capelão do ABC. O que faz um capelão num clube de futebol? Não deveria ser para todos os clubes de futebol?

CPF
Amanhã, entre 8 e 15 horas, os estudantes da rede estadual deverão fazer o cadastramento do seu CPF junto à Secretaria de Educação. Em Natal e no interior. O tempo médio será de um minuto de duração.

PAUTA
Domingo, a partir das 16h30, no palco ao ar livre do Bosque dos Namorados, tem o Som da Mata. Na pauta, Eduardo Taufic Trio num show de jazz. A entrada do parque custa um real, mas o show é grátis.

ATHENEU – I
Doa três de fevereiro, nos 180 anos do Atheneu, será lançado o livro ‘Construtores da Ágora Soberana Potiguar: múltiplas memórias’, reunindo textos de seus ex-alunos sobre professores de várias gerações.

PRAZOS – II
A professora Eva Barros que coordena a edição lembra a quem ainda não fez a entrega do livro que é preciso urgência para que os originais, ordenados e revistos, cheguem à gráfica já nos próximos dias.

DEZOITO
O arcebispo D. Jaime Vieira celebra seus dezoito anos de ordenação episcopal segunda-feira, dia 6, na Festa de Santos Reis. Depois passa seus dias de férias em Diogo Lopes e depois em Barra de Cunhaú.

FÉRIAS
O clero natalense pouco a pouco adere ao hábito de curtir as temporadas de veraneio. Nada a opor se no portal da Arquidiocese figurasse a relação dos pastores de férias e dos à disposição da comodidade.

CHECK-UP
Quem está em Natal é Dom Francisco Canindé Palhano. Há quatro anos fez a revascularização e agora foi submetido a uma angioplastia. Ele se sentiria muito melhor se fosse nomeado para bispo de Caicó.

LEITURA
Pesquisa UOL, transcrita pelo escritor Ruben G. Nunes no seu blog, mostra que 45% dos estudantes de São Paulo preferem como leitura histórias em quadrinho. Os romances, contos e fábulas são preteridos.

AINDA
O prefeito Carlos Eduardo Alves, em que pese a convicção que aparente na sua decisão de aceitar ser candidato de consenso ao governo, não tirou os arreios do cavalo que, selado, ainda espera à sua porta.

POESIA
Do poeta Guillaume Apollinaire no seu pobre outono que de tão triste apaga o sol luminoso do verão: ‘Todas as lágrimas do outono folha a folha / as folhas / pisadas / um trem / que vai / a vida se esvai’.

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