Maria, a Mãe do Senhor

Domingo, dia 8, o povo de Deus celebra em várias paróquias e capelas do Rio Grande do Norte a Festa…

Domingo, dia 8, o povo de Deus celebra em várias paróquias e capelas do Rio Grande do Norte a Festa de Maria,
a Mãe de Deus. A devoção a Maria Santíssima vem dos tempos mais remotos da Igreja. Já há relatos desde os
Evangelhos Apócrifos, a partir do Século II. Quem resume essa história e mostra as origens dessa fé que tem a idade
dos séculos é o padre Agustin Calatay e que esta coluna transcreve, na íntegra, para seus leitores devotos de Maria.

É claro que, para compreender em nosso mundo atual, aquilo que nos transmitem os evangelhos e os escritos apostólicos, temos que nos remontar sempre àquele século I e à cultura judaica. Por isso:

1) Para compreender a Mãe do Senhor, em sentido messiânico ou real, temos que voltar para a Igreja-mãe de Jerusalém e para a compreensão do feminino dentro da cultura judaica e veterotestamentária.
2) Uma mulher, dentro da cultura israelita, torna-se importante quando é mãe. A esposa pode ser dispensada (de acordo com a lei mosaica) e é submetida à autoridade da sogra, -mãe do marido. É esta quem tem o poder feminino real na casa e seu poder lhe vem do filho que a protege. Do mesmo jeito, o Rei israelita tem várias esposas, concubinas e donzelas, mas é a mãe do rei quem ocupa um lugar especial.
3) Assim, a(s) esposa(s) do rei israelita não tem a ascendência que as rainhas têm sobre seus maridos, por exemplo, em culturas circundantes. Provavelmente, porque a casa real de Israel reproduz a unicidade do Deus único, sem contrapartida divina feminina, como de fato acontece em outros reinos vizinhos com as deusas Ishtar ou Ashtarté.
4) No Antigo Testamento não se usa o feminino de “melek” (rei), pelo contrário, na corte de Judá é oficial a “Gebira”, a mãe do rei. Este título tem dignidade e poderes especiais.
5) “Gebira”, de GBR, significa “a Poderosa”.
6) Maria, a Mãe de Jesus, foi recebida e venerada na comunidade primitiva de Jerusalém, como Gebira, Mãe do Rei-Messias, dentro da compreensão cultural tradicional da realeza israelita.
7) A lembrança dos “irmãos do Senhor”, como Tiago, só tem sentido se, ao seu lado,  como autoridade genealógica, tem a Gebira. Tiago e os “irmãos” de Jerusalém precisam de Maria, a Mãe de Jesus, para instituírem sua autoridade eclesial como sucessores de Jesus, dentro da tradição oriental (estilo califato). Sem a “Mãe do Senhor”, não faria sentido para ninguém em falar em “irmãos do Senhor”, pois toda a dignidade da mãe vem do rei, isto é de Jesus, e, por meio dela para os chamados “irmãos”.
8) Com isto estamos chegando aos princípios da Igreja-mãe de Jerusalém que encontrou em clave israelita (de monarquia judia) os elementos fundamentais da realeza de Jesus.
9) Paulo, apesar das diferenças com a comunidade de Jerusalém, porém, não duvida da autoridade primeira desta Igreja, nem de Tiago, o irmão do Senhor, na linha messiânica israelita.
10) Questionamentos sobre a consideração de Maria e da família de Jesus, não faltaram desde o começo:
a)  Marcos, que escreve para gentios, se vê obrigado a contra-restar a influência dos cristãos judaizantes: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Aqueles que fazem a vontade de meu Pai são, meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Assim, pois, não é a família de Jesus quem detém a autoridade.
b)  Mateus e Lucas copiam a Marcos. Porém, já são outros tempos e com outras finalidades e para outros possíveis leitores que eles escrevem. Jerusalém já havia sido destruída. Conseqüentemente a influência do judeu-cristianismo jerosimilitano primitivo deixa passo para outras comunidades da diáspora. O evangelho da infância de Jesus (capítulos 1 e 2) em Mateus constata com tristeza a rejeição de Jesus por parte de seus patrícios, enquanto o evangelho da infância de Lucas destila a alegria da acolhida de Jesus pelos pagãos. Assim Lucas, o terceiro dos evangelhos sinóticos, sente-se na obrigação de devolver sua mensagem às origens judaicas: por exemplo, no encontro de Maria com Isabel, Maria é proclamada francamente como Mãe do Senhor (“kyrios”), pois ela é a Gebira. E o cântico do Magnificat coloca a Maria no lugar especial de veneração da Mãe do Rei messiânico. Assim Lucas resgata a experiência fundante de Jerusalém.
c)   Para João, Maria é a nova Eva, a Mulher nova, da nova Aliança. Há um claro progresso teológico na compreensão de Maria que é colocada teologicamente no primeiro sinal de Jesus, quando manifestou a sua glória nas bodas de Cana da Galileia, transformando a água das purificações judaicas (que por este sinal são abolidas), no vinho novo da Nova Aliança com Deus por meio de Jesus, que é quem nos purifica. E na manifestação plena de sua glória, no último sinal, que foi sua cruz, onde a Nova Aliança no Corpo e no Sangue do Senhor, torna-se o sinal maior do amor salvador de Deus. Neste momento a Mãe do Senhor se torna a Mãe da nova humanidade, por causa da Palavra Jesus na cruz ao discípulo amado: “filho, eis a tua mãe”
11)   A partir do século II nos chamados evangelhos apócrifos (ou extra-canônicos) também encontramos belos relatos sobre Maria, como sua infância, defesa de sua virgindade, sua dormição ou passagem para o céu, etc. É claro que os historiadores, por regra geral, nos dizem que são relatos fantasiosos. Mas é claro também que, a presença de Maria na piedade daqueles primeiros e singelos cristãos foi dando forma à veneração por Maria, a Mãe do Rei e Senhor Jesus que perdura até hoje sob tantas formas.
12)   No concílio de Êfeso, no ano 431, foi declarada “Mãe de Deus”, dentro dos questionamentos cristológicos da época.

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