Marina incorpora ao ‘marinês’ o discurso econômico de Campos

A presidenciável Marina Silva tem se mostrado cada vez mais à vontade para discutir economia, tomando para si, inclusive, frases repetidas constantemente por seu ex-companheiro de chapa

A candidata Marina Silva (PSB) durante debate dos presidenciáveis promovido pelo SBT. Foto: Divulgação
A candidata Marina Silva (PSB) durante debate dos presidenciáveis promovido pelo SBT. Foto: Divulgação

A candidata pelo PSB à Presidência da República, Marina Silva, dá sinais de que incorporou à sua oratória as questões econômicas que faziam parte dos discursos de Eduardo Campos, seu companheiro de chapa morto em acidente aéreo em 13 de agosto. Conhecida por defender o meio ambiente e questões sociais, a ex-senadora tem agora concentrado boa parte de seus discursos em economia, falando sobre o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a inflação elevada e a situação crítica enfrentada pelo setor energético. Nos últimos dias, quando participou de debates, entrevistas e agendas públicas, Marina repetiu algumas vezes que Dilma “vai entregar o Brasil pior do que recebeu”, uma das frases preferidas de Eduardo Campos na hora do embate com a candidata petista.

Durante sabatina promovida pelo jornal O Estado de S. Paulo na tarde de terça, em crítica ao governo Dilma, que tem colocado a culpa da contração do PIB na crise internacional, Marina dedicou boa parte de sua argumentação à condução da economia. “Eu acho que abrir mão de política econômica é criar um ambiente de insegurança como o que nós temos hoje. Todos os países que entraram em crise em 2008 já começaram a se recuperar e o Brasil, que diziam que era apenas uma marola, está sendo tragado, com o risco de ser tragado por um tsunami. Exatamente porque não fez o dever de casa”, disse.

A preocupação com a área econômica se traduziu num capítulo detalhado do programa de governo apresentado por Marina na última sexta-feira. No texto, as promessas vão desde a autonomia formal do Banco Central, criação de um comitê fiscal e compromisso com o tripé macroeconômico – formado por metas rígidas de inflação e superávit primário e câmbio flutuante. Esses pontos foram vistos de forma positiva pelo mercado, como sinalização de correções na condução econômica do país, que está sob forte intervenção estatal e é penalizada pelo afrouxamento das metas de inflação e fiscal.

Na sexta, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a economia brasileira encolheu 0,6% no segundo trimestre, colocando o país em recessão técnica, Marina disse que o resultado do PIB é muito preocupante e assumiu compromissos para tirar o Brasil da atual situação.

As chances de Marina vencer as eleições – e, principalmente, de que a presidente Dilma Rousseff seja derrotada nas urnas –  têm animado o mercado: o Ibovespa registrou o melhor desempenho para o mês de agosto desde 2003, com valorização acumulada de 9,78%. O resultado tem se refletido positivamente no câmbio e o dólar tem mantido uma trajetória de queda, na casa de 2,20 reais.

A defesa por medidas ortodoxas na economia tem rendido também críticas de seus adversários na corrida presidencial. O candidato tucano Aécio Neves sugeriu que as propostas para a economia apresentadas por Marina são uma cópia do que ele e seu partido defendem. Já alguns nomes do PT têm dito que Marina, que foi filiada ao partido por trinta anos, ‘endireitou’. Na terça, o senador petista Humberto Costa chamou Marina de “FHC de saias”, uma inversão do apelido de “Lula de saias”, que ganhou por ter trajetória de vida com pontos em comum com o ex-presidente Lula. Marina tem combatido as críticas valendo-se da retórica do fim da “polarização”. “Acho que o Brasil precisa avançar para uma institucionalização das conquistas dos brasileiros. A estabilidade econômica, que começou no governo Fernando Henrique, deve ser referenciada nesse governo, mas não pode mais ser a política do Aécio ou do Fernando Henrique”, disse, exemplificando também as medidas na área social. Coisa semelhante aconteceu com Campos: ao defender pontos em comum com o PSDB, especialmente no meio econômico, o ex-governador chegou a ser criticado por não se mostrar um candidato distinto de Aécio, com quem costumava ter uma relação amistosa.

Energia

Um dos pontos que aparecem com frequência nas falas de Marina, e que costumavam estar na boca de Campos, são as críticas ao setor energético, especialmente à Petrobras. O ex-governador de Pernambuco chegou a afirmar que a presidente Dilma “tem tudo a ver” com a crise da Petrobras, que enfrenta problemas financeiros e está no centro de uma série de escândalos, como a compra da refinaria de Pasadena e a Operação Lava-Jato. Sobre o represamento dos preços dos combustíveis, controlados pelo governo para evitar uma alta ainda maior da inflação, Campos também disse que Dilma havia “guardado na gaveta” o aumento da gasolina para depois da inflação.

Marina tem repetido o discurso: diz que a Petrobras não pode ser utilizada politicamente e que as contas dos combustíveis “já sobraram para o povo”. Após o debate promovido pelo SBT na segunda-feira, a ex-senadora afirmou que Dilma, que sempre esteve ao lado das estatais, é a responsável pelas perdas da petroleira. “Ela, que tanto defendia a proteção das estatais brasileiras, colocou a Petrobras numa situação de muita dificuldade. A grande ameaça ao pré-sal, a que ela tanto se refere, é a ameaça que ela mesma representa”, disse em resposta às críticas feitas pela petista de que Marina subestimou a importância do pré-sal em seu plano de governo.

Fonte: Veja

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