Maroleiro é o ca…! Medina enterra “complexo de vira-lata”

Medina obteve médias próximas ao máximo de 20 possíveis

Medina faz festa com título. Foto: Divulgação
Medina faz festa com título. Foto: Divulgação

A vitória de sua terceira etapa no ano e a aproximação do título mundial inédito para o Brasil já fazem parte da história do surfe nacional. Mas Gabriel Medina fez ainda mais pelo segundo esporte mais praticado no País: enterrou de vez a fama de que brasileiros são maroleiros, vão bem só nas merrecas e caem de produção em ondas de respeito. O complexo de vira-lata, expressão cunhada por Nelson Rodrigues para se referir ao futebol brasileiro pré-título de 1958, enfim foi exorcizado no circuito de surfe, 56 anos depois.

Bater o 11 vezes campeão do mundo Kelly Slater em uma final eletrizante e de nível altíssimo é o de menos diante da campanha ao longo da etapa que para muitos foi uma das melhores da história. À exceção da primeira fase, quando fez 14,33, Medina obteve médias próximas ao máximo de 20 possíveis. Surfando como um campeão em ondas de até 5 metros, o brasileiro enfileirou vitórias com pontuações que variaram do 17,37 na quarta fase ao 18,96 na final contra Slater.

Por que ganhar em Teahupoo é especial?

O pico no Tahiti não tem as maiores ondas do mundo, mas concorre cabeça a cabeça para ser a mais temida. Grandes, extremamente cavadas e com uma bancada de coral muito rasa, chegando a menos de 1 m de profundidade nos dias mais críticos, as ondas produzem uma força descomunal e um volume de água não visto em outras localidades.

Para se ter uma ideia do poder do pico, o site da entidade que organiza o circuito mundial, a ASP, publicou 15 razões para se temer Teahupoo: desde o drop (descida da onda), passando pela turbulência para manter a prancha nos pés e até mesmo para sair dela. As quedas registradas no local causam apreensão nos mais experientes surfistas…

Os chamados

O tamanho das ondas varia muito em Teahupoo. A partir de seis pés (2 m), já são consideradas perfeitas para a prática do surfe. Mas o tamanho

Quando passa dos 12 pés, surfar Teahupoo acima remando com o braço, sem auxílio de jet-ski, fica praticamente impossível. A modalidade de surfe tow-in ganhou projeção nos últimos anos para explorar ondas acima do que um braço consegue. Para conseguir entrar, o surfista segura em uma corda presa a um jet-ski, que

Às vezes, o melhor caminho é mesmo desistir da onda. Michael Lowe voa de uma onda que poderia muito bem esmagá-lo. Foto: Getty Images

A mesma sorte não teve Neco Padaratz. Em 2000, o brasileiro quase morreu em Teahupoo. Depois de uma queda em uma onda não tão grande, Neco ficou submerso, preso à bancada de corais por um longo tempo, que ele mesmo não consegue estimar. Foi resgatado quando já estava quase sem fôlego. Foto: Getty Images

Por que ganhar em Teahupoo em 2014 foi ainda mais especial?

Disputada desde 1999 como parte do circuito mundial de surfe (WCT), a etapa de Teahupoo não é garantia de ondas de alta qualidade em todos os anos. Tanto que em meados do ano 2000 houve uma mudança no período de disputa de maio para agosto exatamente em busca de melhores condições. A irregularidade do pico produziu etapas históricas, como a vencida por Kelly Slater em 2011, mas nunca com uma regularidade de tamanho e qualidade como neste ano. Nunca. Não à toa a palavra “épico” foi a mais usada para se referir à edição que teve sempre à disposição ondas perfeitas de no mínimo 3 metros.

Mas por que um brasileiro ganhar em Teahupoo em 2014 foi mais do que ser ainda mais especial?

Esta vale uma resposta direta: porque acaba de vez com qualquer insinuação de que brasileiro no circuito mundial é maroleiro. É verdade que as ironias de gringos já eram bem menores ultimamente com as performances cada vez mais contundentes dos “brazucas” em ondas grandes. Bruno Santos inclusive ganhou em Teahupoo em 2008. Mas as condições estavam bem mais fracas, com final disputada em ondas de até um metro. Gabriel Medina ganhou no local como líder do ranking, enfrentando os melhores neste tipo de cenário e em um mar que ficará eternizado como um dos melhores da história. E sempre pontuando muito alto, sem espaço para contestações.

Medina surfou como se tivesse nascido no Havaí ou na Califórnia. Não que Maresias, local onde construiu sua vida e deu os primeiros drops, seja um pico ruim. Pelo contrário: sem discussão a praia do Litoral Norte paulista está no top 5 em ondas de qualidade no litoral brasileiro. Mas a constância de condições épicas em picos do País, em geral, é irrisório perto de outras praias famosas do mundo. O fundo de areia, comum no Brasil, não costuma segurar grandes ondulações: quando o mar sobe, muitas vezes a formação das ondas atrapalha.

Esta realidade persegue os brasileiros na história do circuito mundial de surfe. Não faltaram performances e resultados de respeito do País desde a década de 70, quando surfistas como Ricardo Bocão e Pepê Lopes davam a cara a bater no Havaí e não faziam feio. Fábio Gouveia, Teco e Neco Padaratz, Peterson Rosa, Renan Rocha, Raoni Monteiro, Adriano Mineirinho… Injusto limitar os brasileiros que ajudaram a combater esta fama com desempenhos elogiados em qualquer condição, inclusive com vitórias emblemáticas. Isso sem falar de Carlos Burle, Maya Gabeira e outros competidores de ondas gigantes que fizeram o nome quando o mar realmente fica enorme.

Mas nunca, no circuito mundial, um brasileiro teve tanta constância em resultados e performances como Gabriel Medina: seja nas merrecas, seja em ondas como a de Teahupoo. O líder do ranking ganhou na Austrália, em Fiji e no Taiti neste ano. Sempre em condições de gala. Medina estreou no WCT com 17 anos, mas desde garoto viajava para os melhores picos do mundo e está acostumado a qualquer condição. Não há surpresas para ele. E nem para seus adversários. Quando está em uma bateria, Medina entra como favorito seja em ondas de centímetros ou de 5 metros.

E por que ganhar o título mundial pode ser cinco vezes mais especial?

Se Medina confirma a vantagem nas quatro etapas restantes, será inédito para o Brasil um título. Será um título conquistado com vitórias nas ondas que realmente definem um campeão. Será a certeza de que o Brasil tem condições de brigar com Austrália e Estados Unidos – incluindo Havaí – como principal potência do mundo no esporte. Mas mesmo que perca, uma coisa já é garantida: nunca mais chamem um brasileiro do circuito mundial de surfe de maroleiro!

Fonte: Terra

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