“A máscara da África” deveria ser lido por políticos que barganham eleições 2014

Vencedor do Nobel V.S. Naipaul percorreu países africanos para contar histórias que parecem saídas do interior do Rio Grande do Norte ou da periferia de Natal

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

De 1980 a 1988, eu morei no Alecrim, na rua Ary Parreiras (via que cruza a vila e a Base Naval). Durante meu último ano no endereço alecrinense, estudei no Instituto Sagrada Família, na Avenida Coronel Estevão, o que me obrigava a passar, todos os dias, no caminho de volta pra casa, em frente à famosa feira.

No trajeto, enfrentava calçadas quebradas, gritaria dos vendedores em autofalantes vagabundos e encontrões dos mais apressados. Mas nada incomodava tanto como o cheiro exalado das carnes penduradas, expostas ao sol, nos boxes da feira. Passar por aquela névoa pestilenta de sangue e vísceras era terrível.

Naquela época, 25 anos atrás, boa parte do Rio Grande do Norte tinha desenvolvimento humano semelhante às regiões mais miseráveis da África atual – até hoje, municípios como Venha-Ver, Jandaíra e Parazinho oscilam entre uma Botsuana e a República do Congo.

No entanto, se o crescimento econômico retirou uma parcela significativa de potiguares da barbárie, aumentou a distância entre ‘civilizados e ignóbeis’, além de mostrar o quanto a vileza e a corrupção estão arraigadas em algumas famílias que dominam o Estado há décadas.

O sujeito passa com um carro importado por cima de fezes transbordantes das fossas medievais e vê crianças imundas e esfomeadas sem pudor. Lendo “A Máscara da África” (Cia das Letras), do Nobel V.S. Naipaul, vislumbrei o quanto nossas histórias são similares – políticos em campanha são cercados por pidões do mesmo jeito que africanos com forasteiros.

Lá, iniciado o processo de independência, no final dos anos 1950, uma corja de ditadores, sempre populistas, carismáticos e magnânimos, aliou-se ao capital estrangeiro para espoliar recursos naturais em permutas bilionárias que fossilizam a população na miséria absoluta.

Aqui, meia dúzia de paquidermes se alterna no poder, trocando apoios e contratos que asseguram a manutenção das castas; enquanto periféricos são iludidos com cursos de garçom e costureira, pavimentações simplórias de ruas não saneadas e hospitais gambiarras.

Naipaul mostra como o catolicismo e o islamismo esfacelaram tradições locais, reforçaram o mito da violência e implantaram a resignação na sociedade africana. No percurso de 43 anos (entre 1966 e 2009), duas grandes viagens por países como Gana, Nigéria, África do Sul, Uganda, Costa do Marfim e Gabão o surpreenderam e confirmaram o nó górdio dado por colonos ávidos por ouro, escravos e marfim.

Como na África, ainda comemos preás, tejos, bodes, tatus; vemos carroças conduzidas por jumentos que defecam nas ruas; a influência do capital e dos valores externos embriaga os profetas que alardeiam um futuro de glórias; sobram riquezas naturais, localização estratégica e gente acolhedora; e a passos de elefante avançamos com lentidão, pesados, titubeantes.

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