MC Priguissa sai do Mosquito para gravar DVD ao vivo em Ponta Negra

Priguissa faz um som chamado de raggamuffin, mistura jamaicana que usa uma batida eletrônica

Rafael Harrison, o MC Priguissa, faz um som chamado de raggamuffin, mistura jamaicana que usa batidas eletrônicas para acelerar ritmos como o reggae, hip hop, dancehall. Foto: Divulgação
Rafael Harrison, o MC Priguissa, faz um som chamado de raggamuffin, mistura jamaicana que usa batidas eletrônicas para acelerar ritmos como o reggae, hip hop, dancehall. Foto: Divulgação

Conrado Carlos
Editor de Cultura

No começo dos anos 1980, Indiana Jones consagrava Harrison Ford como estrela hollywoodiana. Depois de papéis menores em American Grafitti (1968), Apocalipse Now (1977) e no quarto episódio de Guerra nas Estrelas (1977), em que seu Han Solo teve certo destaque, Steven Spielberg o chamou para interpretar o professor de arqueologia que abandonava a academia para se aventurar nos recantos mais inóspitos do planeta. A trilha sonora, o chicote e a estética de Caçadores da Arca Perdida lotaram salas de cinema do Alasca à Papua Nova Guiné. Amanhã (11), na hora em que Rafael Harrison Pereira Campos cantar a primeira estrofe no show armado para gravar um DVD, uma metamorfose às avessas justificará a escolha de seu sobrenome feita por sua mãe 27 anos atrás. Da Favela do Mosquito para Ponta Negra, ele se transformará no MC Priguissa, um dos principais fenômenos da cultura periférica de Natal. Ontem à tarde (09), eu e o foto jornalista José Aldenir estivemos no local onde os urubus têm asas e a miséria emoldura a paisagem.

Nosso encontro foi marcado no areal ao lado da Compal, a empresa de sucata e aluguel de guindastes que prenuncia a zona Norte, perto da ponte velha. De longe avistamos o cabelo rastari de Priguissa, que arriscava chutes tortos no aquecimento para a pelada. Cumprimentos de boas vindas nos lançou em direção à avenida João Medeiros Filho, para entrarmos no ‘ecossistema’ da favela que margeia a linha do trem. Segundo ele, são 300 famílias que se espremem em moradias estreitas, cujos quintais deságuam numa lama fétida. “Toda eleição aparece alguém aqui prometendo que vai mudar isso, mas desde que nasci é desse jeito aí”.

Tínhamos entrado em um beco e víamos crianças descalças, sujas, em meio a podridão onipresente. Uma menina que aparentava uns seis, sete anos, ao nos ver, falou para Priguissa que na noite anterior sua “mãe chorou muito quando a polícia veio aqui e levou pai”.  Batidas policiais são frequentes, “Uma vez eles vieram aqui e bateram até em mulher e criança. As pessoas não denunciam com medo”, diz o músico.

Priguissa faz um som chamado de raggamuffin, mistura jamaicana que usa uma batida eletrônica para acelerar ritmos como o reggae, hip hop, dancehall, funk, reggaeton e tudo o que o Caribe tem a oferecer para sacudir a medula dos mais dispostos. Seus shows têm belos exemplares da fatia mais delicada da humanidade, que travam verdadeiros duelos para ver qual está mais afiada numa espécie de dança do acasalamento. Da cultura alternativa, juntamente com a banda DuSouto, é quem atrai mais pessoas em suas apresentações. E ambos os nomes estarão na Pepper’s Hall, no sábado, a partir das 22h30. “Já toquei em São Paulo, no Paraná, mas aqui é o canal para mim. Uso as gírias daqui, porque antes a galera do rap, da qual fiz parte, falava ‘mano’, ‘brother’, palavras que ninguém usa na periferia de Natal”. Ele despontou com Essa Bóe, uma ode a uma gostosa da terra do sol que, segundo um Priguissa sorridente, “casou” – de imediato, lembra que tem uma relação de sete meses com uma menina.

O leitor de O Jornal de Hoje talvez desconheça essa música, mas saiba que ela é um ‘clássico’ em festas que costumam reunir até duas mil pessoas. Temas como “Mulher Verão”, “Amor bandido” e “Esse homi é um galado” são entoadas por jovens que se identificam com a linguagem do gueto. E curiosamente, foi com parte da classe média natalense que Priguissa emplacou. “Eles acham as letras um pouco inteligentes e gostam de dançar. A galera da periferia acha estranho ainda, mas está chegando”. Sem presença em rádios e parcerias com promotores de eventos maiores, ele concentra forças na internet (uma mídia incipiente entre os mais pobres). Seu set com 22 musicas totaliza 67 minutos. Acompanhado por um DJ e um guitarrista, faz em média um show por semana. O DVD, bancando com recursos próprios e a ajuda de amigos, como Jubileu Filho, terá imagens captadas por sete câmeras. A ideia é ter material para iniciar um trabalho profissional de divulgação.

Conversávamos com os pés na lama, na hora em que dois meninos se aproximaram, curiosos com os estranhos. “Pra quê esse isopor aí?”, perguntou Priguissa a um deles. “É pra pegar gato”. “Pegar gato? Pra quê? Vai matar os bicho?”. O garoto ficou sem graça e deu a entender que era só para ter o que fazer. Uma brincadeira infantil para quem falta tudo. Pai de uma criança com um ano de idade, o MC é um ex-funcionário da Vicunha – seus pais e duas irmãs trabalham na fábrica da Guararapes. O filho mora com a mãe em Ponta Negra e está com catapora. “Mas ele vive aqui comigo, vem direto”. Aluno de direito em uma faculdade particular, ele avisa que as próximas músicas serão mais “radicais”, com letras que amplificarão os problemas do arrabalde. Um cachorro esquálido late sem parar e atrapalha a entrevista. Voltamos à frente da Favela do Mosquito (metros antes do posto da Polícia Rodoviária Estadual), onde um salão de beleza bem estruturado destoa da vizinhança.

Rafael Harrison ganhou o apelido de Priguissa por motivos óbvios. Chegava cansado aos ensaios de uma antiga banda de rap, após o expediente na indústria têxtil. “Eu cantava sentado, enquanto todo mundo ficava em pé. Aí começaram a me chamar de preguiça. Como eu não gostei do apelido, ele pegou”. As casas rachadas denunciam efeitos do trem que passa a poucos metros. Antigas reivindicações foram feitas durante a participação que ele fez na campanha do deputado estadual Fernando Mineiro (PT) à prefeitura de Natal, em 2012. A gravação de um vídeo gerou criticas na internet. “Eu queria que ele tivesse ajudado pelo menos o povo daqui a ter banheiro, mas até agora nada”. Voltamos ao campinho da Compal. Chegou a hora de Priguissa bater bola. “Eu jogo desse lado, o do sol, onde ninguém quer ficar. A galera olha para mim e pensa que sou muito doido, que fumo maconha e tal. Mas eu não fumo nada e bebo muito pouco”. Como Indiana Jones, sua aventura está apenas começando.

 

Peça
De volta ao Teatro Riachuelo no próximo dia 25, o espetáculo “Minha mãe é uma peça” com o ator Paulo Gustavo promete repetir o sucesso das últimas apresentações em Natal. A sessão principal do espetáculo já está com a casa cheia. Ainda assim, a procura por ingressos continua grande.  Para atender o público que não quer perder a chance de assistir ao espetáculo, sucesso de bilheteria em todo o país, foi aberta uma sessão extra no mesmo dia, às 19h. As vendas acontecem na bilheteria do próprio teatro.

Arena Ecomax
Nesta sexta-feira (10), na Arena Ecomax, na praia de Pirangi, duas atrações de ritmos distintos animarão a juventude dourada que veraneia por lá. Aviões do Forró e Revelação darão o tom da noite, que ainda terá André Luvi e The Vibe, do Ceará. Os ingressos podem ser adquiridos na Equus, no Midway, e no stand da Ecomax, na própria praia de Pirangi. “Ah, mas você disse pouca coisa sobre a festa!”. Então liga no 3620-5262 que o pessoal terá prazer em orientá-lo.
 
Sedentários, uni-vos!
É amanhã (11) que a praia de Pirangi será palco de mais uma edição do Outdoor Training, evento que segue a tendência nacional de treinamentos funcionais em espaços abertos. A programação oferece para os participantes uma verdadeira festa de diversão, saúde e movimento. Os últimos kits para participar do evento estão à venda na Revivave, clínica e SPA (Rua Joaquim Fabrício 709, Petrópolis) e no site oficial www.outdoortrainingbrasil.com.br.  Mais informações: (84) 8888-8580. Parabéns ao colega Chicão pelo sucesso.

Verão Legal
O Projeto Verão Legal 2014 será iniciado neste sábado (11), na Praia de Barra do Rio. Na programação, canoagem, aeróbica, cavalhada, arrancadão de cavalos, beach soccer feminino e masculino, concurso Garota Verão Legal 2014, Projeto Praias Limpas, e ações voltadas para a educação, meio ambiente e cultura. De acordo com o prefeito de Extremoz, Klauss Rêgo, a proposta do projeto é articular ações que proporcione atividades de lazer, esportes, cidadania e entretenimento aos moradores, veranistas e turistas das praias de Barra do Rio e Genipabu.

White Party
Quem for à quinta edição da White Party, no próximo dia 17, além de aproveitar atrações como o TOP Dj Mario Fischetti, nº 1 de House Music do Brasil e Thiago Farra, conhecerá também ações especiais que os patrocinadores da festa estão preparando. A concessionária STA Motors RN Mercedes-Benz irá apresentar alguns modelos da marca para os participantes do evento, como preâmbulo da loja natalense que será inaugurada em março. Os ingressos para a festa estão à venda nas lojas A Graciosa e no site www.ingressando.com.br.
 
Blog: Che e Rivotril
No blog www.conradocarlos.jornaldehoje.com.br eu comento a recente operação da polícia militar em Mãe Luiza para prender um sujeito conhecido como Rivotril. Com dezenas de homens, de vários batalhões, helicóptero, viaturas, armamento pesado e o djabo a quatro, eles correram para todo lado e não prenderam o bandido de 28 anos acusado de homicídios, tráfico de drogas e todo tipo de milacria. Sem investimentos na inteligência policial, sobrou espetacularização e incompetência.

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