Meia dúzia controla o gosto dos descolados de Natal com “bombou!”, “Amei!”…

Roupas, decoração da casa e restaurantes a serem frequentados são destaques

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Existe um livrinho manifesto que sempre recorro ao ver o surgimento de novos dogmas estéticos. É “A Palavra Pintada”, de Tom Wolfe. O sujeito foi um dos fundadores do new journalism e um dos principais cronistas da opulência e da futilidade dos abastados americanos – em “A Fogueira das Vaidades” e “Radical Chic e o Novo Jornalismo”.

Em “A Palavra Pintada”, ele parte de uma edição dominical do The New York Times, em que um crítico detona a pintura realista por carecer de uma teoria convincente, para dissecar os meandros do mercado da arte – regido por um pequeno grupo que aponta o relevante e o descartável. O texto é rico e espontâneo, porém, extrapola o tema principal.

Serve perfeitamente como uma analogia sobre os ditames da moda atual. E quando me refiro à moda não falo somente do vestuário, mas o controle imposto por caciques de aldeias arquitetônicas, decorativas de interiores, turísticas e gastronômicas. São pessoas com poder de convencimento que impõem gostos aos passivos endinheirados.

Quem já foi em um desses condomínios de casas da classe média ou alta, sabe do que estou falando. As moradias seguem o mesmo padrão, com projetos e mobílias semelhantes, como um sonho do subúrbio americano no coração do Nordeste Profundo. Desde o conceito até os materiais utilizados, predomina o que está no catálogo, a último assunto em modernidade.

Dentro das casas dos Gardens/Parks/Bosques nomes pomposos como cooktops e chases registram o suprassumo dos antenados. Dispostos a torrar milhares de reais na preservação da simbologia ‘burguesa’, eles mostram com clareza de qual lado estão na anteposição In & Out – mesmo que para isso sufoquem o orçamento.

Na Moda propriamente dita, a coisa piora, com o risível aparecendo em cada esquina na figura de balofos e empenadas a envergar roupas do par romântico da novela. “Se calças e shorts com cintura alta é a bola da vez, usemos, pois”. A cada passo, maneirismos ajustam a peça no corpanzil e mantém o equilíbrio em saltos desproporcionais, contrariando a lei do conforto nas aquisições.

Destinos e restaurantes badalados também entram na conta dos ‘inseridos’. Wolfe dizia que as obras dos movimentos estéticos da primeira metade do século 20 só existiam para ilustrar textos teóricos – como o hype dos modernosos atuais, que priorizam o que está sendo falado, em detrimento do verdadeiro prazer (particular, único, livre de imposições).

A roupa mais bonita de todos os tempos deste verão adorna uma elite despojada, ligada nas diretrizes da Oscar Freire e do Leblon – assim como, segundo Wolfe, dez mil indivíduos de Nova York, Paris, Londres e Berlim determinavam o que deveria ser consumido nas artes. Da caverna de Platão ao Espaço Gourmet, contemplamos com gargalhadas e admiração a mudança de valores a cada temporada.

Uma bacana come em um restaurante e registra o momento (mais um!) em seu celular. Logo suas redes sociais estão repletas de curtidas e comentários, como “Amei!”, “Bombou”, “Aí que tudo!”. O lugar vira referencia, com a crítica gastronômica da ‘descolada’ – geralmente alguém que navega nas águas mornas e tranquilas desbravadas pelo pai.

O que vão achar é muito mais importante do que o que eu estou achando, para essa gente que não perde uma oportunidade de emitir futilidade – dizer no perfil virtual que é daqui, mas que está morando em outra cidade é uma delas; ou revelar onde está, durante uma viagem, mesmo sem ter sido perguntado a respeito. É assim que essa turma pinta seu quadro para expor aos iguais e seguidores.

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