No meio de nós – Rubens Lemos Filho

Ninguém endurece contra o racismo. Ninguém falará em mais 15 dias na humilhação do goleiro Aranha do Santos, chamado de…

Ninguém endurece contra o racismo. Ninguém falará em mais 15 dias na humilhação do goleiro Aranha do Santos, chamado de “macaco” por uma pústula sentada na luxuosa arena gremista em Porto Alegre. O racismo dói na alma, não sangra na carne nem carece de esparadrapo.

Aranha reagiu numa dignidade guerreira. Exigiu postura do árbitro. Berrou de revolta, bateu forte no peito, desnudou do razoável jogador o caráter extraordinário do macho verdadeiro, do homem sem medo na atitude, sem vestígio da brabeza de fancaria.

Aranha, registre-se nos cartórios da verdade, é negro. Afrodescendente é invenção militante e tão preconceituosa quanto a víbora travestida de torcedora. Imploro que ela não seja mãe, pelos filhos, candidatos a segregadores, campeões da maldade em primeiro turno.

A agressora exibe a fúria perniciosa de Hannibal Lecter, o personagem calculista e canibal do cinema, na expressão gratuita do ódio. A Ira é pecado legítimo quando usada na preservação da vida. Na covardia, é bastarda. Bastardos são inglórios, ensina outro filme.

O caso vai sobreviver na mídia enquanto gerar audiência. O racismo é crônico igual alergia fascista. É um baile de máscaras hipócritas.Gritar com garçom, humilhar porteiro, dividir ser humano por elevador social e de serviço. Achincalhar o macaco, animal de travessura, de gargalhada.

Racismo é o substantivo de tudo. Está, sorrateiro ou pútrido como na agressora do goleiro Aranha, todo dia, a cada hora, no meio de nós.

 

Decadência italiana

Rogério Tadeu Romano

Procurador da República

 

Foi justa a homenagem prestada a Altafini Mazzola, durante as comemorações dos 100 anos do clube esmeraldino.Altafini Mazzola foi craque, um excelente atacante. Vendido pelo Palmeiras ao Milan, já no final da década dos cinquenta.

Mazzola, juntamente, com Dino Sani (que veio do Boca Junior, após jogar no São Paulo), Germano (que jogou no Flamengo e fez sucesso no ano de 1961 e início de 1962) e finalmente Amarildo, brilharam no futebol italiano, defendendo o Milan, que foi campeão da Europa, na temporada de 1962/1963, vencendo ao Benfica. A eles se somavam craques como Trapatoni, Maldini, Rivera, que era chamado o menino de ouro.

Prosseguia o futebol brasileiro a revelar para o futebol italiano, no pós-guerra, craques, que se notabilizaram por sua técnica, como Dino da Costa, Vinícius, e tantos outros, já na década dos cinquenta e que se somavam aos craques uruguaios, da Celeste Olímpica, que fulminaram a seleção brasileira, na Copa de 1950, estrelas argentinas como Omar Sivori.

Posteriormente, a Inter de Milan, à época de Sandro Mazola, e tantos outros, tinha, na ponta direita, Jair, reserva de Garrincha, na Copa de 1962. Com um time bem armado defensivamente, e com um técnico especialista em ganhar títulos, foi campeão italiano e ganhador da Copa de Clubes Campeões.

Mazzola e tantos outros são exemplares do chamado período de ouro do futebol italiano.

Com o fracasso da Itália, na Copa de 1966, ficaram suspensas as contratações, apenas reabertas, no final da década dos 70 e, principalmente, em 1980, quando Falcão (foto) foi contratado pela Roma ao Internazionale.

Abria-se, na Itália, um verdadeiro Eldorado, que levou para lá, verdadeiros craques como: Zico, Júnior, Toninho Cerezo, além de Casagrande, Muller, e tantos outros. A eles se somavam estrelas holandesas de primeira grandeza (Gullit, Van Basten), que levaram o Milan ao patamar de melhor do mundo no final dos anos 1980, após a Juventus, com Platini, Boniek, pontificar no calcio e no Velho Continente.

A Seleção Italiana tinha, por sua vez, Paolo Rossi, de triste memória para o nosso futebol, e a turma que ganhou aquela Copa de 1982, que tinha muitos jogadores integrando a equipe de Turim.

Na década dos 90 e no inicio do século, eram emocionantes as partidas pelo campeonato local, com a participação de jogadores brasileiros que, na Roma (Cafu, Antônio Carlos, Aldair e outros), no Milan (Dida, Serginho, Leonardo, tantos outros), na Inter (Ronaldo Fenômeno) se somavam a alemães, ingleses, que levaram a Liga Italiana ao destaque no continente europeu.

Tal década foi iniciada pelo sucesso da Napoli, um dos melhores elencos da época no continente europeu, que foi impulsionado pelo fenômeno Maradona, que levou o seu time, que ainda contava com Careca (um excelente ponta de lança, que jogou no Guarani, São Paulo e Seleção Brasileira, nas Copas de 1986 e 1990), ao titulo peninsular na temporada 1989/1990.

A Inter de Milan, com José Mourinho, num time que tinha Lúcio, Júlio Cesar, Etto, foi o último time a conquistar vitória importante. De lá para cá, a Itália perdeu postos, na Europa, para a Alemanha e hoje para Portugal.

Tem, hoje, a Itália, dois times classificados diretamente para a Champions League, ao invés de três, no passado.

Após a conquista do Mundial em 2006, jogando um futebol de resultados, vê a Itália o Milan, não classificado para qualquer competição europeia, observa apenas a Juventus, que foi eliminada pelo Benfica, na semifinal da Liga Europa, como seu melhor time. Estrelas como o Super Mario estão tendo seus passes negociados para outros países, como é o caso da Inglaterra, que tem uma liga de futebol forte ao contrário de sua seleção.

A decadência do futebol italiano parece espelhar a de sua economia, que vive, como todo o continente, seria crime econômica, que hoje a leva a deflação, com desemprego e outras consequências.

Pelo menos lá, diante da fraca campanha apresentada na Copa do Mundo do Brasil, o técnico pediu para sair. A experiência de recuperação do futebol italiano, que deve ser pautada em soluções empresariais, pode ser um exemplo para o futebol brasileiro, que vive a maior crise de sua história.

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