Mendigos ocupam obra abandonada de Oscar Niemeyer

Sem presença do poder público, moradores de rua disputam espaço entre estandes construídos para receber exposições de artistas locais. Foto: Heracles Dantas
Em sua edição de 02 de maio de 2012, O Jornal de Hoje, com a reportagem “Presépio de Natal continua em total estado de abandono”, denunciou o abandono de uma obra que custou R$1,7 milhão e tem a marca Oscar Niemeyer na assinatura do projeto arquitetônico. Quase um ano depois, cinco moradores de rua ocupam estandes e transformam o aparelho público em uma residência para poucos. “Minha ‘casa’ foi feita por Niemeyer”, diz Denilson Nascimento de Sousa, jovem de 24 anos que deixou a casa da avó em Felipe Camarão há oito meses.
Na companhia de Manoel Messias da Silva e Jéssica Francisca da Silva, 52 e 24 anos, respectivamente, ele aproveita a falta de cuidado do poder público para morar em um local privilegiado. “Meu sonho é ter um emprego de auxiliar de cozinha. Estou aqui porque preciso, não tenho para onde ir. Com minha avó, não era tranqüilo, tinha regra, hora de dormir”, fala Denilson, analfabeto que desconhece uma escola, mas contemplado com o Bolsa Família.
Inaugurado em 2006, o espaço nunca funcionou em sua plenitude. Exposições derradeiras foram registradas em 2009. De lá para cá, pixações, lixo e vandalismo caracterizam o Presépio. Manoel veio do Rio de Janeiro, oito verões atrás, para trabalhar de pedreiro na construção do Midway Mall e resolveu ficar em Natal. Ele tem dois filhos pequenos (1 e 4 anos) que moram com um irmão, em Cidade Nova, e estava nas imediações de um bar em Lagoa Nova ao ouvir o convite de um amigo para “subir para o Presépio. Quando cheguei aqui [2012] isso aqui era tudo imundo. Já limpei muito e ainda tem coisa para ajeitar. A polícia está aqui todo dia para ver se alguém quebrou alguma coisa”.
Junto com sua companheira Jéssica, Manoel cata papelão, garrafas pet e qualquer material reciclável para sobreviver. A mulher de 24 anos, assim como Denilson, é analfabeta. Preocupada com o novo casal que ocupa uma sala ao lado da sua, ela fala em drogas, medo e agressões. “Ele [o homem conhecido como Grande, ausente durante o tempo em que a reportagem esteve no local] é arengueiro, usa crack, bebe e já me deu uma tapa na cara. Acho que ele é foragido. Tudo bem que todo mundo que mora na rua é desconfiado, mas aqui ninguém confia nele mesmo”.
Pastas responsáveis pela reestruturação do Presépio de Natal, a Secretaria de Estado de Infraestrutura (SIN) e a Secretaria de Estado de Trabalho, da Habitação e Assistência Social (Sethas) destoam no discurso acerca do futuro da obra. A assessoria de comunicação da SIN alega não ter recebido o projeto da Sethas com o objetivo de uso explícito, e que estaria sem dotação orçamentária para realizar a reforma. “A responsabilidade é toda da Sethas. Quanto à insegurança e vandalismo no local, tapumes poderiam evitar que pessoas usassem o espaço”.
Enquanto isso, o chefe da Sethas, secretário Luis Eduardo Carneiro, rebate com veemência a informação passada pela assessoria da SIN. “Inclusive eu estive com a secretária Kátia Pinto há menos de um mês para devolver o prédio, diante da demora de uma posição deles. Acertamos que vamos em busca de dinheiro em Brasília. Temos que ver como isso será feito, pois os ministérios com os quais trabalhamos não financiam esse tipo de obra, que tem cunho religioso. Sem a obra feita, concluída, não temos como fazer uma ação. Há mais de um ano eu pedi R$ 1 milhão, que é o valor necessário para deixarmos tudo pronto. Não queremos o Presépio, queremos o espaço para a sociedade”.
Notícias Relacionadas

