Mercenários às avessas
A saída de um jogador de futebol de um clube para o outro é geralmente tratada pelo crivo da paixão, pela maioria dos torcedores. Em má fase ou não, basta o atleta trocar de clube por uma proposta financeira mais vantajosa para receber a alcunha de mercenário e cair para sempre no conceito da torcida. A falta de fidelidade, dedicação ou ideais para com a agremiação do torcedor estão entre os maiores pecados passíveis de serem cometidos entre os boleiros.
Mas o que dizer, então, do elenco abecedista? Apesar das dificuldades dentro e fora de campo, os jogadores alvinegros têm se superado e provado que muito mais do que dinheiro, a honra ainda é uma característica presente num esporte em que os salários cada vez mais astronômicos tomam conta de corações e mentes. Com uma das equipes mais qualificadas da competição, ao menos no papel, a superação Alvinegra passa não apenas do ponto de vista técnico, mas principalmente pela questão financeira.
Mais de quatro meses de salários atrasados para a maioria dos jogadores e o elenco não deixou a peteca cair. Três vitórias, um empate e duas derrotas. Quarta colocação no Campeonato Estadual e ainda com chances de chegar à final do Primeiro Turno para disputar o título. A cada jogo, a expectativa vivida pelo torcedor era sobre quando o time iria “se entregar” aos problemas extracampo e perder a gana de buscar pontos e vitórias.
Até aqui, parece que essa gana tem sido alimentada pelo fogo, pela sede, pela vontade de mostrar que mesmo que o dinheiro seja fundamental, ainda não é o mais importante. Nas palavras do intelectual e filósofo alemão, Karl Marx, em que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, a metáfora não poderia ser mais adequada para definir o momento atual do clube potiguar.
Enquanto de certa forma, a expressão serve para mostrar que a até então sólida imagem de organização financeira e administrativa do ABC pôde ruir, ou no mínimo ser gravemente abalada, a atitude dos jogadores alvinegros é algo que contraria o pensamento do socialista e se prova imune a um ciclo de vida que teria fim no instante em que uma consulta de extrato bancário comprovasse o atraso nos pagamentos.
É fato que nos próximos 90 minutos que estiver em campo, a fixação por fazer o melhor, por si e pelos outros, pode ter um fim desfazer, mas por muito e muito tempo, a atitude de persistência e fé em dias melhores servirá de exemplo e ficará guardada na memória do torcedor alvinegro para revelar um dos elencos mais comprometidos que já pisaram num gramado vestindo preto e branco nos últimos anos.
Eficiência
Por mais contestada que tenha sido, a dupla de ataque do ABC reeditada ontem no Estádio Ninho do Periquito, não deve nada a ninguém. Com Vanderlei e Rodrigo Silva em campo, os abecedistas não passaram em branco e cada um dos atletas marcaram, com o terceiro gol, contando inclusive com a participação do centroavante artilheiro do Alvinegro na temporada com um desvio de cabeça. Lado a lado, a dupla chega a 11 gols e comprova que, apesar de não agradarem a torcida com ações vistosas no ataque, é suficiente para colocar a bola na rede.
Bronca grande
Na entrevista coletiva após o empate contra o Assu, no Estádio Nazarenão, o técnico Roberto Fernandes não queria tratar de outro assunto senão a baixa produção ofensiva do ataque americano. Alvejado pelos repórteres com perguntas sobre diversos temas, o treinador sempre escapulia para retomar o assunto dos gols perdidos, maré que segundo ele, tem incomodado desde a Copa do Nordeste.
Reação surpreendente
É de se tirar o chapéu para o desempenho do Corintians de Caicó. A equipe comanda por Gilberto Gaúcho, apesar dos tropeços, tem se mostrado eficiente na recuperação e reassumiu a liderança perdida na quarta rodada do turno após a goleada por 6 a 1 sofrida para o ABC. Venceu os dois jogos seguintes e agora depende apenas de si para chegar à decisão do turno. E a missão não promete ser das mais complicadas, já que terá pela frente na última rodada o lanterna da competição: o Baraúnas.


