Messi aparece e salva a Argentina no fim: 1 a 0, no sufoco com o Irã

Diante de uma torcida inflamada no Mineirão, o camisa 10 fazia um jogo muito ruim – assim como toda a equipe. Num dos últimos lances da partida, decidiu

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Era o vigésimo aniversário do último gol de Diego Maradona numa Copa do Mundo, em 21 de junho de 1994, contra a Grécia. Durante cerca de dez minutos antes da partida contra o frágil Irã, a torcida argentina, em maioria massacrante no Mineirão, cantou de forma ininterrupta o cântico que diz que “Maradona é maior que Pelé”. O ex-craque, presente ao estádio, saboreou a homenagem com um gostinho especial – afinal, a provocação aos brasileiros acontecia no Estado natal do rei do futebol. Para a festa ficar completa, faltava só o sucessor de Maradona entrar em ação. E o retorno de Lionel Messi ao estádio onde ele foi ovacionado pelos brasileiros (em 2008, num 0 a 0 pelas Eliminatórias), neste sábado, em Belo Horizonte, foi épico – não por sua atuação, que era ruim até o finzinho da partida, mas pelo desfecho do jogo, decidido por ele aos 45 minutos do segundo tempo, com mais um belo gol, seu segundo nesta Copa do Mundo. A equipe de Messi lidera seu grupo, com seis pontos ganhos, e está classificada às oitavas – mas, pela segunda vez na competição, a seleção apontada como uma das favoritas ao título mostra um futebol muito abaixo do que se espera dela. A Argentina fecha a fase de grupos na quarta-feira, no Beira-Rio, em Porto Alegre, contra a Nigéria, enquanto o Irã pega a Bósnia em Salvador. Ainda neste sábado, às 18 horas (de Brasília), nigerianos e bósnios se encaram em Cuiabá.

Apatia – Apesar do barulho de sua torcida, em estado quase delirante, a favorita fez um primeiro tempo sofrível, pelo menos diante das expectativas que cercam um time que conta com Messi, Dí María, Agüero e Higuaín no setor ofensivo. Com o camisa 10 isolado pela direita, pouca inspiração na criação de jogadas e uma postura apática, a Argentina não conseguia encontrar um caminho até o gol. Firme na defesa mas muito limitado nas suas tentativas de agredir, o Irã deixava o jogo amarrado e feio, como lhe convinha, aliás. Os argentinos custaram a criar alguma oportunidade. Aos 13 minutos, Higuaín recebeu lançamento rasteiro de Messi e tentou bater de virada, mas o goleiro Haghighi bloqueou o disparo. Aos 18, Dí María arriscou da entrada da área, chutando pelo alto. Enquanto isso, a disputa era acirrada também entre os torcedores: em vários pontos do Mineirão, argentinos e brasileiros discutiam, se xingavam e trocavam provocações, às vezes exigindo a intervenção dos funcionários da segurança privada que atua nos estádios da Copa. Aos 21, Higuaín ajeitou para Agüero na área e ele bateu com curva, à meia altura, exigindo boa defesa do goleiro iraniano.

Dois minutos depois, Rojo, de cabeça, levou perigo, raspando o poste esquerdo de Haghighi. Marcado com disciplina xiita pelos oponentes, Messi aparecia pouco – e, quando enfim recebia a bola, era caçado de maneira impiedosa pelos defensores. Aos 31, ele sofreu falta perto da meia-lua. Na cobrança, bateu com efeito, mas pelo alto. A Argentina só levava perigo nas bolas paradas. Depois de mais uma falta nos arredores da área, o zagueiro Garay aproveitou o cruzamento e quase marcou de cabeça aos 35. De novo, a bola passou por cima. O Irã também aproveitava os cruzamentos para especular um pouco no ataque: aos 40, Hosseini subiu bem na batida de escanteio e assustou o goleiro Sergio Romero, que viu a cabeçada passar rente à trave. Agora desanimada, a torcida argentina ouvia calada os gritos de apoio dos brasileiros à seleção iraniana. Os jogadores também deixavam transparecer sua impaciência, cometendo algumas faltas duras e distribuindo muitos passes errados. O primeiro tempo terminava com um coro de apoio aos azarões da tarde.

Bombardeio – No reinício da partida, a Argentina até tentou pressionar mais, mas o segundo tempo começava bem parecido com o primeiro, com a favorita atuando com pouca mobilidade e dinâmica de jogo e os azarões recolhidos em seu campo defensivo. Aos 7 minutos, porém, os iranianos puxaram o contra-ataque e quase abriram o marcador: abusado, Shojaei saiu driblando pelo meio e acionou Dejagah, que cruzou para Reza completar de cabeça quase na pequena área. Meio desajeitado, Romero espalmou. Sentindo o momento muito delicado, os torcedores argentinos finalmente voltaram a apoiar a equipe. Só que faltava futebol: com exceção de Ángel Dí María, o único integrante do quarteto ofensivo argentino que chegou em boa forma à Copa, ninguém conseguia clarear o jogo para a equipe do técnico Alejandro Sabella. Numa rara distração dos marcadores iranianos, aos 14 minutos, Messi recebeu com espaço de sobra para arrancar em direção ao gol, bem ao estilo que o consagrou. Mas parecia não ser o dia do craque, que colocou para fora, perdendo uma oportunidade preciosa. O sofrimento argentino aumentava: aos 19, depois de mais um cruzamento iraniano sobre a área, a bola rondou o gol mas ninguém surgiu para empurrar para as redes em meio à confusão.

Agora eram os iranianos que mandavam no jogo, e aos 22, Romero fez uma defesa dificílima, espalmando com a ponta dos dedos, depois de uma cabeçada traiçoeira de Hosseini. Messi reapareceu no jogo, tentou chamar a responsabilidade para sim, mas não conseguia criar. Dí Maria, a esperança solitária dos argentinos, quase sofreu pênalti ao tentar invadir a área em velocidade – recebeu a falta a um passo da área. Messi bateu de novo, outra vez sem precisão. O goleiro Haghughi precisou trabalhar de novo aos 29, quando Di María, sempre ele, soltou a bomba em diagonal. Faltando 15 minutos, Sabella colocou Lavezzi no lugar de Agüero e Palacio na vaga de Higuaín. O Irã ficou ainda mais acuado. Na base da pressão, sem muita organização nem inspiração, os argentinos martelavam, mas de forma ineficaz. O bom arqueiro Haghughi voltou a frustrar os argentinos aos 39, saltando como um gato persa para desviar o cabeceio de Palacio. Romero também era colocado à prova: aos 41, Reza recebeu na cara do goleiro e bateu cruzado. O argentino espalmou. O bombardeio dos favoritos continuou sem pausas até os 45 minutos da etapa derradeira, quando Messi enfim conseguiu decidir o jogo: ele recolheu a bola no bico direito da área e chutou de esquerda, no cantinho, fazendo a torcida argentina explodir (o Mineirão chegou a balançar). Encerrada a partida, o  coro dos início da tarde foi retomado – e, apesar das reverências a Messi depois do gol, os argentinos seguiam cantando que “Maradona é maior que Pelé”.

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